José
Saramago (1992)
José Saramago é o escritor português contemporâneo
mais conhecido no Brasil e no mundo. Além da literatura, ele é famoso,
também, por sua incansável militância política
Rodolfo Konder: Boa Noite! Estamos começando, pela Rede Cultura de São Paulo, mais um Roda Viva. (...). O convidado desta noite é o escritor português José Saramago, que veio visitar o Brasil, onde abriu o Congresso Internacional promovido pela Universidade de São Paulo, a USP, sobre o tema “América 92: raízes e trajetórias”. Como este programa é, excepcionalmente, gravado, os telespectadores, infelizmente, não poderão fazer perguntas. Para entrevistar José Saramago, convidamos Luiz Antonio Giron, repórter do jornal Folha de S. Paulo; Hamilton dos Santos, editor do suplemento Cultura, do jornal O Estado de S. Paulo; Edla Van Steen, escritora; Gilberto Mansur, jornalista e escritor; Roberto Pompeu de Toledo, editor-especial da revista Veja; Fábio Lucas, crítico e professor da Universidade de Brasília; Ivan Ângelo, editor-executivo do Jornal da Tarde; e Jayme Martins, jornalista da TV Cultura. Boa noite, professor Saramago. É um prazer tê-lo aqui.
José Saramago: Não professor, apenas...
Rodolfo Konder: Para nós o senhor será sempre
um professor.
José Saramago: Não ganho, nem perco com isso.
[simpático]
Rodolfo Konder: Então está bem. Eu vou abrir
falando um pouco das comemorações da independência
do Brasil. O Brasil está vivendo um período
de comemorações da independência. Mas,
ao mesmo tempo, há uma preocupação muito
grande com a reaproximação com Portugal, tanto
no plano econômico, quanto no plano cultural. Estamos
vivendo uma nova época. Os valores da independência
estão sendo substituídos pelos valores da “interdependência”?
José Saramago: É assim? Aqui? É assim
aqui e é assim, de uma certa maneira, em toda parte.
A questão que penso, que se deve pôr, é se
junto a essas questões, dependência e independência,
se devemos juntar, digamos, essa outra, de valores, quer
dizer, eu compreendo esse sentido do colega dizer valores
da interdependência, mas começo a ter algumas
dúvidas se isso fala de valores da dependência.
Suponho que a dependência, qualquer que ela seja, embora é realmente
verdade que neste mundo global em que nós vivemos
já há uma interdependência mútua,
mas o que acontece é que em casos como esse, mesmo
que essa interdependência pareça, ou devesse
ser, digamos, entre iguais, porque uma verdadeira e bem entendida
interdependência deveria ser entre iguais, que dependessem
um do outro, mas que dependessem igualmente, quando, enfim,
quando nós sabemos que não é isso que
se passa, quer dizer, nesse mundo de interdependências
há uns que são mais dependentes do que outros.
Então, estamos cá em saber em que grau que
se coloca esse grau de dependência, quer o Brasil,
que estamos aqui a falar, quer o meu próprio país,
que em matéria de dependência, haveria muita
coisa a que se dizer. O que eu duvido é que se possa
falar em valores de dependência. Valores de interdependência
penso que sim, mas sob condição de que a relação
seja entre iguais, tanto quanto possível.
Edla Van Steen: Eu vou fazer uma pergunta literária
para você, que é a minha área. Eu sei
que você é poeta...
José Saramago: Já fui, já fui...
Edla Van Steen: Já foi poeta. Você precisa me
explicar como é que é isso de dizer que deixou
de ser poeta?
José Saramago: Não, deixei de fazer versos...
[risos]
Edla Van Steen: Ah, só nesse sentido?
José Saramago: Pode-se dizer que sim.
Edla Van Steen: Eu acho que o Brasil ainda não descobriu
que você é um ótimo autor de teatro.
Você tem três peças publicadas. O que
eu queria saber é em que momento você escolhe
o gênero, que você decide o gênero daquilo
que você vai escrever?
José Saramago: Vamos ver. O teatro no meu trabalho
foi, e continua sendo, de certo modo, algo que depende das
solicitações exteriores. Eu creio, estou convencido
disso, e olhando para trás posso comprovar, que nunca,
de modo próprio, por um movimento meu, eu iria escrever
uma peça de teatro. Sempre aconteceu que alguém
me pediu. E a primeira vez que me pediram, eu disse: “isso é um
disparate, eu nunca fiz teatro, não sei”. Mas
esses pedidos, esses pequenos desafios, levam a pessoa a
colocar-se, efetivamente a questão: serás capaz
ou não serás capaz? E assim fiz a primeira
peça de teatro...
Edla Van Steen: Eu acho que a maioria dos autores...
José Saramago: Eu penso que sim. Digamos, enfim, é realmente
isso que se sucede, na verdade é que mesmo quando
esses desafios não nos vêm de fora, temos que,
digamos, temos que estabelecê-los dentro de nós
próprios. Depois dessa primeira peça, veio
uma outra...
Edla Van Steen: Foi A Noite, não?
José Saramago: Foi A Noite, que se passa na redação
de um jornal, para isso eu aproveitei um pouco a minha própria
experiência jornalística, que se passa na redação
de um jornal na noite de 24 para 25 de abril. E depois fiz
uma outra que, digamos, foi na mesma linha de continuidade,
que o Camões é meu personagem e, mais tarde,
anos depois, fiz uma outra peça que se chama A Segunda
Vida de Francisco de Assis. Não de São Francisco
de Assis, do Francisco de Assis, que mostra uma vez mais
que, sendo eu, não crente, e mesmo – a palavra
clara é ateu – não sei porque, mais ou
menos, me acho envolvido em questões que têm
sempre a ver com religião. E a prova é que
agora mesmo, e já que se falou em teatro, estou a
escrever uma peça sobre os anabatistas, do século
XVI, dos grandes conflitos, das guerras religiosas dessa época,
na cidade de Münster, qual peça servirá de
base para um livreto de uma ópera que se representará,
já está decidido que se representará...
Edla Van Steen: Aliás, foi um sucesso fantástico
Blimunda no Scala, de Milão?
José Saramago: É, eu não fui muito tido
nem muito achado, porque a adaptação foi feita
pelo próprio Aziu Corghi, que é o músico,
a tradução foi feita a partir do próprio
livro, pela Rita Desti, aliás uma magnífica
tradutora. E, portanto, tenho alguma experiência teatral
e, agora, também prática...
Edla Van Steen: Mas, você não vai escrever um
libreto, então?
José Saramago: Não... quer dizer, que não
resulta de apetites meus, mas de coisas que me vem, digamos,
um pouco de fora. A questão é saber se o faço
de uma maneira aceitável ou não. Creio que
sim, senão não tinha continuado.
Edla Van Steen: É sempre um desafio pegar um novo
gênero?
José Saramago: É, de uma certa maneira. Eu
acho que nós somos capazes de fazer tudo. O que acontece
que há coisas que fazemos melhor. Portanto, a questão é essa.
Edla Van Steen: Você acha que no romance é melhor?
José Saramago: Assim, com verdadeira ou falsa modéstia,
acho que sim.
Fábio Lucas: O que eu tenho notado na sua obra, em
grande parte, é um grande diálogo com a literatura
de modo geral. E muitas das suas personagens já nascem
com a sua certidão de nascimento anteriormente passada
por outros cartórios. Assim, o Ricardo Reis é uma
personagem, é um heterônimo do Fernando Pessoa,
Jesus Cristo é uma personagem de uma civilização,
e assim como Camões é uma personagem da história
literária. Essa escolha é, talvez, uma estratégia
para dialogar com a cultura?
José Saramago: Não, eu não poria a questão
em termos de estratégia. A estratégia implica
numa reflexão anterior, numa decisão: vou fazer
isso, por estas e aquelas razões. Eu creio que não,
que não se trata disso. Trata-se, talvez, da consciência
muito clara, enfim, muito viva, que no fundo no fundo, nós
somos feitos de papel. Quer dizer, cada um de nós é muito
mais feito de papel do que de carne e osso. E digo que somos
feitos de papel porque somos feitos das leituras que fizemos.
