1) BIOGRAFIA – QUEM FOI EÇA DE QUEIRÓS?
José Maria Eça de Queirós nasceu em 25 de novembro de
1845, numa pequena cidade na região norte de Portugal, chamada Póvoa
de Varzim. Era filho de José Maria Teixeira de Queirós e de Carolina
Augusta Pereira d’Eça. Mas porque seus pais eram solteiros quando
ele nasceu, foi registrado como filho de José Maria e de “mãe
incógnita”, o que é uma situação inusitada.
Muito se tem especulado sobre os reflexos, na obra de Eça, dessa sua
origem ilegítima. Mas tudo são conjecturas de pequeno alcance
para o conhecimento e a apreciação literária da imensa
obra que nos deixou. De modo que esse fato vai registrado aqui apenas como
curiosidade e informação. São poucos também os
dados de que dispomos sobre a infância de Eça. Sabemos que seus
pais se casaram quatro anos após o seu nascimento; e também que
isso não implicou grandes mudanças na vida do pequeno José Maria,
pois continuou morando com os avós paternos, e quando deixou a casa
destes, em 1855, foi para iniciar estudos regulares num colégio do Porto,
como aluno interno.
O que importa dessa circunstância pessoal, no que diz respeito à obra
literária de Eça de Queirós, é que provavelmente
se deva a ela o fato de quase não haver depoimentos e memórias
do escritor sobre a sua infância. Do ponto de vista das suas próprias
memórias escritas, sua biografia começa quando ele está para
fazer 16 anos, no final do ano de 1861, e está prestando exame de francês
para matricular-se na Universidade de Coimbra.
Em Coimbra, Eça nunca foi um aluno brilhante, e nunca demonstrou qualquer
respeito pelo tipo de conhecimento que era exibido e exigido nas aulas e nos
exames. Muito pelo contrário, inúmeras vezes se queixou do pequeno
alcance intelectual dos professores e da forma obtusa de conduzir o ensino
e a avaliação. Por outro lado, a vida
estudantil em Coimbra forneceu-lhe matéria para páginas memoráveis,
como aquelas em que evoca a figura de Antero de Quental, líder dos estudantes
que exigiam mudanças na velha ordem acadêmica.
Coimbra vivia, naquela primeira metade da década de 1860, um momento
muito especial, pois ali se formava, sob a liderança de Antero, uma
geração que iria mudar as referências culturais portuguesas,
introduzindo no país o pensamento socialista por meio da pregação
do próprio Antero e de seu amigo Oliveira Martins. A nova geração
começará a intervir na vida nacional, de maneira mais ampla,
em 1865, quando se desencadeia a famosa Questão Coimbrã.
Chama-se Questão Coimbrã a uma enorme polêmica, de que
participavam inúmeros intelectuais portugueses, desencadeada por uma
carta aberta de Antero de Quental a Antônio Feliciano de Castilho. Castilho
era uma espécie de poeta oficila português, de índole romântica.
Num prefácio ao livro de um seu protegido, aludira de passagemà meneira
obscura dos jovens poetas de Coimbra. Foi o que bastou para que Antero lhe
dirigisse uma carta ofensiva e irônica, em que o acusava de autoritário,
vazio de idéias e mau poeta. Castilho nunca respondeu, mas muitos outros
escritores se solidarizaram com ele contra Antero. Eça não parece
ter participado ativamente da polêmica, mas certamente a ela assistiu
e dela participou de alguma forma, já que integrava o grupo que se reuniu à volta
de Antero de Quental.
É
esse mesmo grupo de Coimbra, desencadeador da Questão, que programará e
começará a realizar, de novo sob a liderança de antero,
uma série de conferências abertas, destinadas, a instruir a população
e a apontar caminhos para a cultura portuguesa. Denominado Conferências
Democráticas, foram realizadas no Casino Lisboense, em 1871. Proibidas
pelo governo marcam elas o momento da introdução do Realismo
em Portugal e o inicio do predomínio intelectual do grupo a que pertencia
Eça de Queirós. Esse grupo será conhecido na história
portuguesa com o nome de Geração de 70.
Entre a formatura em Coimbra, em 1866, e o ano da realização
das Confêrencias, Eça tenta estabelecer-se como advogado em Lisboa,
sem sucesso; depois dirige um jornal em Évora, no alentejo, de onde
retorna a Lisboa em meados de 1867. No final de 1869, vamos encontrá-lo
a caminho do Egito, para assistir à abertura do Canal de Suez, e, no
início do ano seguinte, já volta de Lisboa, onde participa ativamente
na elaboração do programa e na realização das Conferências. É nessa época
que decide ingressar na diplomacia. Antes de assumir o seu primeiro cargo de
cônsul, vive seis meses na província, em Leiria, durante o ano
de 1870, como administrador do Conselho.
Quando vai para Cuba, em 1872, Eça de Queirós já é um
escritor conhecido. Além de vários folhetins, que seriam reunidos
postumamente com o título de Prosas Bárbaras (1903), tinha escrito
duas obras em parceria com Ramalho Ortigão: uma longa série de
crônicas satíricas da vida portuguesa intitulada As Farpas, publicadas
mensalmente a partir de 1871; e um folhetim romântico e rocambolesco
intitulado O Mistério da Estrada de Sintra, publicado em jornal e em
livro em 1870.
Em 1874, Eça de Queirós é nomeado cônsul na Inglaterra,
onde permanece lotadoaté 1888, quando é transferido para Paris.
No ano seguinte, 1875, a Revista Ocidental, dirigida,
entre outros, por Antero de Quental, publica em fascículos O Crime do Padre Amaro. Trata-se de
uma versão não autorizada pelo autor, que tentou por todas as
formas impedir a publicação. No ano de 1876, sai enfim em volume,
com texto muito diferente do que tinha saído na revista, esse que pode
ser considerado o primeiro romance queirosiano.
A vida de Eça de Queirós não oferece muitos episódios
a partir dessa data. De fato o escritor viveu dedicado à sua obra e
aos seus amigos, e tudo o que é preciso relatar, talvez, é que
em 1886, já contando 41 anos, casa-se com Emília de Castro, de
família nobre portuguesa, com quem terá quatro filhos. O mais é a
sua obra, cuja cronologia principal em livro é a que segue:
1878: 1ª e 2ª edições de O Primo Basílio;
1880: 2ª edição em livro de O Crime do Padre Amaro; publicação,
em folhetins, de O Mandarim;
1884: publicação de O Mandarim numa revista francesa;
1885: segunda edição de O Mistério da Estrada de Sintra;
1887: A Relíquia;
1888: Os Maias;
1900: ? Correspondência de Fradique Mendes; ? A Ilustre Casa de Ramires;
1901: ? A Cidade e as Serras;
1902: ? Contos;
1903: ? Prosas Bárbaras.
Eça de Queirós faleceu em agosto de 1990, deixando revisadas
as provas da Correspondência de Fradique Mendes e de A Ilustre Casa de
Ramires. A novela A Cidade e as Serras foi publicada com revisão e intervenções
de Ramalho Ortigão, e os Contos foram editados por outro amigo do autor,
Luís de Magalhães. Posteriormente foram ainda publicados em volume
vários outros textos de Eca, entre os quais A Capital!, em 1925 e O
Egito, em 1926.
Extraído de: QUEIROZ, Eça de. A Cidade e as Serras.
São Paulo: Ateliê Editorial, 2007.
2) CONTEXTO – O QUE ACONTECEU EM PORTUGAL NO SÉCULO
XIX?
A resposta imediata
a essa pergunta poderia ser: o caos! Mas, vamos lá, que assunto dá pano
pra manga ...
Portugal é a nação mais antiga de toda
a Europa. Formada em 1241, sua sociedade fixou-se e solidificou-se
sob uma base feudal.
A Península Ibérica durante os séculos XVII, XVIII e XIX
apresenta um quadro de abatimento e insignificância quando contrastados
tanto com os outros países Centro-Europeus que tiveram suas revoluções
(Inglaterra e França), quanto com a sua grandeza, a sua importância
e a sua originalidade desempenhadas até o primeiro período da
Renascença. Neste último período, para dar um exemplo
da grandeza no campo literário, um estilo e uma literatura nova surgiram
com autores como Camões, Cervantes, Gil Vicente, Lope de Vega e Sá de
Miranda. Não se esquecendo da supremacia marítima íbero-peninsular
e suas conquistas latino-americanas, africanas e asiáticas.
O final do século XVII e a primeira metade do século XVIII assistiram
ao florescimento da exploração mineira do Brasil, onde se descobriram
ouro e pedras preciosas que fizeram da corte de D. João V uma das mais
opulentas da Europa. Estas riquezas serviam frequentemente para pagar produtos
importados, maioritariamente da Inglaterra (por exemplo, quase não existia
indústria têxtil no reino e todos os tecidos eram importados de
Inglaterra). O comércio externo baseava-se na indústria do vinho.
Por não quebrar a aliança com a Inglaterra e recusar-se a aderir
ao Bloqueio Continental, Portugal foi invadido pelo exército napoleônico
em 1807. A Corte e a família real portuguesa refugiaram-se no Brasil,
e a capital deslocou-se para o Rio de Janeiro, onde permaneceria até 1821,
quando D. João VI, desde 1816 rei do Reino Unido de Portugal, Brasil
e Algarves, regressou a Lisboa para jurar a primeira Constituição.
Portugal, durante a invasão, foi cenário de inúmeras batalhas
entre Inglaterra e França. Esse fato junto a falta de uma liderança
presente causou revolta na população. No ano seguinte, o seu
filho D. Pedro IV era proclamado imperador do Brasil, mantendo-se, no entanto
o império do Brasil e o Reino de Portugal unidos durante cerca de dez
anos.