Então, parece-me um erro, de certa maneira, parece-me
um erro dividir, digamos, a vida entre o que é realidade,
o que chamamos de realidade – as pessoas que estão
por aí, nós próprios aqui todos juntos – e
esse outro universo feito de palavras, de personagens, de
livros, de páginas. Tudo isso, no fundo, tem, às
vezes tem, creio que tem, eu diria que tem sempre, ou pelo
menos tem mais fortemente em muitos casos, tem mais influência
em nós do que a própria realidade, isso que
chamamos de realidade. Portanto, se nos meus livros de fato
há o apelo constante a esses seres de papel, para
encontrar outros seres de papel, outros, em primeiro lugar
o autor, e depois outros seres de papel, que são os
leitores, é por uma razão muito simples: é que
eu não separo isso a que chamamos de realidade dessa
outra realidade fictícia, que é da imaginação,
que é da invenção, e a ambas eu vejo
embrechadas uma na outra. Portanto, quando vem um Ricardo
Reis, vem um Ricardo Reis por razões que também
são, muito, da minha própria realidade. Quando
eu encontro, eu descubro o Fernando Pessoa, não é o
Fernando Pessoa que eu descubro quando tinha 18 anos, é o
Ricardo Reis. E durante alguns meses, como eu não
sabia da existência do Fernando Pessoa, o Ricardo Reis
foi, para mim, um poeta real, de carne e osso. Foi mais tarde
que eu soube que não era mais que um heterônimo.
Então, toda esta, digamos, todo este imbricamento
entre o que é fictício e o que é real,
julgo eu, é o que passa pelos meus livros.
Fábio Lucas: Mas outra coisa que também me
ocorre, talvez seja pelo princípio dialético, é que
sendo a sua formação no materialismo histórico,
a sua dedicação é muito grande a personagens,
ou personalidades ou mitos que, justamente, se opõem
a essa formação. Por exemplo, é muito
instigante a presença de Fernando Pessoa em quase
toda a sua obra, ele faz pontas várias vezes no seu
texto narrativo. E, assim também o próprio
Cristo. Esse romance que criou tanta celeuma, O Evangelho
Segundo Jesus Cristo, ele, na verdade, para grande parte
dos leitores, ele oferece um corte, digamos, de um lado,
Deus, que seria a representação da civilização
judaico-cristã, e de outro lado o Cristo humanizado,
portanto sacudido pelas paixões humanas, inclusive
fortemente sacudido pela paixão amorosa. Mas, nessa
sistemática – mesmo porque o Cristo tem, durante
a permanência do seu romance, uma grande intimidade
com o demônio, que seria a encarnação
dessas paixões humanas, ele levava Cristo também
a cometer os seus pecados – mas o que me admira e eu
queria a sua explicação sobre isso, é essa
sedução pelas personagens, digamos, que não
estariam dentro da canônica do materialismo dialético.
Roberto Pompeu de Toledo: Posso acrescentar uma coisa? O
Saramago é, notoriamente, um materialista histórico
que tem visões [risos]. O Evangelho Segundo Jesus
Cristo é produto de uma visão. Ele escreve
sobre Jesus Cristo, e colocou fantasmas junto.
José Saramago: Vamos ser mais objetivos, O Evangelho
Segundo Jesus Cristo é produto de uma ilusão
de ótica. É produto de uma circunstância,
infeliz claro, circunstância essa que é a miopia
do autor. Se eu tivesse uns olhos sãos, eu teria visto
aquilo que lá estava e nada mais. Então, quando
muito, pode trazer, enfim, uma proposta da vantagem da miopia
para a criação. Isso sim. Mas o que eu quero
dizer em resposta à questão que foi posta por
Fábio Lucas, é que eu realmente sou materialista.
Mas, ainda que míope, não sou cego. E o ponto
de vista em que eu me coloco, eu diria que parece um pouco
com este lugar em que estamos, porque este lugar é circular.
Isto aqui é um pouco claustrofóbico, digamos
assim, mas eu imagino que estou numa sala como esta, num
espaço como este, circular, mas com janelas a toda
volta. Essa idéia de que o materialista canônico
deveria estar focado numa janela só e ver apenas uma
faixa da realidade circundante, seria de fato redutora. Digamos
que eu, materialista, elegendo, eventualmente, uma das janelas,
ou duas, ou três, não deixo de visitar, de freqüentar
todas as outras janelas. Então, isso me permite tomar
a figura de Cristo, que não é Cristo, Cristo
naquele momento não é Cristo, é apenas
Jesus, é apenas um homem, que tinha que viver todas
as paixões dos homens, porque se não fosse
para viver todas as paixões dos homens não
valeria a pena que ele encarnasse, quer dizer, se não
fosse para isso, ele mantinha-se como espírito, e
como espírito teria que resolver aquilo que tinha
que resolver. Mas, para sofrer, tinha que ser homem. E, para
isso, encarna. Mas, tendo encarnado, não se limita
a sofrer. Tem também o direito de chegar ao prazer,
a sua própria imaginação. E é esse
homem inteiro, tão inteiro quanto eu fui capaz de
fazê-lo que está lá, e no fundo não
tem nada a ver, ou tem a ver, que realmente é o fundador
do cristianismo, mas eu tomo como homem que é, e penso
que todos os fundadores, fossem o que fossem, sempre foram
homens. Mesmo que depois estivessem divinizados ou idealizados,
começam sendo, por ser aquilo que nós podemos
ser, que é a única coisa que podemos ser: homens.
A partir daí, é esse homem que me interessa
e, sendo ele vítima – e se nós olharmos
para os evangelhos, é esse sentimento que temos sempre – ele é conduzido,
enfim, pela vontade política de Deus, que quer, como
eu digo no meu evangelho, ou como tenho dito, quer ampliar
a sua base social de apoio, quer deixar de ser um Deus de
um pequeno povo, quer tornar-se universal, católico,
e, portanto precisa, como sempre acontece em casos desses,
de uma vítima. Escolhe a vítima que, ao que
parece, é o seu próprio filho. E é este
sentido do sacrifício humano – não é o
sacrifício de um Deus, é o sacrifício
do homem, mais uma vez, para servir interesses que, nesse
caso, são de Deus, mas que poderiam ser, digamos,
de outros homens, mais poderosos.
Fábio Lucas: Só mais uma coisa que me intriga. É em
relação à política literária
de um modo geral. É a situação do escritor
português em frente ao escritor brasileiro. Ainda existe
em nós, por herança cultural, muito interesse
pelo que se faz em Portugal e a sua presença aqui é,
não somente um retrato disso, como até um orgulho
para nós termos, em língua portuguesa, um escritor
do seu valor e da sua importância. Mas, os seus livros,
as suas obras, estão permeadas dessas tensões
Europa, América, Portugal, Brasil, essas tensões.
O Jangada de Pedra é, talvez, o melhor símbolo
disso. Ocorre agora um problema internacional. É que
Portugal está sendo programado para aderir a um esquema
de um mercado comum europeu, portanto está sendo programado
para ser mais europeu do que americano, digamos assim. Como
você considera esse estado permanente – eu tenho
ouvido, de portugueses, queixas em relação à europeização
de Portugal, ou a quebra ou a erosão de valores culturais
tradicionais de Portugal. E, por outro lado, o que explica
pouco também para mim é que há muito
pouco interesse na camada de escritores portugueses pelo
que se faz no Brasil, em termos de produção
literária. Há referências, há remissões,
mas dentro da geração moderna de escritores
portugueses, eu acho que o único cuja obra, às
vezes, dialoga com um ou outro escritor brasileiro é o
Abelaira, e a sua obra que coloca, às vezes, o problema
do Brasil, mais como instância cultural.
José Saramago: São muitas questões.
Eu vou começar por isso da europeização
de Portugal. Europeizar alguma coisa é torná-la
parecida, semelhante à outra coisa. Europeizar significaria
que Portugal se pareceria com a Europa, ou tornar-se-ia semelhante à Europa.
Aqui, coloca-se a questão inevitável: que Europa?
Qual Europa? Porque a Europa não existe, quer dizer,
o europeu não tem sentido, quer dizer, é apenas
o habitante de um espaço físico, é o
habitante de uma geografia, seria a mesma coisa que dizer
que, do ponto de vista de Marte, por exemplo, dizer fulano é terrestre,
portanto, qualquer um de nós que vivemos aqui na Terra
podemos ser designados assim, terrestres. Mas, isso não
adianta nada, porque omite, esquece as diferenças
que existem entre os terrestres. Dizer que Portugal se europeíza é esquecer
a própria diversidade da Europa que está patente
e cada vez mais patente, ao mesmo tempo em que por um lado
se pretende unir a Europa, é óbvio, é evidente
para toda a gente, que as pulsões das identidades
locais, regionais, estão a ferver. E há casos
gravíssimos, como é o caso, por exemplo, da
Iugoslávia e outros casos, como o da antiga União
Soviética, no interior de países que não
tem nenhum dos problemas de identidade, parecem não
ter, eu lembro, por exemplo, quando foram os Jogos Olímpicos,
que apareciam cartazes em Barcelona que diziam “Liberdade
para a Catalunha”, como se a Catalunha vivesse privada
de liberdade, é um absurdo total e completo. Mas isso
apenas significa que num momento em que a Terra se globaliza,
que há essa tendência para unificar, para laminar,
para esmagar, enfim, justamente, as diferenças, por
uma espécie de instinto de sobrevivência, os
grupos sociais, étnicos, religiosos, culturais de
um modo geral, levantam-se isso. Isso em relação à questão
da europeização. Com relação à outra
questão, eu não sei de quem é a culpa.