Portugal viveu, no restante século XIX, períodos de enorme perturbação
política e social (a guerra civil e repetidas revoltas e pronunciamentos
militares, como a Revolução de Setembro, a Maria da Fonte, a
Patuleia, etc.).
A Guerra Civil Portuguesa aconteceu em torno da Crise de Sucessão ao
Trono Português que opôs o partido cartista, constitucionalista
ou liberal, liderado pelo ex-imperador D. Pedro I do Brasil, e ex-rei D. Pedro
IV de Portugal, auto-proclamado regente do Reino e o partido tradicionalista,
legitimista, ou absolutista, encabeçado por D. Miguel I, rei de Portugal.
Em causa estava a determinação do princípe com legitimidade
para assumir o trono de Portugal, mas havia também um fundo conflito
ideológico entre, de um lado, os que defendiam que a legitimidade dinástica
emanava de decisões pessoais do rei, com poder inclusive para outorgar
ao povo uma Carta Constitucional (pedristas), e do outro, a idéia de
que os reis são investidos segundo as Leis fundamentais do reino e através
da representação nacional reunida em Cortes (miguelistas). Ou
seja, liberais e absolutistas dividiam o cenário político português,
contudo, os liberais saem vitoriosos, resultando, entre outras coisas, no exílio
de D. Miguel (fator determinante para o auto-exílio do avô de
Jacinto).
Só com o Ato Adicional à Carta, de 1852, foi possível
a acalmia política e o início da política de fomento protagonizada
por Fontes Pereira de Melo. O ambicioso programa de obras públicas então
encetado, com a construção de pontes, estradas e o início
da construção da malha ferroviária portuguesa, foi essencialmente
financiada com recurso a empréstimos externos, nomeadamente junto da
banca inglesa, o que acabaria por levar ao colapso financeiro, e depois político
do governo, com o consequente retorno à instabilidade.
Além disso tudo, no final do século XIX, as ambições
coloniais portuguesas chocam-se com as inglesas, o que dá origem ao
Ultimato de 1890 (quebrando um pacto de proteção fixado desde
1386). O Ultimato britânico de 1890 foi uma exigência do governo
britânico a Portugal, para a retirada das forças militares existentes
no território compreendido entre as colónias de Moçambique
e Angola, no atual Zimbabwe. A cessão às exigências britânicas
e os crescentes problemas econômicos lançam a monarquia num descrédito
crescente, e D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe são
assassinados em 1 de Fevereiro de 1908.
Antero de Quental em sua conferência vetada no Cassino Lisboense, nomeada
de “Causas da decadência dos povos peninsulares”, aponta
para os três principais pontos de atraso de sua nação:
PORTUGAL (Vícios antigos) OUTRAS NAÇÕES
CENTRO-EUROPÉIAS (Virtudes modernas)
PENSAMENTO/ MORAL TRANSFORMAÇÃO DO CATOLICISMO
PELO CONSELHO DE TRENTO – igreja dogmática LIBERDADE
MORAL CONQUISTADA PELA REFORMA /
POLÍTICA ABSOLUTISMO – “ruína das liberdades
locais” LIBERALISMO E ELEVAÇÃO DA CLASSE
MÉDIA COMO INSTRUMENTO DO PROGRESSO
TRABALHO DESENVOLVIMENTO DAS CONQUISTAS LONGíNQUAS – dependência
colonial INDÚSTRIA (verdadeiro fundamento do mundo – livre
mercado)
São exatamente esses pontos decadentes que foram explorados
pelos literatos realistas portugueses.
3) TEXTO – OBRA RESUMIDA, ESQUEMAS E TRECHOS
3.1) A PROSA REALISTA:
Abandona-se o esquema do Romantismo no qual se valoriza a intriga
e se
visava ao
entretenimento, além
de ser apologia do casamento. No realismo, o romanceé uma
arma de combate, arma de ação reformadora da sociedade
burguesa dos fins do século XIX. Defensor dos ideais cientificistas
e filosóficos, atacando as três bases do Romantismo:
a burguesia, como classe social dominante; a monarquia, como
classe política em decadência e o clero, como força
ideológica.
3.2) RESUMO DE A CIDADE E AS SERRAS
O romance começa com a apresentação de Jacinto, parisiense
rico e sofisticado, neto de portugueses que se auto-exilaram na França,
em Paris, após a derrota de D. Miguel. Quem narra a história é um
amigo de Jacinto, Zé Fernandes, português de família tradicional,
com terra em Guiães.
Zé Fernandes se vê na contingência de voltar para Portugal
em função de negócios de família. Ali permanece
por sete anos. Retorna a Paris e reencontra Jacinto, que está cada vez
mais sofisticado, possuindo tudo que há de mais moderno em sua residência
no 202 dos Campos Elíseos. Jacinto, a quem Zé Fernandes chama
ironicamente de meu Príncipe, Príncipe da Grã-Ventura,
acredita que “o homem só é superiormente feliz quando é
superiormente civilizado”. Um amigo de Jacinto cria a seguinte fórmula
algébrica para ilustrar o pensamento de Jacinto: “suma ciência
X suma potência = suma felicidade”. Jacinto tem uma amante em Paris,
Madame de Oriol e vive uma vida mundana de passeios públicos e vida
social ativa.
Zé Fernandes resolve viajar pela Europa e quando retorna encontra Jacinto
muito diferente, sentindo-se tremendamente entediado com o mundo em que vive.
Nas palavras se seu empregado Grilo, passa a sofrer de “fartura”.
Passa a ler Schopenhauer e torna-se um pessimista de primeira.
Em razão do translado dos ossos de seus avós para a capela que
havia sido reformada em Tormes, Portugal, Jacinto resolve visitar pela primeira
vez as serras de sua família. Para tanto, envia para lá todo
o conforto que tinha em Paris, além de carregar consigo inúmeros
outros apetrechos. Toda a bagagem é extraviada para Alba de Tormes,
na Espanha, por culpa de seu criado, o Grilo, e Jacinto junto com Zé Dernandes
chegam em Tormes só com a roupa do corpo. Disposto a voltar para Lisboa
no dia seguinte, acaba permanecendo em Tormes e aprendendo a viver sem os apetrechos
da cidade.
Posteriormente, passa a fazer melhorias em suas terras, tanto para a propriedade,
quanto para a população camponesa, e chega a ganhar fama de ser
Dom Sebastião por esses, e de Dom Miguel disfarçado pela elite
rural. Casa-se com Joaninha, prima de Zé Fernandes, e fixa residência
em Tormes.
Zé Fernandes ainda retorna a Paris, mas acha tudo decadente e estéril.
Zé Fernandes retorna às serras e, antes de subi-las, livra-se,
após um conselho de Jacinto, de alguns folhetos mundanos e eróticos
que trouxera de Paris.
3.3) ESQUEMAS

PERSONAGENS ESPAÇO
NARRADOR
- Jacinto: protagonista
- Zé Fernandes: amigo de Jacinto e narrador
- Grilo: empregado de Jacinto
- Joaninha: moça de Guiães, prima de Zé Fernandes
e esposa de Jacinto
- Silvério: empregado de Jacinto em Tormes
- Sousa: procurador em Tormes
- Madame de Oriol: amante de Jacinto em Paris
- Madame Colombe: amante de Zé Fernandes
- Jacinto Galeão: avô de Jacinto, miguelista
FRANÇA/PARIS : Residência nos Campos Elíseos
202
PORTUGAL/TORMES: Quinta
da família de Jacinto - Zé Fernandes:
NARRADOR SECUNDÁRIO OU NARRADOR TESTEMUNHA
Por participar da história tem uma visão comprometida
da “realidade”. Emprega sua subjetividade e compromete
a perspectiva naturalista.
OBS: As obras iniciais de Eça (O Crime do Padre Amaro/
O primo Basílio) tem um narrador onisciente.
Zé Fernandes é uma português culto, conservador
e elitista (sua crítica não visa a transformação
da ordem social, mas uma posição ironica que lhe
favorece socialmente).
TEMPO
FIM DO SÉCULO XIX : DÉCADAS DE 1860 A 1880
EPISÓDIOS MARCANTES
- Festa na casa de Jacinto –peixe entalado no elevador
- Visita ao Sacré Coeur
- Dia de chuva em Tormes
3.4) TRECHOS
I
O meu amigo Jacinto
nasceu num palácio, com cento e nove
contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça
e de olival.
No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras,
densas sebes ondulando pôr e vale, muros altos de boa pedra,
ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família
agrícola que já entulhava o grão e plantava
cepa em tempos de el-rei d.Dinis. A sua Quinta e casa senhorial
de Tormes, no Baixo douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o
Tinhela, pôr cinco fartas léguas, todo o torrão
lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus negrejavam desde
Arga até ao mar de âncora. Mas o palácio
onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em Paris, nos
Campos Elísios, nº.202.
Seu avô, aquele gordíssimo e riquíssimo Jacinto
a quem chamavam em Lisboa o D.Galião, descendo uma tarde
pela travessa da Trabuqueta, rente dum muro de quintal que uma
parreira toldava, escorregou numa casca de laranja e desabou
no lajedo. Da portinha da horta saía nesse momento um
homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde
e botas altas de picador, que, galhofando e com uma força
fácil, levantou o enorme Jacinto – até lhe
apanhou a bengala de castão de ouro que rolara para o
lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos e pretos:
- Ó Jacinto Galião, que andas tu aqui, a estas
horas, a rebolar pelas pedras?
E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o sr. Infante D.
Miguel!
Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca amara, apesar
de tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto
o seu Deus! Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou
sobre os damascos o retrato do “seu Salvador”, enfeitado
de palmitos como um retábulo e, pôr baixo a bengala
que as magnânimas mãos reais tinham erguido do lixo.