Nos anos 50, nos anos 60, os autores brasileiros não
só eram conhecidos de grandes camadas de leitores,
em Portugal, conhecidos, lidos, admirados, como exerciam
influência, exerceram influência, em alguns casos,
sobre os próprios escritores portugueses. A verdade é que
não sei o que se passa entre nós que quando é possível
encontrarmos, encontramos ao mesmo tempo todas as razões
para continuarmos juntos, e depois nada disso, ou muito pouco
disso, passa para o plano do trabalho em comum. E eu creio
que aqui está justamente a grande questão.
Enquanto Portugal e o Brasil, e agora também devíamos
incluir aqui a África, digamos Angola, Moçambique,
Cabo Verde, tudo isso, enquanto nós não encontrarmos
maneiras de trabalhar em comum, qualquer tentativa de aproximação
será sempre ou instrumentalizada, ou visando objetivos
que não são exatamente, ou podem não
ser, os da cultura, e esse caminho que nós ainda não
encontramos, como trabalhar em comum. Porque no dia em que
trabalharmos em comum o conhecimento vai mover-se num sentido
e num outro sentido.
Hamilton dos Santos: No O Evangelho Segundo Jesus Cristo
o senhor vai construindo a família do carpinteiro
José quase que à semelhança de Charles
Dickens. Fiquei, mais ou menos, com essa impressão.
Ele é incompetente, como trabalhador, como carpinteiro
e, de repente, o senhor resolve justamente salvá-lo
dessa incompetência. É por que vieram à tona
os seus princípios marxistas? O senhor estava indo
longe demais com esse personagem?
José Saramago: Não, não tem nada a ver.
Luiz Antônio Giron: Ele se conscientiza, no seu romance?
Dá essa impressão de que ele se conscientiza.
José Saramago: Vamos a ver. Aquilo que o leva a essa
consciência nova não é exatamente a relação
que ele tenha com a sua atividade profissional. Isto é,
digamos, o que dá o pão. Digamos, a consciência
dele é de fato, digamos, entra em crise e aquilo que
o leva a essa crise, a esse sentimento, é a consciência
da sua própria culpa. Quer dizer, não tem nada
a ver com o fato dele ser carpinteiro. Podia ser o melhor
carpinteiro deste mundo e podia ser genial, tudo isso, mas
o que acontece, de fato, não está já nessa área,
quer dizer, é o puro e simples homem que comete, no
meu entender, que comete um crime por omissão. E aí,
se ele é bom profissional ou se ele é mau profissional,
não significa grande coisa e de resto há que
entender, sendo Nazaré o que era, uma pequena vila,
uma aldeia, uma pequena cidade, como se quiser, podemos imaginar
que o lugar dos grandes profissionais, dos grandes carpinteiros,
dos grandes pedreiros, dos grandes escultores, não
era, com certeza, em Nazaré. Seria em Jerusalém,
seria em Séfolos, seria onde, efetivamente, eram chamados
para construir palácios e tudo mais. Ele não
construía palácios. Ele era, digamos, o homem
a quem a porta se vai bater para dizer “faz me aí o
cabo de uma enxada”. Portanto...
Hamilton dos Santos: Mas ele passa no vestibular do contramestre
para fazer o templo?
José Saramago: Como?
Hamilton dos Santos: Ele passa no vestibular do contramestre
para construir, para ser um dos carpinteiros para construir
o templo. O que eu perguntei é se não seria
uma forma de inserir uma interpretação marxista?
José Saramago: Não, ele é carpinteiro
de obra grossa, digamos assim. E aí aquilo que eu
precisei tem muito mais a ver com uma estratégia de
narrativa. Eu precisava fixá-lo em Jerusalém,
porque se eu não o fixasse em Jerusalém, voltaria
imediatamente para Nazaré e eu não tinha história
que pudesse contar. Então, ele vai lá, aliás,
não sabemos bem o que ele faz lá e isso era
completamente diferente, a única coisa que sabemos é que
aquilo que ele sabia podia ter serventia no templo, mas no
templo não havia apenas grandes obras, havia, quer
dizer, aplainar, digamos, uma tábua, qualquer carpinteiro,
mesmo sem ser muito competente, faz. A consciência
dele é outra. Esse é o problema que vem depois,
com a crise moral, com a crise de consciência, o sentimento
da culpa, o remorso e a responsabilidade. Portanto, não
tem nada a ver com o meu marxismo, como se eu quisesse engrandecê-lo
pela via, digamos, da profissão, e eu acho que se
começamos a engrandecer as pessoas pela via das profissões,
acabamos mal.
Roberto Pompeu de Toledo: Eu queria voltar aqui à questão
da Europa, que diz respeito também à questão
da independência, interdependência, lançada
aqui de início. Nós todos sabemos que o Saramago é um
crítico, pelo menos alguém que faz restrições
sérias, a esse processo de europeização,
enfim, de interdependência européia. Agora,
o que, fundamentalmente, há de errado a seu ver nesse
processo?
José Saramago: O que há de errado, a meu ver,
nesse processo, fundamentalmente, é que ele começa
e decorre à margem da vontade dos povos. Quer dizer,
toda essa formação, toda essa criação
de uma Europa unida, que começa, digamos, pelo aço
e o carvão, pouco a pouco isso vai alargando, o Tratado
de Roma, tudo isso, pouco a pouco vai ampliando os seus objetivos,
até agora o Tratado de Maastrich, que, aliás,
pouca gente conhece, digamos, o seu conteúdo, tendem
a isso mesmo, a união política, financeira,
econômica, o mercado livre, quer dizer, fazer da Europa
uma coisa só. Que eu compreendo que seja possível
e, quem sabe, mesmo desejável se chegar aí.
Mas, penso que se deve chegar aí pela vontade dos
povos. E não porque os governos, que singularmente,
e isto é curioso, que singularmente, são bastante
diferentes, que sejam governos conservadores, socialistas,
neoliberais ou democratas cristãos onde quer que estejam,
e podem mesmo suceder-se, agora é socialista e amanhã é conservador,
todos estão de acordo com essa Europa. Eu penso que
devemos nos interrogar se faz algum sentido que os governos
que se declaram diferentes nas suas afirmações,
nos seus programas, digamos, nas suas propagandas eleitorais,
para depois, na prática, fazerem todos, independentemente
daquilo que dizem ser, fazerem todos exatamente a mesma coisa.
Porque o plano europeu não admite controvérsia,
quer dizer, não admite uma controvérsia, ou
admite uma controvérsia interna, mas não admite
que se oponham aos sistemas econômicos, porque ele é um
só e quem quer que o siga, quem quer que lá esteja,
seja socialista, conservador, liberal, o que quer que seja,
tem que servir àquele projeto. Portanto, é uma
questão super estrutural, é uma questão
de governos que decidem e os povos assistem. São milhões
e milhões e milhões de pessoas que não
tem informação suficiente sobre as razões,
os objetivos e as conseqüências finais, mesmo
que não sejam finais, nunca sabemos quais são
as finais, as conseqüências futuras, imediatas
desse projeto, as pessoas, o comum das pessoas, não
sabem. Então, esse primeiro pecado, essa espécie
de pecado original, do meu ponto de vista, é suficiente
para que eu diga: “sim, mas?” Pelo menos eu digo: “sim,
mas?”
Roberto Pompeu de Toledo: Mas essas pessoas elegeram esses
governos.
José Saramago: Mas eles elegeram esses governos...
eu dou um exemplo: o Partido Socialista Operário Espanhol
fez em sua campanha, quando veio a assumir o poder, fez a
sua campanha com base no "não à NATO”.
Quer dizer, os votos obtidos, ou pelo menos muitos deles,
foram também por essa razão. E quando o PSOE
se achou instalado no governo, levou a população,
com uma campanha com aspectos de manipulação,
não digo manipulação, mas de pressão
de voto, a votar na adesão à entrada na NATO.
Portanto, acontece muitas vezes e, provavelmente, no Brasil
também acontece, que os eleitores votam em pessoas
que lhes prometeram algumas coisas e que depois os eleitores
verificam que essas coisas não foram cumpridas. Isso
não é só aqui, não é só no
Brasil, é em todo o mundo. Então, nesse sentido,
qualquer coisa que é feita, não direi contra
a vontade, porque a vontade não foi expressa, mas
foi feita na ignorância da vontade real dos povos.
Roberto Pompeu de Toledo: Como, em geral, acontece com as
medidas de governo.
José Saramago: Quase sempre, quase sempre.
Rodolfo Konder: Você cita o caso da Espanha. Será que
depois dos resultados conseguidos com a integração,
os espanhóis votariam contra essa integração
hoje?
José Saramago: São duas coisas diferentes.
Quando da campanha eleitoral, que levou o PSOE ao governo,
a questão da integração européia
vinha longe. Nesse momento, na Espanha, não se falava,
era mais a questão da entrada da Espanha na NATO.
Isso, enfim, isso sim. Agora, se me perguntar, vamos dizer,
você tem todas essas dúvidas sobre a legitimidade
dessa integração européia, se perguntar
aos povos se eles a querem agora, é perfeitamente
possível. E nós sabemos a força do fato
consumado, que pode levar pessoas, que numa outra situação
anterior, com informação suficiente, poderiam
tomar uma decisão, agora, colocadas dentro da decisão
já tomada, eventualmente não tem outro remédio
senão estar de acordo com aquilo, para que não
foram chamadas.
Jayme Martins: Voltando à literatura. Uma obra assim
sumarenta de vivência humana, eu imagino que os seus
livros tenham provocado a alma de muitos dos leitores. Agora,
o autor tem conhecimento da vida de algum leitor que tenha
sido profundamente alterada pela leitura de suas obras?
José Saramago: Bom, profundamente alterada, vamos
ver, eu lembro de alguém...
Jayme Martins: Ou tocada.
José Saramago: Tocada, alterada, não diria,
enfim, modificada profundamente, porque isso as pessoas também
não confessam, não vão dizer, mas eu
lembro de dois casos, enfim, eu sou, posso dizer que sou,
um autor que tive a sorte de receber muitas cartas de seus
leitores. Muitas, muitas, muitas, que levantam para mim sérios
problemas, porque queria eu poder responder as cartas de
toda a gente que me escreve, mas eu verifico que as cartas
por responder crescem em progressão geométrica,
enquanto que eu apenas vou reduzindo em progressão
aritmética. Mas eu lembro do caso de uma pessoa que
emigrou para o Brasil, justamente para aqui, depois da revolução
de 1974, emigrou para aqui e aqui fez a sua vida, tinha perdido
aquilo que tinha lá em Portugal, mas refez aqui a
sua vida, organizou-se, tudo mais, estava perfeitamente disposto
a não regressar. E, um dia, lendo um livro meu, salvo
engano, foi Memorial do Convento, achou que o seu lugar era
lá. Escreveu-me uma carta dizendo isso mesmo, uma
carta que me emocionou muito, emociono-me facilmente quando
as pessoas abrem, como é esse caso, seu coração,
mas devo dizer que recebi a carta com emoção,
lógica da situação, mas ao mesmo tempo
com algum ceticismo, como é que é possível
esse homem vai agora resolver todos os seus negócios
para voltar a Portugal por causa de um livro? Bom, pode ser
que sim, mas eu tenho algumas dúvidas. Passados seis
meses, esse homem me escreve de Lisboa para dizer: “já cá estou,
conforme eu disse, resolvi toda a minha vida e já cá estou
em Portugal” [risos].
Gilberto Mansur: Parece que você tem umas 800 cartas de beatas portuguesas protestando contra o Evangelho.
José Saramago: Não sei se são 800.
Gilberto Mansur: São agressivas?
José Saramago: As cartas são muitas e não
são cartas de pessoas que me quereriam muito mal se
pudessem, há também muitas outras, mas, de
fato, o Evangelho moveu, num sentido ou noutro, muitíssimas
pessoas que provavelmente nunca escreveram cartas a autores
e dessa vez acharam que deviam escrever mesmo. Tem as pessoas
que dizem que eu devia ser condenado à morte na fogueira,
sem direito a sepultura, é certo que depois acabava
a carta dizendo rezo por ti, portanto, havia uma esperança.
E há outras pessoas, enfim, católicos, que
dizem que o livro, apesar de chocante, não os ofendeu
e que compreendem e tudo isso. Mas o que há agora é uma
espécie de carreira de cartas, é como se houvesse
uma central que desse instruções, nas várias
regiões do país, para me submergir com cartas,
em que dizem que eu não podia ter feito aquilo, que
eu sou uma pessoa sem-vergonha, como é possível
atacar Deus nosso senhor, Jesus Cristo, a Virgem Maria, tudo
isso, mas enfim, isso está na lógica das coisas.
Mas, queria acrescentar só uma coisa mais. Há tempos
escreveu-me uma senhora portuguesa, do Norte, que me dizia,
e era a propósito não desse livro, mas da história
do cerco de Lisboa. Ela dizia-me que quando soube, quando
teve conhecimento que eu estava a escrever a história
do cerco de Lisboa, ela encontrava-se muito doente, tão
doente que os médicos não tinham dado grandes
esperanças de vida. E quando ela leu essa notícia,
isso são palavras dela, não minhas, teve a
saudade do livro que não podia vir a ler, isso é,
ipses literis: “eu sentia saudade de um livro que não
podia vir a ler” e depois acrescentava, felizmente,
os médicos se enganaram e eu continuo viva e vim escrever
para lhe dizer isso e aquilo e etc. Ora bem. Essa comunicação,
essa corrente, eu chamaria de corrente de afetividade, entre
esses leitores e o autor que tem sorte de os ter é,
de fato, para mim uma coisa que não tem preço.
Não sei porque, se me perguntarem como é que
isso acontece, talvez eu tenha muita dificuldade, ou então
direi que a única resposta está nos livros,
mas a verdade é que sou um autor a quem as pessoas
amam. Mas, sou também um autor a quem as pessoas detestam
[risos].
Hamilton dos Santos: Entre os que detestam, nesse último
livro, o senhor também não recebeu muitas cartas,
muitas queixas, porque parece que só os cristãos
foram ofendidos, mas se você analisa a conversa de
Deus com Jesus, os judeus também saem bastante ofendidos,
já que o Reino é considerado medíocre
por Deus?
José Saramago: Hoje, enfim, quer dizer, essa é uma
responsabilidade histórica que não cabe a mim,
nem a nenhum de nós. É certo que o que se diz é que
Jeová, ou Javé, escolheu aquele povo. O povo
judaico é o povo eleito. E, provavelmente, acontecia
com Javé aquilo que acontecia com os habitantes de
um mundo, digamos, o mundo naquela época desconhecia
que existia mais mundo, provavelmente, podemos dizer, eu
sei que é uma ironia fácil, mas podemos dizer
que ao se criarem Javé desconheciam a maior parte
do mundo que ele próprio tinha criado. É um
pouco absurdo que um Deus que cria um mundo, escolha para
si, de uma forma tão particular, apenas uma parte
do mundo e as pessoas que viviam nessa parte do mundo. Portanto,
quer dizer, se os judeus se sentiram ou não chocados,
eu acredito que não. Onde eles podem se sentir chocados é em
algumas coisas ditas no diálogo de Jesus, no templo,
quando Jesus tem 12 anos de idade e vai saber do escriba
e vai pôr as questões da culpa e da responsabilidade,
aí é que os judeus, os judeus de hoje, não
os judeus de então, podem sentir que algumas setas
que estão ali estão apontadas para eles, diretamente
para eles. Digamos, eu creio que isso possa, talvez, se explicar
de outra maneira. Eu não recebi reclamações
de judeus, mas de católicos sim.
Ivan Ângelo: Como não temos aqui, hoje, telespectadores telefonando, eu vou tentar fazer perguntas que, talvez, eles queiram saber de um escritor tão famoso, quais são seus processos e tal. Algum tempo atrás, numa entrevista, você disse que era um escritor muito rápido. É rápido no gatilho. Pensa bastante e depois, quando senta para escrever, escreve rapidamente. Eu queria saber se nesse tempo de pensar, nessa maturação, que anotações você faz, ou se não faz anotações, guarda tudo na memória e depois aquilo flui com essa maestria que você demonstra quando a obra já está pronta. Quais são os seus processos?