Enquanto o adorável, desejado Infante penou no desterro
de Viena, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarela,
do botequim do Zé Maria em Belém à botica
do Plácido nos Algibebes, a gemer as saudades do anjinho,
a tramar o regresso do anjinho. No dia, entre todos benedito,
em que a Pérola apareceu à barra com o Messias,
engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão
e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de auréola
e asas de Arcanjo, furava de cima do seu corcel de Alter o Dragão
do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Carta. Durante a
guerra com o “outro, com o pedreiro-livre” mandava
recoveiros a Santo Tirso, a S.Gens, levar ao Rei fiambres, caixas
de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retrós
atochadas de peças que ele ensaboava para lhes avivar
o ouro. E quando soube que o sr. Miguel, com dois velhos baús
amarrados sobre um macho, tomara o caminho de Sines e do final
desterro – Jacinto Galião correu pela casa, fechou
todas as janelas como num luto, berrando furiosamente:
- Também cá não fico! Também cá não
fico!
Não, não queria ficar na terra perversa de onde
partia, esbulhado e escorraçado, aquele Rei de Portugal
que levantava na rua os Jacintos! Embarcou para França
com a mulher, a Srª. D. Angelina Fafes (da tão falada
casa dos Fafes da Avelã); com o filho, o Cintinho, menino
amarelinho, molezinho, coberto de caroços e leicenços;
com a aia e com o moleque. Nas costas da Cantábria o paquete
encontrou tão rijos mares que a Srª. D. Angelina,
esguedelhada, de joelhos na enxerga do beliche, prometeu ao Senhor
dos Passos de Alcântara uma coroa de espinhos, de ouro,
com as gotas de sangue em rubis do Pegu. Em Baiona, onde arribaram,
Cintinho teve icterícia. Na estrada de Orleães,
numa noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam partiu,
e o nédio senhor, a delicada senhora da casa da Avelã,
o menino, marcharam três horas na chuva e na lama do exílio
até uma aldeia, onde, depois de baterem como mendigos
a portas mudas, dormiam nos bancos duma taberna. No “Hotel
dos Santos Padres”, em Paris, sofreram os terrores dum
fogo que rebentara na cavalariça, sob o quarto de D.Galião,
e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em camisa, até ao
pátio, enterrou o pé nu numa lasca de vidro. Então
ergueu amargamente ao Céu o punho cabeludo, e rugiu:
- Irra! É demais!
Logo nessa semana,
sem escolher, Jacinto Galião comprou
a um príncipe polaco, que depois da tomada de Varsóvia
se metera frade cartuxo, aquele palacete dos Campos Elísios,
nº.202. E sob o pesado ouro dos seus estuques, entre as
suas ramalhudas sedas se enconchou, descansando de tantas agitações,
numa vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros
de emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde
de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão,
duma lampreia de escabeche que mandara o seu procurador em Montemor.
Os amigos pensavam que a Srª. D. Angelina Fafes voltaria
ao reino. Mas a boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças
que racham. E não se queria separar do seu Confessor,
nem do seu Médico, que tão bem lhe compreendiam
os escrúpulos e a asma.
- Eu, pôr mim, aqui fico no 202 (declarara ela), ainda
que me faz falta a boa água de Alcolena...
O Cintinho, esse, em crescendo, que decida.
O Cintinho crescera. Era um moço mais esguio e lívido
que um círio, de longos cabelos corredios, narigudo, silencioso,
encafuado em roupas pretas, muito largas e bambas; de noite,
sem dormir, pôr causa da tosse e de sufocações,
errava em camisa com uma lamparina através do 202; e os
criados na copa sempre lhe chamavam a Sombra. Nessa sua mudez
e indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá,
o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno; depois, mais
tarde, com a medida flor dos seus vinte anos, brotou nele outro
sentimento, de desejo e de pasmo, pela filha do desembargador
Velho, uma menina redondinha como uma rola, educada num convento
de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava, consertava
relógios e fabricava chapéus de feltro. No Outono
de 1851, quando já se desfolhavam os castanheiros dos
Campos Elísios, o Cintinho cuspilhou sangue. O médico
acarinhando o queixo e com uma ruga séria na testa imensa,
aconselhou que o menino abalasse para o golfo Juan ou para as
tépidas areias de Arcachon.
Cintinho, porém, no seu aferro de sombra, não se
quis arredar da Teresinha Velho, de quem se tornara, através
de Paris, a muda, tardonha sombra. Como uma sombra, casou; deu
mais algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou,
como uma sombra.
Três meses e três
dias depois do seu enterro o meu Jacinto nasceu.
Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e âmbar
para afugentar a Sorte-Ruim, Jacinto medrou com a segurança,
a rijeza, a seiva rica dum pinheiro das dunas.
Não teve sarampo e não teve lombrigas. As letras,
a Tabuada, o Latim entraram pôr ele tão facilmente
como o sol pôr uma vidraça. Entre os camaradas,
nos pátios dos colégios, erguendo a sua espada
de lata e lançando um brado de comando, foi logo o vencedor,
o Rei que se adula, e a quem se cede a fruta das merendas. Na
idade em que se lê Balzac e Musset nunca atravessou os
tormentos da sensibilidade; - nem crepúsculos quentes
o retiveram na solidão duma janela, padecendo dum desejo
sem forma e sem nome. Todos os seus amigos (éramos três,
contando o seu velho escudeiro preto, o Grilo) lhe conservaram
sempre amizades puras e certas – sem que jamais a participação
do seu luxo as avivasse ou fossem desanimadas pelas evidências
do seu egoísmo. Sem coração bastante forte
para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade
que o libertava, do amor só experimentou o mel – esse
mel que o amor reserva aos que o recolhem, à maneira das
abelhas, com ligeireza, mobilidade e cantando. Rijo, rico, indiferente
ao Estado e ao Governo do Homens, nunca lhe conhecemos outra
ambição além de compreender bem as Idéias
Gerais; e a sua inteligência, nos anos alegres de escolas
e controvérsias, circulava dentro das Filosofias mais
densas como enguia lustrosa na água limpa dum tanque.
O seu valor, genuíno, de fino quilate, nunca foi desconhecido,
nem desaparecido; e toda a opinião, ou mera facécia
que lançasse, logo encontrava uma aragem de simpatia e
concordância que a erguia, a mantinha embalada e rebrilhando
nas alturas. Era servido pelas coisas com docilidade e carinho;
- e não recordo que jamais lhe estalasse um botão
da camisa, ou que um papel maliciosamente se escondesse dos seus
olhos, ou que ante a sua vivacidade e pressa uma gaveta pérfida
emperrasse. Quando um dia, rindo com descrido riso da Fortuna
e da sua roda, comprou a um sacristão espanhol um Décimo
de Lotaria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre a sua roda,
correu num fulgor, para lhe trazer quatrocentas mil pesetas.
E no céu as Nuvens, pejadas e lentas se avistavam Jacinto
sem guarda-chuva, retinham com reverência as suas águas
até que ele passasse... Ah! O âmbar e o funcho da
Srª.D. Angelina tinham escorraçado do seu destino,
bem triunfalmente e para sempre, a Sorte-Ruim! A amorável
avó (que eu conheci obesa, com barba) costumava citar
um soneto natalício do desembargador Nunes Velho contendo
um verso de boa lição:
Sabei, senhora que esta vida é um rio....
Pois um rio de Verão, manso, translúcido, harmoniosamente
estendido sobre uma areia macia e alva, pôr entre arvoredos
fragrantes e ditosas aldeias, não ofereceria àquele
que o descesse num barco de cedro, bem toldado e bem almofadado,
com frutas e Champanhe a refrescar em gelo, um Anjo governando
ao leme, outros Anjos puxando à sirga, mais segurança
e doçura do que a Vida oferecia ao meu amigo Jacinto.
Pôr isso nós lhe chamávamos “o Príncipe
da Grã-Ventura”!
Jacinto e eu, José Fernandes, ambos nos encontramos e
acamaradamos em Paris, nas Escolas do Bairro Latino – para
onde me mandara meu bom tio Afonso Fernandes Lorena de Noronha
e Sande, quando aqueles malvados me riscaram da Universidade
pôr eu ter esborrachado, numa tarde de procissão,
na Sofia, a cara sórdida do dr. Pais Pita. Ora nesse tempo
Jacinto concebera uma idéia... Este Príncipe concebera
a idéia de que o “homem só é superiormente
feliz quando é superiormente civilizado”. E pôr
homem civilizado o meu camarada entendia aquele que, robustecendo
a sua força pensante com todas as noções
adquiridas desde Aristóteles, e multiplicando a potência
corporal dos seus órgãos com todos os mecanismos
inventados desde Terâmenes, criador da roda, se torna um
magnífico Adão, quase onipotente, quase onisciente,
e apto portanto a recolher dentro duma sociedade, e nos limites
do Progresso (tal) como ele se comportava em 1875) todos os gozos
e todos os proveitos que resultam de Saber e Poder... Pelo menos
assim Jacinto formulava copiosamente a sua idéia, quando
conversávamos de fins e destinos humanos, sorvendo bocks
poeirentos, sob o toldo das cervejarias filosóficas, no
Boulevard Saint-Michel.
Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de
cenáculo, que tendo surgido para a vida intelectual, de
1866 a 1875, entre a batalha de Sadova e a batalha de Sedan e
ouvindo constantemente, desde então, aos técnicos
e aos filósofos, que fora a Espingarda-de-agulha que vencera
em Sadova e fora o Mestre-de-escola quem vencera em Sedan, estavam
largamente preparados a acreditar que a felicidade dos indivíduos,
como a das nações, se realiza pelo ilimitado desenvolvimento
da Mecânica e da erudição. Um desses moços
mesmo, o nosso inventivo Jorge Carlande, reduzira a teoria de
Jacinto, para lhe facilitar a circulação e lhe
condensar o brilho, a uma forma algébrica:
Suma ciência X Suma potência
= Suma felicidade =
E durante dias, do
Odeon à Sorbona, foi louvada pela
mocidade positiva a Equação Metafísica de
Jacinto.
Para Jacinto, porém, o seu conceito não era meramente
metafísico e lançado pelo gozo elegante de exercer
a razão especulativa: - mas constituía uma regra,
toda de realidade e de utilidade, determinando a conduta, modalizando
a vida. E já a esse tempo, em concordância com o
seu preceito – ele se surtira da Pequena Enciclopédia
dos Conhecimentos Universais em setenta e cinco volumes e instalara,
sobre os telhados do 202, num mirante envidraçado, um
telescópio. Justamente com esse telescópio me tornou
ele palpável a sua idéia, numa noite de Agosto,
de mole e dormente calor. Nos céus remotos lampejavam
relâmpagos lânguidos. Pela Avenida dos Campos Elísios,
os fiacres rolavam para as frescuras do Bosque, lentos, abertos,
cansados, transbordando de vestidos claros.
- Aqui tens tu, Zé Fernandes (começou Jacinto,
encostado à janela do mirante), a teoria que me governa,
bem comprovada. Com estes olhos que recebemos da Madre natureza,
lestos e sãos, nós podemos apenas distinguir além,
através da Avenida, naquela loja, uma vidraça alumiada.
Mais nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros
simples dum binóculo de corridas, percebo, pôr trás
da vidraça, presuntos, queijos, boiões de geléia
e caixas de ameixa seca. Concluo portanto que é uma mercearia.
Obtive uma noção: tenho sobre ti, que com os olhos
desarmados vês só o luzir da vidraça, uma
vantagem positiva. Se agora, em vez destes vidros simples, eu
usasse os do meu telescópio, de composição
mais científica, poderia avistar além, no planeta
Marte, os mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda
a geografia dum astro que circula a milhares de léguas
dos Campos Elísios. É outra noção,
e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, elevado
pela Civilização à sua máxima potência
de visão. E desde já, pelo lado do olho portanto,
eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, porque descubro
realidades do Universo que ele não suspeita e de que está privado.
Aplica esta prova a todos os órgãos e compreenderás
o meu princípio. Enquanto à inteligência,
e à felicidade que dela se tira pela incansável
acumulação das noções, só te
peço que compares Renan e o Grilo... Claro é portanto
que nos devemos cercar da Civilização na máximas
proporções para gozar nas máximas proporções
a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes?
- Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse
mais feliz que o Grilo; nem eu percebia que vantagem espiritual
ou temporal se colha em distinguir através do espaço
manchas num astro, ou através da Avenida dos Campos Elísios
presuntos numa vidraça. Mas concordei, porque sou bom,
e nunca desalojarei um espírito do conceito onde ele encontra
segurança, disciplina e motivo de energia. Desabotoei
o colete, e lançando um gesto para o lado do café e
das luzes:
- Vamos então beber, nas máximas proporções,
brandy and soda, com gelo?
Pôr uma conclusão bem natural, a idéia de
Civilização, para Jacinto, não se separava
da imagem de Cidade, duma enorme Cidade, com todos os seus vastos órgãos
funcionando poderosamente. Nem este meu supercivilizado amigo
compreendia que longe de armazéns servidos pôr três
mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergéis
e lezírias de trinta províncias; e de Bancos em
que retine o ouro universal; e de Fábricas fumegando com ânsia,
inventando com ânsia; e de Bibliotecas abarrotadas, a estalar,
com a papelada dos séculos; e de fundas milhas de ruas,
cortadas, pôr baixo e pôr cima, de fios de telégrafos,
de fios de telefones, de canos de gases, de canos de fezes; e
da fila atroante dos ônibus, tramas, carroças, velocípedes,
calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões duma
vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, através da Polícia,
na busca dura do pão ou sob a ilusão do gozo – o
homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, a delícia
de viver!
Quando Jacinto, no seu quarto do 202, com as varandas abertas
sobre os lilases, me desenrolava estas imagens, todo ele crescia,
iluminado. Que criação augusta, a da Cidade! Só pôr
ela, Zé Fernandes, só pôr ela, pode o homem
soberbamente afirmar a sua alma!...
- Ó Jacinto, e a religião? Pois a religião
não prova a alma?
Ele encolhia os ombros.
A religião! A religião é o
desenvolvimento suntuoso de um instinto rudimentar, comum a todos
os brutos, o terror. Um cão lambendo a mão do dono,
de quem lhe vem o osso ou o chicote, já constitui toscamente
um devoto, o consciente devoto, prostrado em rezas ante o Deus
que distribui o Céu ou o Inferno!... Mas o telefone! O
fonógrafo!
- Aí tens tu, o fonógrafo, Zé Fernandes,
me faz verdadeiramente sentir a minha superioridade de se pensante
e me separa do bicho. Acredita, não há senão
a Cidade, Zé Fernandes, não há senão
a Cidade!
E depois (acrescentava) só a Cidade lhe dava a sensação,
tão necessária à vida como o calor, da solidariedade
humana. E no 202, quando considerava em redor, nas densas massas
do casario de Paris, dois milhões de seres arquejando
na obra da Civilização (para manter na natureza
o domínio dos Jacintos!), sentia um sossego, um conchego,
só comparáveis ao do peregrino, que, ao atravessar
o deserto, se ergue no seu dromedário, e avista a longa
fila da caravana marchando, cheia de lumes e de armas...
Eu murmurava, impresionado:
-Caramba!
Ao contrário no campo, entre a inconsciência e a
impassibilidade da Natureza, ele tremia com o terror da sua fragilidade
e da sua solidão. Estava aí como perdido num mundo
que lhe não fosse fraternal; nenhum silvado encolheria
os espinhos para que ele passasse; se gemesse com fome nenhuma árvore,
pôr mais carregada, lhe estenderia o seu fruto na ponta
compassiva dum ramo. Depois, em meio da Natureza, ele assistia à súbita
e humilhante inutilização de todas as suas faculdades
superiores. De que servia, entre plantas e bichos – ser
um Gênio ou ser um Santo? As searas não compreendem
as Geórgicas, e fora necessário o socorro ansioso
de Deus, e a inversão
de todas as leis naturais,
e um violento milagre para que o lobo de Agubio não devorasse S. Francisco de Assis, que
lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe chamava “meu
irmão lobo!” Toda a intelectualidade, nos campos,
se esteriliza, e só resta a bestialidade. Nesses reinos
crassos do Vegetal e do animal duas únicas funções
se mantêm vivas, a nutritiva e a procriadora. Isolada,
sem ocupação, entre focinhos e raízes que
não cessam de sugar e de pastar, sufocando no cálido
bafo da universal fecundação, a sua pobre alma
toda se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma, uma fagulhazinha
espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de matéria;
e nessa matéria dois instintos surdiam, imperiosos e pungentes,
o de devorar e o de gerar. Ao cabo duma semana rural, de todo
o seu ser tão nobremente composto só restava um
estômago e pôr baixo um falo! A alma? Sumida sob
a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade, mergulhar
nas ondas lustrais da Civilização, para largar
nelas a crosta vegetativa, e ressurgir reumanizado, de novo espiritual
e Jacíntico!
E estas requintadas metáforas do meu amigo exprimiam sentimentos
reais – que eu testemunhei, que muito me divertiram, no único
passeio que fizemos ao campo, à bem amável e bem
sociável floresta de Montmorency. Ó delícias
de entremez, Jacinto entre a Natureza! Logo que se afastava dos
pavimentos de madeira, do macadame, qualquer chão que
os seus pés calcassem o enchia de desconfiança
e terror. Toda a relva, pôr mais crestada, lhe parecia
ressumar uma umidade mortal. De sob cada torrão, da sombra
de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de víboras,
de formas rastejantes e viscosas. No silêncio do bosque
sentia um lúgubre despovoamento do Universo. Não
tolerava a familiaridade dos galhos que lhe roçassem a
manga ou a face. Saltar uma sebe era para ele um ato degradante
que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flores que não
tivesse já encontrado em jardins, domesticadas pôr
longos séculos de servidão ornamental, o inquietavam
como venenosas. E considerava duma melancolia funambulesca certos
modos e formas do Ser inanimado, a pressa espeta e vã dos
regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorções
do arvoredo e o seu resmungar solene e tonto.
Depois duma hora, naquele honesto bosque de Montmorency, o meu
pobre amigo abafava, apavorado, experimentando já esse
lento minguar e sumir de alma que o tornava como um bicho entre
bichos. Só desanuviou quando penetramos no lajedo e no
gás de Paris – e a nossa vitória quase se
despedaçou contra um ônibus retumbante, atulhado
de cidadãos. Mandou descer pelos Boulevards, para dissipar,
na sua grossa sociabilidade, aquela materialização
em que sentia a cabeça pesada e vaga como a dum boi. E
reclamou que eu o acompanhasse ao teatro das Variedades para
sacudir, com os estribilhos da Femme à Papa, o rumor importuno
que lhe ficara dos melros cantando nos choupos altos.
Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três
anos, e era um soberbo moço em quem reaparecera a força
dos velhos Jacintos rurais. Só pelo nariz, afilado, como
narinas quase transparentes, duma mobilidade inquieta, como se
andasse fariscando perfumes, pertencia às delicadezas
do século XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das
eras rudes, crespo e quase lanígero; e o bigode, como
o dum Celta, caía em fios sedosos, que ele necessitava
aparar e frisar. Todo o seu fato, as espessas gravatas de cetim
escuro que uma pérola prendia, as luvas de anta branca,
o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes de cedro; e
usava sempre ao peito uma flor, não natural, mas composta
destramente pela sua ramalheira com pétala de flores dessemelhantes,
cravo, azálea, orquídea ou tulipa, fundidas na
mesma haste entre uma leve folhagem de funcho.