José Saramago: Vamos lá ver. Para resumir,
o meu processo é, digamos que, isso varia de linha
contínua. E digo isso para significar o seguinte,
eu não sou do tipo de escritor, e isso não
tem nada a ver com a qualidade final da obra, evidentemente,
não sou do tipo de escritor que escreve 80 páginas
para depois transformá-las em 200 ou em 250 ou em
400. Quer dizer, o processo de reescrita que pode levar,
por um lado, à ampliação, mas também
pode levar, por outro lado, à redução.
Aquilo que acontece comigo é que eu começo
a escrever, e vou escrevendo, vou escrevendo. E não
há caso nenhum, em nenhum dos meus livros que, tendo
chegado ao fim, eu tenha dito: este capítulo está a
mais ou este capítulo precisa ser desenvolvido ou,
ao contrário, preciso reduzi-lo. O livro que eu vou
escrevendo é o livro que vai ficar.
Ivan Ângelo: Tem anotações, tem um plano...
José Saramago: Não há plano. Eu não
diria que há plano. Eu costumo dizer que a única
coisa que eu sei quando começo um livro, além
das informações, dos dados concretos quando
preciso deles, quando se trata de um romance que vai para
os lados da História, é evidente que é necessário,
enfim, é necessário que aquilo tenha sentido
histórico, então eu preciso ler, estudar, recolher
dados. Mas, o que eu costumo dizer que a única coisa
que sei verdadeiramente é que vou de Lisboa para o
Porto, mas isso não significa que vá pela auto-estrada,
ou que vá em linha reta, de avião, pode significar
que eu tendo que chegar ao Porto, que é meu ponto
de destino, o da viagem e o do livro, eu passo por Castelo
Branco antes, que fica quase na fronteira com a Espanha.
O modo como chegar é que fica dependente do próprio
processo da escrita, quer dizer, eu posso, em dada altura,
fazer uma incursão lateral, posso parecer até que
voltei atrás, porque é, digamos, vamos lá ver,
vou ver se encontro uma maneira mais flagrante de dizer isso,
uma palavra, cada palavra, nasce da anterior, e essa palavra
não pode existir, sem que exista a anterior e todas
as outras anteriores. Por isso eu sou, literalmente, não é que
sou literalmente incapaz, mas não sou capaz mesmo,
de modo nenhum, se estou a escrever o capítulo terceiro,
de um livro, por exemplo, mas que sei que haverá uma
história qualquer mais para adiante, e que seria o
capítulo 24, por exemplo, eu não interrompo
a leitura, não interrompo a escrita do capítulo
terceiro para, por uma espécie de inspiração
súbita, ir escrever o capítulo 24, porque,
para mim, isso é completamente impossível,
porque o capítulo 24 depende do 23 em tudo. Não
apenas na sucessão, na ordem numérica, mas
nos múltiplos fios – e nós que estamos
aqui sabemos disso – de que se compõem uma narrativa.
Se há alguma espécie de lei, é para
além desse sentido de que tem que se chegar ao Porto,
mas estou livre para decidir o caminho que eu quiser, eu
diria, por exemplo, como quem vai atravessar a corrente de
um rio e tem meia dúzia de pedras que lhe permitem
ir para o outro lado, passando de pedra em pedra. O que eu
sei é que ao longo da história que eu vou contar
há meia dúzia de pedras fundamentais e tem
que passar por lá, senão cai na água.
E, por outro lado, à medida que escrevo, vou antecipando,
em pequeníssimos resumos, o capítulo seguinte.
Em pequeníssimos resumos, que não tem mais
do que quatro, cinco, seis linhas. É a única
coisa, digamos, que eu faça...
Ivan Ângelo: Do capítulo seguinte ou outros
vários?
José Saramago: Um ou dois capítulos seguintes. Sou incapaz...
Edla Van Steen: O famoso gancho para o próximo capítulo.
José Saramago: É, de uma certa maneira é isso.
Eu sei que o capítulo seguinte daquele que eu estou
a fazer, terei que dizer isso, assim e assim, mas de modo
nenhum articular toda a história que vou contar num "x" número
de capítulos, seguindo depois. Aquilo que eu não
faço é uma espécie de “guião”,
eu estou em cada momento livre para não escrever aquilo
que pensava, num outro momento, que iria escrever. E é esse
sentimento de liberdade, aquilo que um crítico português
chamou – e muito bem, e eu não tinha pensado
nisso, e os críticos servem justamente para isso,
para dizer como é que nos devemos pensar – ele
designou a minha escrita de escrita desprogramada. E é de
fato uma definição exemplar. É de fato
uma escrita que se comporta desprogramadamente.
Gilberto Mansur: Eu queria, também pensando um pouco
no telespectador, que certamente conhece, como o senhor diz,
conhece mais o Evangelho Segundo Jesus Cristo, eu queria
fazer algumas perguntas voltadas para esse livro. Eu já ouvi
dizer, algumas pessoas já me disseram, que o leram
como se fosse uma longa oração, como se fosse
uma demonstração de fé, até mesmo
religiosa, apesar da sua posição que a gente
conhece, de materialista. Mas, a pergunta que eu queria lhe
fazer é a seguinte, a gente sabe e tem uma grande
curiosidade com relação aos evangelhos apócrifos,
que existiram até o Conselho de Trento, nos anos 200,
que São Jerônimo recolheu, copidescou e o Vaticano,
a partir daí, simplesmente, praticamente proibiu a
existência e a circulação desses evangelhos,
a que muito pouca gente teve acesso. Então, o que
eu queria perguntar é se você teve acesso a
isso em algum momento, conhece esses evangelhos e de que
maneira? E, ao mesmo tempo, se você não consideraria
um crime de lesa-humanidade o Vaticano praticamente proibir
a circulação desses evangelhos aos quais a
humanidade deveria ter acesso?
José Saramago: Vamos ver. Comecemos pela proibição.
O que a Santa Sé fez foi declarar que certos evangelhos
eram canônicos e outros eram apócrifos. Portanto,
fez uma escolha entre os documentos que considera bases da
igreja, enfim, portanto, que são os quatro evangelhos,
e depois os quatro apóstolos e tudo que vem depois,
mas do ponto de vista dos evangelhos os quatro evangelhos,
e declarou os outros apócrifos. Não previu
a situação, quer dizer, pode, num certo momento,
ter, enfim, logo após essa decisão, é possível
que se tenham criado dificuldades da difusão, mas
neste momento os evangelhos apócrifos estão
publicados em praticamente todas as línguas. Embora
eu tivesse tido tanta dificuldade de encontrá-los
em português, que tive de comprar uma edição
espanhola, da Biblioteca dos Autores Cristãos, onde
está tudo, Santo Agostinho, tudo isso, e também
os evangelhos apócrifos. Tive, portanto, acesso a
eles. Os evangelhos apócrifos são, na maior
parte dos casos, fragmentos. Há alguns bastante completos,
como é o caso do evangelho, dos evangelhos, que não é apenas
um, são três ou quatro, são chamados
Evangelhos da Infância, em que se narra a infância
de Jesus, de uma maneira mágica, com coisas extraordinárias,
e algumas nada recomendáveis, por exemplo acontece,
em certa altura, que Jesus estando brincando num regato e
depois, digamos, um funcionário de um moinho, os moinhos
que as crianças fazem, a água passa e faz girar
o moinho e houve um amigo dele, um colega, uma criança
da mesma idade, que deu um pontapé naquilo, estragou
aquilo e Jesus ficou tão zangado que o matou [risos].
E depois os pais da criança morta foram queixar-se
aos pais de Jesus, Maria e José, como é que
isso, essa criança que faz essas coisas, e, aliás,
parece que aconteceram dois casos, num ele fez ressuscitar
a criancinha morta e no outro não. Portanto, Jesus,
segundo os apócrifos, não era assim tão
bondoso e tão caridoso. O que acontece é...
Gilberto Mansur: Esses evangelhos, de alguma maneira, influenciaram
o senhor?
José Saramago: Não, rigorosamente nada. Devo
dizer que quando eu não conhecia os evangelhos apócrifos,
quando estava para escrever esse livro. E tive que conhecê-los
e fui conhecê-los e até tinha uma grande esperança
que viessem a ser muito úteis, porque como eram apócrifos
as pessoas não os conheciam tão bem e eu poderia
tirar dali umas coisas que iriam, enfim, dar mais consistência à minha
história. No final das contas, nada. O único
episódio que eu tirei dos evangelhos apócrifos,
mas deslocando totalmente no tempo é o episódio
dos pássaros de barro que, nos evangelhos apócrifos,
Jesus faz 12 passarinhos, ou 10 passarinhos de barro, e depois
bate as palmas e eles voam. Eu passei isso para Jesus já homem,
para a cena logo após a grande conversa no meio do
lago, entre Deus, o diabo e Jesus, quando, por assim dizer,
se anunciam as primeiras vocações. Jesus é ali
que faz os tais passarinhos de barro e é esse episódio,
digamos, de São Tomé, que quer ver para crer
se os pássaros voam.