Em 1880, em Fevereiro, numa cinzenta e arrepiada manhã de
chuva, recebi uma carta de meu bom tio Afonso Fernandes, em que,
depois de lamentações sobre os seus setenta anos,
os seus males hemorroidais, e a pesada gerência dos seus
bens “que pedia homem mais novo, com pernas mais rijas” – me
ordenava que recolhesse à nossa casa de Guiães,
no Douro! Encostado ao mármore partido do fogão,
onde na véspera a minha Nini deixara um espartilho embrulhado
no Jornal dos Debates, censurei severamente meu tio que assim
cortava em botão, antes de desabrochar, a flor do meu
Saber Jurídico. Depois num Pós-Escrito ele acrescentava:
- “ O tempo aqui está lindo, o que se pode chamar
de rosas, e tua santa tia muito se recomenda, que anda lá pela
cozinha, porque vai hoje em trinta e seis anos que casamos, temos
cá o abade e o Quintais a jantar, e ela quis fazer uma
sopa dourada”.
Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa
dourada da tia Vicência. Há quantos anos não
a provava, nem o leitão assado, nem o arroz de forno da
nossa casa! Com o tempo assim tão lindo, já as
mimosas do nosso pátio vergariam sob os seus grandes cachos
amarelos. Um pedaço de céu azul, do azul de Guiães,
que outro não há tão lustroso e macio, entrou
pelo quarto, alumiou, sobre a puída tristeza do tapete,
relvas, ribeirinhos, malmequeres e flores de trevo de que meus
olhos andavam aguados. E, pôr entre as bambinelas de sarja,
passou um ar fino e forte e cheiroso de serra e de pinheiral.
Assobiando o fado meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala,
e meti solicitamente entre calças e peúgas um Tratado
de direito civil, para aprender enfim, nos vagares da aldeia,
estendido sob a faia, as leis que regem os homens. Depois, nessa
tarde, anunciei a Jacinto que partia para Guiães. O meu
camarada recuou com um surdo gemido de espanto e piedade:
-Para Guiães!...Ó Zé Fernandes, que horror!
E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que
eu me deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres,
tão longe da Cidade, uma pouca de alma dentro dum pouco
de corpo. “Leva uma poltrona! Leva a Enciclopédia
Geral! Leva caixas de aspargos!...”
Mas para o meu Jacinto,
desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era arbusto desarraigado
que não reviverá. A
mágoa com que me acompanhou ao comboio conviria excelentemente
ao meu funeral. E quando fechou sobre mim a portinhola, gravemente,
supremamente, como se cerra uma grade de sepultura, eu quase
solucei – com saudades minhas.
Cheguei a Guiães. Ainda restavam flores nas mimosas do
nosso pátio; comi com delícias a sopa dourada da
tia Vicência; de tamancos nos pés assisti à ceifa
dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia
fresca na poeira dos arraiais, arranchando a magustos, serandandoà candeia,
atiçando fogueiras de S.João, enfeitando presépios
de Natal, pôr ali me passaram docemente sete anos, tão
atarefados que nunca logrei abrir o Tratado de Direito Civil,
e tão singelos que apenas me recordo quando, em vésperas
de S.Nicolau, o abade caiu da égua à porta do Brás
das Cortes. De Jacinto só recebia raramente algumas linhas,
escrevinhadas à pressa pôr entre tumulto da Civilização.
Depois, num Setembro muito quente, ao lidar da vindima, meu bom
tio Afonso Fernandes, morreu, tão quietamente, Deus seja
louvado pôr esta graça, como se cala um passarinho
ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia
a roupa de luto. A minha afilhada Joaninha casou na matança
do porco. Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.
X
Numa dessas manhãs – justamente na véspera
do meu regresso a Guiães – o tempo, que andara pela
serra tão alegre, num inalterado riso de luz rutilante,
todo vestido de azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e
alegrando toda a natureza, desde os pássaros até os
regatos, subitamente, com uma daquelas mudanças que tornam
o seu temperamento tão semelhante ao do homem, apareceu
triste, carrancudo, todo embrulhado no seu manto cinzento, com
uma tristeza tão pesada e contagiosa que a serra entristeceu.
E não houve mais pássaro que cantasse, e os arroios
fugiram para debaixo das ervas, com um lento murmúrio
de choro.
Quando Jacinto entrou no meu quarto, não resisti à malícia
de o aterrar:
-Sudoeste! Gralhas a grasnar pôr todos esses soutos...
Temos muita água, Sr.D.Jacinto! Talvez duas semanas de água!
E agora é que se vai saber quem é aqui o fino amador
da Natureza, com esta chuva pegada, com vendaval, com a serra
toda a escorrer!
O meu Príncipe caminhou para a janela com as mãos
nas algibeiras:
-Com efeito! Está carregado. Já mandei abrir uma
das malas de Paris e tirar um casacão impermeável...
Não importa! Fica o arvoredo mais verde. E é bom
que eu conheça Tormes nos seus hábitos de Inverno.
Mas como o Melchior lhe afiançara que a “chuvinha
só viria para a tarde”, Jacinto decidiu ir antes
de almoço à Corujeira, onde o Silvério o
esperava para decidirem da sorte de uns castanheiros, muito velhos,
muito pitorescos, inteiramente interessantes, mas já roídos,
e ameaçando desabar. E, confiando nas previsões
do Melchior, partimos sem que Jacinto se vestisse à prova
de água. Não andáramos porém meio
caminho, quando, depois dum arrepio nas árvores, um negrume
carregou e, bruscamente, desabou sobre nós uma grossa
chuva oblíqua, vergastada pelo vento, que nos deixou estonteados,
agarrando os chapéus, enrodilhados na borrasca. Chamados
pôr uma grande voz, que se esganiçava no vento,
avistamos num campo mais alto, à beira dum alpendre, o
Silvério, debaixo dum guarda-chuva vermelho, que acenava,
nos indicava o trilho mais curto para aquele abrigo. E para lá rompemos,
com a chuva a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos,
cambaleantes, atordoados no vendaval, que num instante alargara
os campos, inchara os ribeiros, esboroava a terra dos socalcos,
lançara num desespero todo o arvoredo, tornara a serra
negra, bravamente agreste, hostil, inabitável.
Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que Silvério
nos esperava à beira do campo, corremos para o alpendre,
nos refugiamos naquele abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar,
o meu Príncipe, enxugando a face, enxugando o pescoço,
murmurou, desfalecido:
-Apre! que ferocidade!
Parecia espantado daquela brusca, violenta cólera duma
serra tão amável e acolhedora, que em dois meses,
inalteradamente, só lhe oferecera doçura e sombra,
e suaves céus, e quietas ramagens, e murmúrios
discretos de ribeirinhos mansos.
-Santo Deus! Vêm muitas vezes assim, estas borrascas?
Imediatamente o Silvério aterrou o meu Príncipe:
-Isto agora são brincadeiras de Verão, meu senhor!
Mas há de V. Exª. ver no Inverno, se V.Exª se
agüentar pôr cá! Então é cada
temporal, que até parece que os montes estremecem!
E contou como fora também apanhado, quando ia para a Corujeira.
Felizmente, logo de manhã, quando sentiu o ar carrancudo
e as folhinhas dos choupos a tremer, se acautelara com o chapéu
de chuva e calçara as suas grandes botas.
-Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um
caseiro de cá. Aquela casa, ali abaixo, onde está a
figueira... Mas a mulher tem estado doente, já há dias...
e como pode ser obra que se pegue, bexigas ou coisa que o valha,
pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho! Meti para o alpendre...
E o senhor D. Jacinto é voltar para casa, e mudar-se,
que temos um dia e uma noite de água.
Mas, justamente, a chuva começara a cair perpendicular,
dum céu ainda negro, onde o vento se calara; e para além
do rio e dos montes havia uma claridade, como entre cortinas
de pano cinzento que se descerram.
Jacinto repousava. Eu não cessara de me sacudir, de bater
os pés encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silvério,
passando a mão pensativa sobre o negrume das suas barbas,
refletia, emendava os seus prognósticos:
-Pois, não senhor... Ainda estia! Nunca pensei. É que
tornejou o vento.
O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em ângulo,
de pedra solta, restos de algum casebre desmantelado, e sobre
um esteio fazendo cunhal. Nesse momento só abrigava madeira,
um cuculo de cestos vazios, e um carro de bois, onde o meu Príncipe
se sentara, enrolando um cigarro, confortador. A chuva desabava,
copiosa, em longos fios reluzentes. E todos três nos calávamos,
naquela contemplação inerte e sem pensamento, em
que uma chuva grossa e serena sempre imobiliza e retém
olhos e almas.
-Ó Sr. Silvério – murmurou lentamente o meu
Príncipe -, que é que o senhor esteve aí a
dizer de bexigas?
O procurador voltou a face surpreendido:
-Eu, Exmo Sr?... Ah
sim! A mulher do Esgueira! É que
pode ser, pode ser... Não imagine V. Exª que faltam
pôr cá doenças. O ar é bom. Não
digo que não! Arzinho são, aguazinha leve, mas às
vezes, se V.Exª me dá licença, vai pôr
aí muita maleita..
-Mas não há médico, não há botica?
O Silvério teve o riso superior de quem habita regiões
civilizadas e bem providas...
-Então não havia de haver? Pois há um boticário,
em Guiães, lá quase ao pé da casa aqui do
nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hem, Sr. Fernandes?
Homem capaz. Médico é o Dr. Avelino, daqui a légua
e meia, nas Bolsas. Mas já V. Exª vê, esta
gentinha é pobre!... Tomaram eles para pão, quanto
mais para remédios!
E de novo se estabeleceu um silêncio, sob o alpendre, onde
penetrava a friagem crescente da serra encharcada. Para além
do rio, a prometedora claridade não se alargara entre
as duas espessas cortinas pardacentas. No campo, em declive diante
de nós, ia um longo correr de ribeiros barrentos. Eu terminara
pôr me sentar na ponta dum madeiro, enervado, já com
a fome aguçada pela manhã agreste. E Jacinto, na
borda do carro, com os pés no ar, cofiava os bigodes úmidos,
palpava a face, onde, com espanto meu, reaparecera a sombra,
a sombra triste dos dias passados, a sombra do 202!
E, então, surdiu pôr trás da parede do alpendre
um rapazito, muito rotinho, muito magrinho, com uma careta miúda,
toda amarela sob a porcaria, e onde dois grandes olhos pretos
se arregalavam para nós, com vago pasmo e vago medo. Silvério
imediatamente o conheceu.
-Como vai a tua mãe? Escusas de te chegar para cá,
deixa-te estar aí. Eu ouço bem. Como vai a tua
mãe?
Não percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram.
Mas Jacinto, interessado:
-Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua mãe?
Foi o Silvério que informou respeitosamente:
-É a tal mulher que está doente, a mulher do Esgueira,
ali do casal da figueira. E ainda tem outro abaixo deste... Filharada
não lhe falta.
-Mas este pequeno também parece doente! – exclamou
Jacinto. – Coitado, tão amarelo!... Tu também
estás doente?
O rapazito emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados.
E o Silvério sorria, com bondade:
-Nada! este é sãozinho... Coitado, é assim
amarelado e enfezadito porque... Que quer V.Exª? Mal comido!
muita miséria....
Quando há o bocadito de pão é para todo
o rancho. Fomezinha, fomezinha!
Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.
-Fome? Então ele tem fome? Há aqui gente com fome?
Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam,
ora a mim, ora ao Silvério, a confirmação
desta miséria insuspeitada. E fui eu que esclareci o meu
Príncipe:
-Homem! Está claro que há fome! Tu imaginavas talvez
que o Paraíso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem
trabalho e sem miséria... Em toda a parte há pobres,
até na Austrália, nas minas de ouro. Onde há trabalho
há proletariado, seja em Paris, seja no Douro...
O meu Príncipe teve um gesto de aflita impaciência:
-Eu não quero saber o que há no Douro. O que eu
pergunto é se aqui, em Tormes, na minha propriedade, dentro
destes campos que são meus, há gente que trabalhe
para mim, e que tenha fome... Se há criancinhas, como
esta, esfomeadas? É o que eu quero saber.
O Silvério sorria, respeitosamente, ante aquela cândida
ignorância das realidades da serra:
-Pois está bem de ver, meu senhor, que há para
aí caseiros que são muito pobres. Quase todos... É uma
miséria, que se não fosse algum socorro que se
lhes dá, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de
filhos que tem, é uma desgraça... Havia V. Exª de
ver as casitas em que eles vivem... São chiqueiros. A
do Esgueira, acolá...
-Vamos vê-la! – atulhou Jacinto com uma decisão
exaltada.
E saiu logo do alpendre, sem atender à chuva, que ainda
caia, mais leve e mais rala. Mas então Silvério
alargou os braços diante dele, com ansiedade, como para
o salvar dum precipício.
-Não! V. Exª lá na casa do Esgueira é que
não entra! Não se sabe o que a mulher tem, e cautela
e caldo de galinha...
Jacinto não se alterou na sua polidez paciente:
-Obrigado pelo seu cuidado, Silvério... Abra o seu chapéu
de chuva, e avante!
Então o Procurador vergou os ombros, e, como sua Exª mandava,
abriu com estrondo o imenso pára-águas, abrigou
respeitosamente Jacinto, através do campo encharcado.
Eu segui, pensando na esmola suntuosa que o bom Deus mandava àquele
pobre casal pôr um remoto senhor das Cidades! Atrás
vinha o pequenito perdido num imenso pasmo.
Como todos os casebres da serra, o Esgueira era de grossa pedra
solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra,
um postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para
a luz, para o fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e
o Trabalho tinham, através de anos, acumulado ali trepadeiras
e flores silvestres, e cantinhos de horta, e sebes cheirosas,
e velhos bancos roídos de musgo, e panelas com terra onde
crescia salsa, e
regueiros cantantes,
e videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados,
que tornavam
deliciosa,
para uma Écloga,
aquela morada da Fonte, da doença e da Tristeza.
Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silvério
empurrou a porta, chamando:
-Eh! tia Maria... Olá, rapariga!
E na fenda entreaberta apareceu uma moça, muito alta,
escura e suja, com uns tristes olhos pisados, que se espantaram
para nós, serenamente.
-Então como vai tua mãe? Abre lá a porta,
que estão aqui estes senhores...
Ela abriu, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e arrastada
mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:
-Ora, coitada! como há de ir? Malzinha... malzinha.
E dentro, num gemido que subia como do chão, de entre
abafos, amodorrado e lento, a mãe repetiu a desconsolada
queixa:
-Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...
O Silvério, sem passar da porta, com o guarda-chuva em
riste, meio aberto, como um escudo contra a infecção,
lançou uma consolação vaga:
-Não há de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem!
Não foi senão friagem!
E, sobre o ombro de Jacinto, encolhido:
-Já V. Exª vê... Muita miséria! Até lhe
chove lá dentro.
E, no pedaço de chão que viam, chão de terra
batida, uma mancha úmida reluzia, da chuva pingada de
uma telha rota. A parede, coberta de fuligem, das longas fumaraças
da lareira, era tão negra como o chão. E aquela
penumbra suja parecia atulhada, numa desordem escura, de trapos,
de cacos, de restos de coisas, onde só mostravam forma
compreensível uma arca de pau negro, e pôr cima,
pendurado dum prego, entre uma serra e uma candeia, um grosso
saiote escarlate.
Então Jacinto, muito embaraçado, murmurou abstraidamente:
-Está bem, está bem...
E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse,
enquanto Silvério decerto revelava à rapariga,
a presença augusta do “fidalgo”, porque a
sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:
-Ai! Nosso Senhor lhe dê muita boa sorte! Nosso Senhor
o acompanhe!
Quando o Silvério, com as grandes passadas das suas grandes
botas, nos colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para
mim, com os dedos trêmulos a torturar o bigode, e murmurava:
-É horrível, Zé Fernandes, é horrível!
Ao lado, o vozeirão do Silvério trovejou:
-Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua mãe, criatura!
Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós,
num imenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperança,
talvez, que delas, como de Deuses encontrados num caminho, lhe
viesse afago ou proveito. E Jacinto, para quem ele mais especialmente
arregalava os olhos tristes, e que aquela miséria, e a
sua muda humildade, embaraçavam, acanhavam horrivelmente,
só soube sorrir, murmurar o seu vago: “Está bem,
está bem...” Fui eu que dei ao pequenito um tostão,
para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como ele, com
o seu tostão bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco
da nossa magnificência, o Silvério teve de o espantar,
como a um pássaro, batendo as mãos, e de lhe gritar:
-Já para casa! E leve esse dinheiro à mãe.
Roda, roda!...
-E nós vamos almoçar – lembrei eu olhando
o relógio. – O dia ainda vai estar lindo.
Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedaço de azul lavado
e lustroso, e a grossa camada de nuvens já se ia enrolando
sob a lenta varredela do vento, que as levava, despejadas e rotas,
para um canto escuso do céu.
Então recolhemos lentamente para casa, pôr uma vereda íngreme,
que ensinara o Silvério, e onde um leve enxurro vinha
ainda, saltando e chalrando. De cada ramo tocado, rechovia uma
chuva leve. Toda a verdura, que bebera largamente, reluzia consolada.
Bruscamente, ao sairmos da vereda para um caminho mais largo,
entre um socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando
lentamente a cigarreira:
-Pois, Silvério, eu não quero mais estas horríveis
misérias na Quinta.
O Procurador deu um jeito aos ombros, com um vago eh! eh! de
obediência e dúvida.
-Antes de tudo – continuava Jacinto – mande já hoje
chamar esse Dr. Avelino para aquela pobre mulher... E os remédios
que os vão buscar logo a Guiães. E recomendação
ao médico para voltar amanhã, e em cada dia; até que
ela melhore... Escute! E quero, Silvério, que lhe leve
dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez ou quinze mil-réis...
Bastará?
O Procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil-réis!
Uns tostões bastavam.... Nem era bom acostumar assim,
a tanta franqueza, aquela gente. Depois todos queriam, todos
pechinchavam...
-Mas é que todos hão de Ter – disse Jacinto
simplesmente.
-V. Exª manda! – murmurou o Silvério.
Encolhera os ombros,
parado no caminho, no espanto daquelas extravagâncias.
Eu tive de o apressar, impaciente:
-Vamos conversando e andando! É meio-dia! Estou com
uma fome de lobo!
Caminhamos, com o Silvério no meio, pensativo, a fronte
enrugada sob a vasta aba do chapéu, a barba imensa espalhada
pelo peito, e a barraca exorbitante do guarda-chuva vermelho
enrolada debaixo do braço. E Jacinto, puxando nervosamente
o bigode, arriscava outras idéias benfazejas, cautelosamente,
no seu indomável medo do Silvério:
-E as casas também... Aquela casa é um covil!...
Gostava de abrigar melhor aquela pobre gente... E naturalmente,
as dos outros caseiros são pocilgas iguais... era necessário
uma reforma! Construir casas novas a todos os rendeiros da Quinta...