Rodolfo Konder: Saramago, nós vamos ter que fazer
um pequeno intervalo e o Giron vai fazer uma pergunta já na
próxima parte do programa, mas vamos interromper o
programa por alguns minutos. Nós voltamos já,
já.
[intervalo]
Rodolfo Konder: Muito bem, voltamos ao estúdio do Roda Viva, que está entrevistando hoje o escritor português José Saramago. Eu lembro que este programa é transmitido em conjunto com (...) Nós vamos passar a palavra agora para o Giron, que estava para fazer a sua primeira pergunta.
Luiz Antônio Giron: Ligando com a pergunta do Gilberto,
eu queria saber o seguinte: você pegou o maior best-seller
da literatura mundial, que é a Bíblia, são
os evangelhos, e você se baseou em algum evangelho
dos quatro principais ou você criou livremente a partir
deles? Isso é a primeira coisa. A segunda coisa é a
seguinte: a que você atribui tanto ódio de alguns
católicos, de alguns religiosos, quanto ao sucesso
que o seu livro despertou no público?
José Saramago: Sobre a primeira questão, a
verdade é que os alicerces do meu livro não
são apenas os quatro evangelhos, chamados de evangelhos
sinópticos, é também o Antigo Testamento.
Porque não podemos esquecer isso. O Deus do meu livro
não é o Deus de que hoje se fala. O Deus, digamos,
da igreja, hoje, é o Deus do amor, o Deus da compaixão,
um Deus de perdão. Aquele Deus não tem nada
a ver com o Deus que foi sendo refeito ao longo destes dois
mil anos. E que acabou por se assemelhar ao filho. É um
caso extremamente curioso, porque ao longo desses vinte séculos
a idéia de Deus vai sofrendo modificações
e acaba, por fim, o pai por se assemelhar ao filho. A doçura
de Cristo, a mansidão, a dignidade, tudo isso, que
estão nos evangelhos, tem as suas exceções,
porque Jesus também soube ser violento, foi violento
muitas vezes. Mas este sentido de caridade que está em
Jesus foi, ao longo desses vinte séculos, passado
para o pai. Portanto, o meu Deus, ou melhor, dizendo, para
não haver equívocos, o Deus do Evangelho segundo
Jesus Cristo é o Deus bíblico, é o Deus
dos judeus. Porque Cristo era isso mesmo, Jesus era isso
mesmo, um judeu, nada mais do que isso. Não há,
aqui, um cristianismo nascido antes, quer dizer, não
há um cristianismo nascido antes de poder ter vivido.
E aquilo que fez o cristianismo o que é, é a
sua própria vivência. Portanto, além
dele ser indiferente, que se tratasse do Evangelho segundo
Marcos, ou Mateus, Lucas ou João, qualquer dos quatro,
eu tomei diferenças e leitura, foi também a
leitura, não de todos os livros do Antigo Testamento,
evidentemente que não me interessariam, mas de alguns
deles, além do O cântico dos cânticos,
que é inevitável e que é aproveitado
literalmente num diálogo entre Jesus e Maria Madalena.
Há também as diferenças, ou Eclesiastes
ou o Levítico, e há alguns outros livros. Quanto à segunda
questão, enfim, eu penso que o choque produzido nos
católicos e reparo que não há protesto
dos protestantes. Aqueles que se sentiram atingidos foram,
exclusivamente, eu diria, os católicos, eu penso que é natural,
porque todo e qualquer livro, toda e qualquer idéia
que ponha em causa o que está estabelecido, porque
repare, eu, às vezes, digo que há uma coisa
que me surpreende muito, é que depois de uma missa,
não aparece uma, duas ou três pessoas mortas.
E digo isto por uma razão muito simples: como é possível
agüentar a presença de Deus e continuar vivo?
E, contudo, digamos, a missa acaba e, independentemente do
grau de fé e de participação que os
fiéis tenham, mas é um ato pouco social. Eu
acho que se Deus estivesse lá, se as pessoas sentissem
a real presença de Deus, não agüentariam,
quer dizer, não é possível. Então,
o livro que aparece, como é este caso, que vai por
em causa toda essa instabilidade, toda essa maneira normal
de ter uma relação com a religião, em
que tudo é subitamente desequilibrado, as pessoas
que vivem dentro de um edifício, de uma casa que está toda
bem distribuída, de repente vêem alguém
mudar as paredes, abrir janelas onde não havia, digamos,
algumas delas tapá-las, as pessoas sentem-se, fora
do seu contexto e isso pode desencadear vários tipos
de reação.
Luiz Antônio Giron: Tem alguma passagem do livro que
você acha que chama mais a atenção por
este aspecto do choque?
José Saramago: Enfim, há várias...
Luiz Antonio Giron: Eu, por exemplo, acho que quando você descreve
a morte de Jesus Cristo, quando você descreve isso
com crueza, com grande crueza mesmo, eu acredito que aí esteja
um dos motivos da revolta. Você descreve Cristo como
não tendo visto a tigela negra onde o sangue gotejava.
Quer dizer, é uma coisa muito chocante para quem pode
ter fé, eventualmente.
José Saramago: Há aí vários aspectos.
Em primeiro lugar, é óbvio para toda gente,
essa tigela negra, que é uma tigela vulgar, comum,
de barro, é a representação do Graal.
Quer dizer, aquilo que seria esse vaso magnífico onde
o sangue de Cristo foi recolhido, transforma-se, no meu livro,
numa simples tigela de barro...
Luiz Antônio Giron: Que Cristo não vê.
José Saramago: O não ver, a verdade é que
ele está em trânsito da vida para a morte. Não
creio que isso tenha chocado. O que choca, por exemplo, tendo
em vista a importância do culto mariano, hoje, eu acho,
de uma certa maneira, que a pirâmide, se é que
pode se chamar assim, a pirâmide de relação
religiosa, dentro do cristianismo está, de alguma
maneira, invertida, quer dizer, deveria ser, logicamente,
me parece que deveria ser logicamente, Deus, Cristo e Virgem.
Mas, se nós olharmos bem, veremos que há um
processo de inversão. A Virgem aparece em primeiro
lugar, depois aparece Cristo e só depois é que
aparece Deus. O culto mariano, de uma certa maneira, fez
inverter toda essa relação, trocar os pés
pela cabeça nessa relação. Portanto,
há a circunstância dele ter feito de Maria,
mãe de Jesus, uma mulher igual a todas as outras mulheres.
Há a circunstância da presença do diabo.
O diabo é o anjo da anunciação, o diabo é educador
de Cristo e ele, em concordância com Deus, porque no
fundo eles são um só. No fundo, são
um só. E há uma frase, por exemplo, terrível,
que nunca nenhum católico, digamos, não há perdão
que chegue para isso, que é quando, na tal conversa
dentro do barco, no meio do lago, cercado de nevoeiro, depois
daquela descrição toda do que vai acontecer
no futuro, o diabo diz: “é preciso ser Deus
para gostar tanto de sangue”. E realmente, se o católico,
se o crente, é colocado diante de um Deus, que fez
do sangue, do sofrimento, da renúncia, da abdicação
da vontade, do sacrifício, do martírio, fez
o alicerce do seu poder, e se o diabo aparece a dizer realmente é preciso
ser Deus. E, agora, é curioso, não apenas esse
Deus, mas todos os deuses, todos os deuses pediram sangue.
E essa relação de sacrifício dos homens,
que continuamente se sacrificam, é uma transcendência
que, enfim, não conheço. É de fato,
absurdo. Para mim, tudo isso, é bastante absurdo,
se é que pode se dizer bastante, porque ou é absurdo
ou não é [risos], portanto não se pode
dizer “bastante absurdo”. Então, eu diria
que é absurdo mesmo.
Gilberto Mansur: Além dos evangelhos, você leu
muito sobre Cristo? Existe um livro na literatura brasileira
que você não deve ter lido...
José Saramago: Não, não...
Hamilton dos Santos: O senhor pensou nas feministas na construção
da personagem de Maria?