-A todos?... – O Silvério gaguejava – emudeceu.
E Jacinto balbuciava aterrado:
-A todos... Enfim, quero dizer... Quantos serão eles?
Silvério atirou um gesto enorme:
-São vinte e coisas... vinte e três! Se bem lembro.
Upa! Upa! Vinte e sete...
Então Jacinto emudeceu também, como reconhecendo
a vastidão do número. Mas desejou saber pôr
quanto ficaria cada casa!... Ó! uma casa simples, mas
limpa, confortável, como a que tinha a irmã do
Melchior, ao pé do lagar. Silvério estacou de novo.
Uma casa como a da Ermelinda? Queria Sua Exª saber? E alijou
a cifra, muito de alto, como uma pedra imensa, para esmagar Jacinto:
-Duzentos mil-réis, Exmo Senhor! E é para mais
que não para menos!
Eu ria da trágica ameaça do excelente homem. E
Jacinto, muito docemente, para conciliar o Silvério:
-Bem, meu amigo... eram uns seis contos de réis! Digamos
dez, porque eu queria dar a todos alguma mobília e alguma
roupa.
Então o Silvério teve um brado de terror:
-Mas então, Exmo Senhor, é uma revolução!
E como nós, irresistivelmente, ríamos dos seus
olhos esgazeados de horror, dos seus imensos braços abertos
para trás, como se visse o mundo desabar – o bom
Silvério encavacou:
-Ah! V. Exas riem? Casas para todos, mobílias, pratas
bragal, dez contos de réis! Então também
eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bela chalaça!... Está boa
a risota!
E subitamente, numa profunda mesura, como declinando toda a responsabilidade
naquele disparate magnífico:
-Enfim, V. Exª é quem manda!
-Está mandado, Silvério. E também quero
saber as rendas que paga essa gente, os contratos que existem,
para os melhorar. Há muito que melhorar. Venha você almoçar
conosco. E conversamos,
Tão saturado de espanto estava o Silvério, que
nem recebeu mais espanto com essa “melhoria de rendas”.
Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia licença a S.
Exª para passar primeiramente pelo lagar, para ver os carpinteiros
que andavam a consertar a trave do rio. Era um instante, e estava
em seguida às ordens de S. Exª.
Meteu a corta-mato, saltando um cancelo. E nós seguimos,
com passos que eram ligeiros, pela hora do almoço que
se retardara, pelo azul alegre que reaparecia, e pôr toda
aquela justiça feita à pobreza da serra.
-Não perdeste hoje o teu dia, Jacinto – disse eu,
batendo, com uma ternura que não disfarcei, no ombro do
meu amigo.
-Que miséria, Zé Fernandes! eu nem sonhava... Haver
pôr aí, à vista da minha casa, outras casas,
onde crianças têm fome! É horrível....
Estávamos entrando na alameda. Um raio de sol, saindo
de entre duas grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina
do casarão, ao fundo, uma viva tira de ouro. O clarim
dos galos soava claro e alto. E um doce vento, que se erguera,
punha nas folhas lavadas e luzidias um frêmito alegre e
doce.
-Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?... Que te aconteceu
aquela lenda de Santo Ambrósio... Não, não
era Santo Ambrósio... Nem me lembro o santo... Nem era
ainda santo... apenas um cavaleiro pecador, que se enamorara
duma mulher, pusera toda a sua alma nessa mulher, só pôr
a avistar a distância na rua. Depois, uma tarde que a seguia,
enlevado, ela entrou num portal de igreja, e aí, de repente,
ergueu o véu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre
cavaleiro o seio roído pôr uma chaga! Tu também
andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua
beleza de Verão. E a serra, hoje, zás! De repente,
descobre a sua grande úlcera... É talvez a tua
preparação para S. Jacinto.
Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete:
-É verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja
Deus,é das que eu posso curar!
Não desiludi o meu Príncipe. E ambos subimos alegremente
a escadaria do casarão.
4) FICHA DE QUESTÕES
ALTERNATIVAS
1. (UNICENTRO) A única passagem que NÃO encontra
apoio em A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, é:
A) Em A Cidade e as
Serras, José Fernandes, de rica família
proveniente de Guiães, região serrana de Portugal,
narra a história de Jacinto de Tormes, seu amigo também
fidalgo, embora nascido e criado em Paris.
B) A Cidade e as Serras explora uma grave tese sociológica:
ser-nos preferível viver e proliferar pacificamente nas
aldeias a naufragar no estéril tumulto das cidades.
C) Para Jacinto, Portugal estava associado à infelicidade,
enquanto Paris associava-se à felicidade; ao longo do
romance, contudo, essa opinião se modifica.
D) No romance dois ambientes distintos são enfocados ao
longo das duas partes em que o livro pode ser dividido: a civilização
e a natureza.
E) Já avançado em idade, Jacinto se aborrece com
as serras e tenciona reviver as orgias parisienses, mas faltam-lhe,
agora, saúde e riqueza.
2. (FUVEST)
Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente. E toda essa
adorável paz do céu, realmente celestial, e dos campos, onde
cada folhinha conservava uma quietação contemplativa, na luz
docemente desmaiada, pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava
tão profundamente Jacinto, que eu o senti, no silêncio em que
caíramos, suspirar de puro alívio.
Depois, muito gravemente:
Tu dizes que na Natureza não há pensamento...
Outra vez! Olha que maçada! Eu...
Mas é por estar nela suprimido o pensamento que lhe está poupado
o sofrimento! Nós, desgraçados, não podemos suprimir o
pensamento, mas certamente o podemos disciplinar e impedir que ele se estonteie
e se esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se realizam,
aspirando a certezas que nunca se atingem!... E é o que aconselham estas
colinas e estas árvores à nossa alma, que vela e se agita que
viva na paz de um sonho vago e nada apeteça, nada tema, contra nada
se insurja, e deixe o mundo rolar, não esperando dele senão um
rumor de harmonia, que a embale e lhe favoreça o dormir dentro da mão
de Deus. Hem, não te parece, Zé Fernandes?
Talvez. Mas é necessário então viver num mosteiro, com
o temperamento de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante
de certos Jacintos...
Eça de Queirós, A Cidade e as Serras.
2.1. Considerado no
contexto de A cidade e as serras, o diálogo
presente no excerto revela que, nesse romance de Eça de
Queirós, o elogio da natureza e da vida rural
a) indica que o escritor,
em sua última fase, abandonara
o Realismo em favor do Naturalismo, privilegiando, de certo modo,
a observação da natureza em detrimento da crítica
social.
b) demonstra que a consciência ecológica do escritor
já era desenvolvida o bastante para fazê-lo rejeitar,
ao longo de toda a narrativa, as intervenções humanas
no meio natural.
c) guarda aspectos conservadores, predominantemente voltados
para a estabilidade social, embora o escritor mantenha, em certa
medida, a prática da ironia que o caracteriza.
d) serve de pretexto para que o escritor critique, sob certos
aspectos, os efeitos da revolução industrial e
da urbanização acelerada que se haviam processado
em Portugal nos primeiros anos do Século XIX.
e) veicula uma sátira radical da religião, embora
o escritor simule conservar, até certo ponto, a veneração
pela Igreja Católica que manifestara em seus primeiros
romances.
2.2. Entre os seguintes
fragmentos do excerto, aquele que, tomado isoladamente, mais
se coaduna
com as idéias expressas
na poesia de Alberto Caeiro é o que está em:
a) “toda essa adorável paz do céu, realmente
celestial”.
b) “cada folhinha conservava uma quietação
contemplativa”.
c) “na Natureza não há pensamento”.
d) “dormir dentro da mão de Deus”.
e) “é necessário então viver num mosteiro”.
3. (PUC) O romance
A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós,
publicado em 1901, é desenvolvimento de um conto chamado “Civilização”.
Do romance como um todo pode afirmar-se que:
a) apresenta um narrador
que se recorda de uma viagem que fizera havia algum tempo ao
Oriente Médio, à Terra Santa,
de onde deveria trazer uma relíquia para uma tia velha,
beata e rica.
b) caracteriza uma narrativa em que se analisam os mecanismos
do casamento e o comportamento da pequena burguesia da cidade
de Lisboa.
c) apresenta uma personagem que detesta inicialmente a vida do
campo, aderindo ao desenvolvimento tecnológico da cidade,
mas que ao final regressa à vida campesina e a transforma
com a aplicação de seus conhecimentos técnicos
e científicos.
d) revela narrativa cujo enredo envolve a vida devota da província
e o celibato clerical e caracteriza a situação
de decadência e alienação de Leiria, tomando-a
como espelho da marginalização de todo o país
com relação ao contexto europeu.
e) se desenvolve em duas linhas de ação: uma marcada
por amores incestuosos; outra voltada para a análise da
vida da alta burguesia lisboeta.
DISSERTATIVAS
0. (UNICAMP 2008) O poema abaixo pertence a O Guardador de Rebanhos,
de Alberto Caeiro:
Da minha aldeia vejo
quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra
terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais
pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo
o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos
podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
(Fernando Pessoa, Obra
Poética,
Rio de Janeiro: Editora Nova Aguillar, 1983, pp. 142).
a) Explique a oposição
estabelecida entre a aldeia e a cidade.
b) De que maneira o uso do verso livre reforça essa oposição?
1. (UNICAMP 2008) O trecho abaixo pertence ao capítulo
VIII de A Cidade e as Serras, em que se narra a viagem de Jacinto
a Tormes:
Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, dez
ou doze casebres. sumidos entre figueiras, onde se esgaçava,
fugindo do lar pela telha-vã o fumo branco e o cheiroso
das pinhas. Nos cerros remotos, por cima da negrura pensativa
dos pinheiros, branquejavam ermidas. Oar fino e puro entrava
na alma espalhava alegria e força. Um esparso tilintar
de chocalhos de guizos morria pelas quebradas …
Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava:
- Que beleza!