José Saramago: Não pensei nas feministas, mas
essa pergunta poderia ser posta de uma outra maneira: se
eu pensei muito nas feministas quando construí a personagem
Maria Madalena. Porque a Maria...
Hamilton dos Santos: Ela é loura, não é?
José Saramago: Dizem que sim, que era loura [risos].
Quer dizer, provavelmente vem daí a idéia que
as loiras são mais perigosas que as morenas. Enfim,
sobre isso eu não tenho nada a dizer, se são
umas ou se são outras. Mas, as feministas... Essas
duas mulheres, Maria Madalena e Maria, mãe de Jesus,
são duas faces da mesma mulher e isso mostra-se quando,
nas bodas de Canaã, quando Maria, mãe de Jesus,
percebe que não tem mais o que fazer na vida do filho,
entrega o filho, entrega-o de fato a Maria Madalena. Digamos
que a Maria Madalena é mais uma personagem feminina
das minhas que não tem a ver com o tempo em que, de
fato, se viva, como não tem Blimunda, como não
tem outras muitas, que são representações
de uma mulher que está colocada num tempo, mas que
no fundo não é produto dele, porque a mulher
produto do tempo, mulher e judia daquele tempo, é a
mulher que eu, cuidadosamente, tentei descrever no princípio
do livro, como a mulher que não tem importância,
que não tem um significado social, que entra na sinagoga
pela porta lateral, que nem que todas as mulheres de Israel
ou da Palestina estivessem dentro do templo, o serviço
religioso não pode começar...
Hamilton dos Santos: Mas o senhor não está dizendo
que Maria, no seu livro, não tenha esse componente
feminista, porque, por exemplo, quando ela está grávida,
ela pensa na possibilidade de desta vez, na Páscoa,
não ter que servir os homens, não ter que preparar
as comidas.
Edla Van Steen: Você acha que isso é problema
de feminismo? [risos]
José Saramago: Não, eu não diria que
seja, quer dizer, nenhum ser humano é totalmente passivo
sempre, todos nós temos, mesmo que não concretizemos,
movimentos de protesto interior, de revolta, tudo mais, ai
de nós se fossemos passivos a 100%. E se é verdade
que o sistema social e ideológico, religioso, de um
tempo que condenava as mulheres, de fato, à passividade,
também é certo que no seu foro íntimo,
da sua consciência, da sua alma, essas coisas estavam
lá. Quando uma mulher tem que viver num lugar em que
os homens se permitem dizer “abençoado seja,
Senhor, por ter me feito homem”, quer dizer, quando
a mulher não tem outra coisa para dizer a Deus, senão “graças,
Senhor, por ter me feito segundo na tua vontade”, quer
dizer, quando a mulher está reduzida a isso, é preciso
que Maria, na medida do possível, manifeste essa capacidade
de indisciplina, mas que essa indisciplina se manifeste totalmente
na Maria Madalena, que quer estar fora.
Jayme Martins: Essa inversão que o senhor se referiu
a pouco, de Deus, Cristo, Virgem Maria, para o inverso, Maria,
Cristo e Deus, há um exemplo muito concreto disso
adotado pela própria igreja na China, por exemplo,
quando o jesuíta Mateus disse: “vai pregar o
cristianismo junto ao Imperador e aos eruditos da Corte” e,
vendo a descrença dos chineses num Deus que, afinal
de contas, acaba pregado na cruz, ele recorre então
a imagem da Virgem Maria, tanto que a igreja matriz de Pequim
acaba sendo a igreja de Nossa Senhora da Conceição.
E aí então é que o cristianismo consegue
uma grande popularização na China, a ponto
de o taoísmo acabar introduzindo também uma
mulher no seu panteão de divindades. Agora, já que
estamos falando em China, vamos a minha pergunta: apesar
dos fracassos sofridos pela experiência socialista
pelo mundo afora, como é que as convicções
políticas e ideológicas de Saramago se mantém
intactas no essencial? Qual é a esperança,
afinal de contas, nesse sentido?
Rodolfo Konder: Eu vou pegar uma carona nesta pergunta do
Jayme, porque acho que temos aí um tema interessante
sobre a sua reflexão. Talvez até um pouco
do fascínio que você exerce, além da
qualidade da sua literatura, esteja nessa tensão
entre o escritor e o militante. É porque você,
por exemplo, falou em corrente de afetividade, falou em
diversas janelas, falou em múltiplos fios na condução
do seu trabalho, falou até em alma, que era uma
palavra banida do catecismo dos materialistas dialéticos.
José Saramago: Alma, espírito, aquilo que nós
não sabemos identificar. É só. É por
uma comodidade lingüística, nada mais.
Rodolfo Konder: Mas eu perguntaria, dentro da pergunta do
Jayme, se essas tensões entre o militante político,
que acredita num partido único, por exemplo, e o
homem das múltiplas janelas, se elas não
dificultam o trabalho de criação? Se o militante
não patrulha o escritor?
José Saramago: Eu creio que se pode responder a isso
facilmente pela leitura dos meus livros. Não creio
que alguém, quem quer que seja, sinta, ou perceba,
ou distinga, na leitura qualquer dos meus livros, vigilância
eventual, suposta vigilância que o militante teria
no ato da escrita em exercer sobre o escritor. Definitivamente,
não creio que isso se encontre lá. Em segundo
lugar e, portanto, voltando um pouco à pergunta, para
complementar, como é que diante dessa derrocada toda
alguém tem o atrevimento, ou o descaramento, de continuar
a dizer: pois sim, caiu, mas eu continuo. A questão
também pode ser posta ao contrário: por que,
por uma coisa ter acabado, coisa esta que não é "a" coisa,
mas é apenas uma delas, que foi apenas uma delas,
que não se constitui, ao derrocar-se, como a morte
da morte, o fim do fim. Poderíamos perguntar por que
isso haveria de significar a renúncia a princípios
meus. Que tem essa ligação profunda. Quero
dizer, se meus princípios estivessem dependentes do
maior ou menor êxito de sua aplicação,
então eu seria tanto mais fiel a esses princípios
quanto mais os resultados fossem favoráveis ao meu
ponto de vista, o que se confundiria, perigosamente, com
o oportunismo. Então, aquilo que se passa é completamente
diferente. Os princípios, para mim, são intocáveis.
Aquilo que, a partir deles, aquilo que representa a utilização
ou a tentativa de se transportar para uma prática
o que está contido nesses princípios, posso
dizer que, em princípio, também, tenho a parte
da responsabilidade que resulta da minha adesão a
esses princípios, mas não posso assumir a responsabilidade
que resulta da má aplicação desses mesmos
princípios. Quer dizer, eu não sou obrigado,
em primeiro lugar, eu não sou obrigado a renunciar
aos meus princípios porque a União Soviética
se desmantelou e também não era obrigado antes
a crer, como, aliás, não cria, que aquilo que
estava sendo feito na União Soviética fosse
a efetiva concretização de princípios
os quais eu era fiel então e continuo a ser fiel.
De uma maneira mais clara, a União Soviética
nunca foi para mim uma referência exclusiva e permito-me
introduzir aí um matiz que é, quando foi dito
que eu acredito no partido único. Eu não acredito
num partido único, eu não defendo a existência
de um partido único, qualquer que ele seja. O que
eu defendo é legitimidade de um partido, que tenha
como base a aplicação desses princípios,
e que não lhe seja negada a possibilidade de difundi-los,
de promovê-los, em igualdade com qualquer outra tendência
política que siga caminhos diferentes. Porque, para
mim, há uma coisa que está rigorosamente clara. É que,
de fato, da noite para o dia, milhões e milhões
de comunistas, que pareciam sê-lo, ou diziam sê-lo,
deixaram de ser de repente. O que me permite duvidar da autenticidade
dessa convicção, nas 24 horas antes. Em segundo
lugar, a consciência da dissensão tremenda,
que é conseqüência da evidência de
um fracasso. Milhões de pessoas neste momento sofrem,
sinceramente sofrem, essa dissensão. Mas tem também
essa idéia, que para mim é fundamental: o socialismo
dissentiu e provavelmente voltará a dissentir nas
novas tentativas que se façam para estabelecê-lo.
Por uma razão muito simples, porque promete e tendo
prometido não cumpre, como foi este o caso, dissentirá.
Já o capitalismo, louvado seja Deus, não vai
dissentir nunca, por uma razão muito simples, porque
não promete nada.