E eu atrás, no burro de Sancho, murmurava:
- Que beleza!
Frescos ramos roçavam os nossos ombros com familiaridade e carinho.
(Eça de Queirós, Obra Completa. Beatriz Berrini (org.) Rio de
Janeiro:
Editora Nova Aguillar, 1997, Vol. II, pp.561, grifos nossos.)
a) O que o trecho
revela da visão de Jacinto sobre a
aldeia e que afinidade existe entre essa visão e a de
Alberto Caeiro da questão anterior.
b) Explique a relação entre o protagonista e a
paisagem nas duas frases sublinhadas.
2. (VUNESP) – A questão
a seguir baseia-se no seguinte:
"Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a sólida
nudez do seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas
de líquen e de silvados floridos, avançavam como
proas de galeras enfeitadas; e, de entre as que se apinhavam
nos cimos, algum casebre que para lá galgara, todo amachucado
e torto, espreitava pelos postigos negros, sobre as desgrenhadas
farripas de verdura, que o vento lhe semeara nas telhas. Por
toda a parte a água sussurrante, a água fecundante… Espertos
regatinhos fugiam, rindo com os seixos, de entre as patas da égua
e do burro ..."
(A Cidade e as Serras, cap. XIII.)
Ao longo deste trecho
de A cidade e as serras, Eça de
Queirós se serve repetidamente da prosopopéia ou
personificação, figura que consiste em atribuir
a seres inanimados qualidades próprias de seres animados
(particularmente qualidades humanas). Releia o trecho e explique
o efeito expressivo das prosopopéias ou personificações
na descrição das serras e de seus acidentes. Apresente
uma passagem do texto para comprovar seu comentário.
3. Leia atentamente
o seguinte trecho, extraído de A
cidade e as serras, de Eça de Queirós:
— Meus senhores, peço uma grande saúde
para o meu velho amigo Jacinto, que pela primeira vez honra esta
casa fraternal... Que digo eu? que pela primeira vez honra com
a sua presença a sua querida pátria! E que pôr
cá fique, pelas serras, muitos anos, todos bons. À tua,
meu velho! Outro rumor correu pela mesa, mas cerimonioso e sereno.
A nossa oratória, positivamente, não incendiara
as imaginações!
A tia Vicência fez tilintar o seu copo, quase vazio, com
o de Jacinto, que tocou no copo da sua vizinha, a Luisinha Rojão,
toda resplandecente, e mais vermelha que uma peônia. Depois
foi o encadeamento de saúdes, com os copos quase vazios,
entre todos os convidados, sem esquecer o tio Adrião,
e o Abade, ambos ausentes, ambos com furúnculos. E a tia
Vicência espalhava aquele olhar, que prepara o erguer,
o arrastar de cadeiras — quando d. Teotônio, erguendo
o seu copo de vinho do Porto, com a outra mão apoiada à mesa,
meio erguido, chamou Jacinto, e numa voz respeitosa, quase cava:
—
Esta é toda particular, e entre nós... Brindo o
ausente! Esvaziou o copo, como em religião, pontificando.
Jacinto bebeu assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam
- eu dei o braço à tia Albergada.
(A Cidade e as Serras, cap. XIII)
a) No trecho citado,
D. Teotônio brinda “o ausente”.
O que quer dizer exatamente isso em virtude do grande silêncio
que se abatera sobre os convidados com a entrada de Jacinto de
Tormes na festa de aniversário de José Fernandes?
b) O que Jacinto confessará à tia Vicência,
pouco depois de saber sobre o boato, quando todos, por medo da
chuva, deixam a festa antecipadamente?
c) Por que havia corrido o tal boato sobre Jacinto de Tormes?
Texto para as questões 4 e 5
“E agora ali estava aquele último Jacinto, um Jacintículo,
com a macia pele embebida em aromas, a curta alma enrodilhada
em filosofias, travado e suspirando baixinho na miúda
indecisão de viver.
—
Ó Zé Fernandes, quem é essa lavradeirona tão
rechonchuda?
Estendi o pescoço para a fotografia que ele erguera de
entre a minha galeria, no seu honroso caixilho de pelúcia
escarlate:
—
Mais respeito, Sr. D. Jacinto... Um pouco mais de respeito, cavalheiro!... É minha
prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor da Malva. “ (Cap.
VIII)
4. O trecho acima mencionado acontece quando Jacinto de Tormes
resolve partir para Portugal (onde nunca estivera). Com base
nele e no que conhece de A Cidade e as serras, responda:
a) Por que Jacinto vai a Portugal?
b) Onde nascera Jacinto e por quê?
5. Quem é a “lavradeirona” a que se refere,
no texto, Jacinto de Tormes e o que acontecerá entre os
dois mais tarde?
6.
“(...)quase aterrada, do comboio, do estridor da Cidade, do 202, e dos
seus esplendores. “Estamos aqui tão bem! está um tempo tão
lindo!” murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao rijo
pescoço do seu Jacinto. Ele desistia logo de Paris, encantado. “Vamos
para abril, quando os castanheiros dos Campos Elíseos estiverem em flor!” Mas
em Abril vieram aqueles cansaços que imobilizavam a prima Joaninha no
divã, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o roupão mais
solto. Por todo um longo ano estava desfeita a alegre aventura.”
A que parte do romance
pertence o texto acima e o que ele significa (leve em consideração a ida de Jacinto a Tormes
e sua permanência nas serras portuguesas)?
5) INTERTEXTOS – DIÁLOGOS POSSÍVEIS
TEMAS PARA DISSERTAÇÃO: Aqui nesse espaço
nos cabe o exercício de imaginar questões possíveis
para o vestibular. Proponho três construções
de leituras intertextuais:
1. Ao contrário do caminho tomado pela maior parte dos
vestibulares, se lermos A Cidade e as Serras como um texto construído
com uma ironia mais refinada do que nos anteriores escritos por
Eça de Queirós – lembrando que ironia é sugerir
pelo contexto e pela entonação algo contrário
ao que pensamos, geralmente com intenção sarcástica – e
que, justamente, por ser mais refinado, requer interpretação
e leitura mais atentas sobre o narrador personagem Zé Fernandes,
podemos estabelecer uma comparação entre a obra
e alguns poemas de Antero de Quental. O poeta referido sofre
de uma distopia quanto ao avanço filosófico, técnico
e político de Portugal no fim de sua vida (não
seria para o que caminhariam as idéias pouco certas de
Zé Fernandes sobre Socialismo?). Estabeleça uma
comparação e disserte sobre os temas inter-relacionados
a partir do trecho final de A Cidade e as Serras e do soneto
O palácio da Ventura:
O Palácio da
Ventura
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas, já desmaio,
exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e áerea formosura!
Com grandes golpes
bato à porta
e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas
d’ouro,
com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!
(Sonetos Completos)
“
Em fila começamos a subir para a serra. A tarde adoçava
o seu esplendor de estio. Uma aragem trazia, como ofertados,
perfumes de flores silvestres. As ramagens moviam, com um aceno
de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. Toda
a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de louvor.
As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam um
brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Janelas distantes
de casa amáveis flamejavam com um fulgor de ouro. A serra
toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre,
adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no ar a
bandeira branca, que o Jacintinho não largava, dentro
do seu cesto, com a haste bem agarrada na mão. Era a bandeira
do castelo, afirmava ele muito sério. E na verdade me
parecia que, por aqueles caminhos, através da Natureza
campestre e mansa – o meu Príncipe, atrigueirado,
nas soalheiras e nos ventos das serras, a minha prima Joaninha,
tão doce e risonha mãe, os dois primeiros representantes
e da sua abençoada tribo, e eu – tão longe
de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando
um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus
contente de nós, serenamente e seguramente subíamos – para
o Castelo da Grã-Ventura!”
(A Cidade e as Serras)
2. Ao tomarmos A Cidade e as Serras como um texto menos irônico – do
que os anteriores escritos na dita primeira fase de Eça – e
mais bucólico, empregando uma tese de exaltação
do campo e reconciliação com a nação
portuguesa, podemos estabelecer uma linha de comparação
entre o texto trabalhado e os poemas de Alberto Caeiro, o mestre
que abidica de toda e qualquer filosofia pela vida. Compare e
disserte sobre os temas inter-relacionados a partir do trecho
de A Cidade e as Serras e do poema de O Guardador de Rebanhos:
III
Ao entardecer, debruçado
pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho
dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É
o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...
(Poemas Completos de Alberto Caeiro)
“ Certamente meu Princípe, uma ilusão! E
a mais amarga, porque o Homem pensa ter na Cidade a base de toda
a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda sua miséria.”
Cap VI de A Cidade e as Serras)
3. Estabeleça relação entre o ambiente e
as personagens de Vidas Secas e os da fazenda de Tormes, a partir
do trecho:
“E, então, surdiu por trás da parede do
alpendre um rapazito, muito rotinho, muito magrinho, com uma
carita miúda, toda amarela sob a porcaria, e onde dois
grandes olhos pretos se arregalavam para nós, com vago
pasmo e vago medo.
(...)
E, no bocado de chão que viam, chão de terra batida, uma mancha úmida
reluzia, da chuva caída através da telha rota. A parede, coberta
de fuligem, das longas fumaraças da lareira, era tão negra como
o chão. E aquela penumbra de porcaria escura parecia atulhada, numa
desordem escura, de trapos, cacos, restos, onde só mostravam forma compreensível
uma arca de pau-negro, e por cima, pendurado de um prego, entre uma serra e
uma candeia, um grosso saiote escarlate”.
(Cap.X de A Cidade e as Serras)