Fábio Lucas: Ainda sobre o livro O Evangelho Segundo
Jesus Cristo, a história dele oferece agora, recentemente,
dois episódios. Um é que houve um embargo de
um secretário de Estado para que ele entrasse na lista
dos livros portugueses a serem apresentados ao Prêmio
Europa de Literatura. Outro, contrariamente, não foi
um embargo, foi uma consagração, quer dizer,
o livro recebeu o grande prêmio da Associação
Portuguesa de Escritores. Como você recebeu uma coisa
e outra?
Hamilton dos Santos: Eu queria só emendar na sua pergunta
dizendo o seguinte: me parece que não houve, pelo
menos por parte da igreja, como houve, por exemplo, no caso
do filme Je Vous Salue Marie, do Godard, uma preocupação
tão intensa com o seu livro. Claro, houve algumas
polêmicas, mas elas não foram tão fortes.
Me parece até que, na verdade, os políticos
fomentaram mais essas polêmicas do que a própria
igreja. O senhor acha que a igreja está se tornando
mais tolerante com isso ou criando uma estratégia
para não produzir mais mártires culturais?
José Saramago: A igreja é uma coisa muito complicada
e a igreja não tem uma estratégia, tem estratégias
e pode se dar um exemplo: no norte de Portugal, onde as pessoas
são muito conservadoras, os bispos que lá estão
são tão ou mais conservadores ainda do que
as pessoas que lá vivem. No sul, no caso, por exemplo,
do bispo de Setúbal, que é um distrito operário,
a linguagem desse bispo e o comportamento desse bispo é completamente
diferente. Portanto, a igreja é suficientemente hábil
para pôr, consoante à necessidade, os seus porta-vozes
e os seus condutores, digamos, do povo de Deus, do seu rebanho,
de acordo com as especificidades de cada lugar. E, nesse
caso, a igreja terá pensado, ouve reações
de eclesiásticos, o arcebispo de Braga fez uma homilia
tremenda denunciando o livro, chamando nomes ao autor, essas
coisas todas, mas a igreja como instituição,
em Portugal, guardou silêncio. Mandou os seus porta-vozes
dizer aquilo que convinha, para que os fiéis também
não ficassem desamparados e sem a voz da igreja, eu
imagino que nas igrejinhas das aldeias, quando se fala do
Evangelho Segundo Jesus Cristo, dizem o pior de mim, quer
dizer isso é o que eu imagino. Mas a igreja não
se meteu muito nisto. Às vezes, qualquer tentativa
para comparar isso com o caso Rushdie, eu digo, por favor,
respeitemos...
Roberto Pompeu de Toledo: O senhor imaginou que alguma vez
poderia acontecer algo parecido com isso?
José Saramago: Não, de modo nenhum. Eu saio à rua,
ninguém me diz nada, quer dizer, a agressividade das
pessoas, quando existe, manifesta-se epistolarmente, quer
dizer, escrevem cartas ou devolvem, por exemplo, à editora – o
que aconteceu em dois ou três casos – o livro
todo rasgado, todo esfacelado. Ficam por aí. A questão
posta sobre o prêmio. Por razões que não
vem ao caso, porque de fato precisaríamos juntar aqui
uma quantidade de dados que não interessam, a minha
disposição estava em, se o prêmio da
Associação Portuguesa de Escritores me fosse
atribuído, recusá-lo. Os portugueses todos
conhecem as razões, mas não vale a pena falar
aqui. Simplesmente apresentou-se uma dificuldade, é que
tinha havido toda essa história, digamos, da proibição,
do veto, ao livro em relação a esse prêmio
literário europeu. O que deu o escândalo que
todos nós sabemos. Escândalo dentro das fronteiras
e fora delas. Digamos, dizer eu que não queria o prêmio,
seria acrescentar, como eu disse, ao escândalo de uma
exclusão o choque de uma recusa. Pareceria que eu
estava a arranjar maneiras de fazer falar de mim, com vista
ao marketing e ao aumento das vendas. Estava nessa dúvida,
quer dizer, nos dias anteriores à divulgação
do prêmio, quando se tornou claro, porque sempre nós
ficamos sabendo como as coisas se passam, que provavelmente
o prêmio me ia ser dado, eu estava pensando no que
eu vou fazer, no que eu vou dizer. E, conversando com a minha
mulher sobre isso, ela de repente tem a idéia luminosa,
de fato luminosa, que resolveu a questão. Eu aceito
o prêmio como prêmio que é, digamos, a
distinção honorífica, mas o dinheiro
dele eu encaminho em outra direção e essa direção
foi a compra de livros para enviar aos povos africanos de
expressão oficial portuguesa, os chamados horrivelmente
PALOPS. Eu acho que não se deve chamar a ninguém
de semelhantes coisas, mas enfim, o mundo do jornalismo abrevia
essas coisas e realmente dizer países de expressão
oficial de língua portuguesa era grande demais. Então,
PALOPS já está. Digamos, a razão foi
essa, a razão da minha recusa e da decisão
de aceitar o prêmio sim, mas renunciar ao seu valor
tem essa causa.
Fábio Lucas: A sua mulher foi a boa conselheira nesse
caso?
José Saramago: A minha mulher sempre é minha
boa conselheira, e mais do que conselheira, é o outro
lado de mim.
Edla Van Steen: Por falar em mulher, deixa eu perguntar uma
coisa sobre mulher. Os escritores gostam de dedicar livros,
em geral. Eu queria saber de você o que significa
dedicar um livro seu, por impresso, e se alguma vez você se
arrependeu de ter dedicado um livro?
José Saramago: Bom, se eu não tivesse me arrependido
de nada em toda a minha vida, seria o caso de perguntar então
por que se arrependeu de ter dedicado o livro? Eu arrependi-me
e penso que é uma coisa de todos nós, que nos
arrependemos de coisas que fizemos e podemos nos arrepender
até de dedicatórias escritas com muita sinceridade
e que passam a não ter nenhuma razão de ser.
De uma certa maneira, pode-se dizer o seguinte: o homem que
dedicou esses livros, sendo o mesmo, já não é o
mesmo. É outro homem, tem que se entender isso, e
não é que ele pretenda fazer desaparecer o
homem que foi. O que existe é o direito de retirar,
daquilo que esse homem fez, aquilo que o homem que ele é hoje,
se tornou, supérfluo, enganoso, falso, tudo o que
quiser, e então retira a dedicatória.
Edla Van Steen: Só quero perguntar uma outra coisinha.
O Giovanni Pontinni me disse, há alguns dias, que
ele tem uma enorme correspondência com você sobre
o problema de tradução da sua obra. Em geral,
você gosta das traduções feitas?
José Saramago: Eu gosto, em geral, das traduções
feitas, gosto mais ou menos. Há traduções
que posso ler, que eu posso tomar conhecimento, no caso da
italiana, no caso da francesa, muito menos no caso da inglesa,
mas em todo caso o suficiente na leitura. Há outras
que me escapam completamente, a sueca, a dinamarquesa, ou
finlandesa, ou holandesa, japonesa ou o hebreu, tudo isso
me escapa. Vou, às vezes, denunciando informações
que algumas pessoas podem dar, quanto à qualidade
das traduções. Algumas das melhores, penso
que existem excelentes tradutores, sobretudo existem excelentes
tradutoras, o que não significa que não tenham
também bons tradutores, como é o caso do Giovanni
Pontianni, como a Rita Desti, (...?) e alguns mais.
Gilberto Mansur: E no Brasil, você acha que deveria
se mexer em alguma coisa? Teve um livro seu que foi, não é?
José Saramago: Eu nunca autorizei que nenhum livro
meu fosse mexido, como também não permitiria,
se dependesse de mim, que um livro de um autor brasileiro
fosse mexido em Portugal.
Ivan Ângelo: Às vezes é.
José Saramago: Eu sei que é, eu sei que é,
mas aí recrimino o autor. O autor eu penso que deve
dizer assim: “eu escrevo em português. As variantes,
as mudanças, as especificidades do lugar e da cultura
diretamente em que estou, a cultura brasileira, levam a que
a minha escrita e a escrita comum sejam diferentes em alguma
coisa”. Mas a questão também é essa,
que nós temos que aprender justamente com as diferenças.
Eu considero que ganho mais podendo ler um livro brasileiro,
de um autor brasileiro, na forma que ele usou. Ganho mais
porque sei mais. Fico, a saber mais, ao saber que a minha
língua pode dar aquelas voltas. Isso é um enriquecimento.
Edla Van Steen: Você é contra a integração
proposta?
José Saramago: Eu acho que não, o que há é esse
projeto do acordo ortográfico.
Ivan Ângelo: Aqui se falou muito de um livro só aqui.
Falou-se um pouco em Ricardo Reis, mas falou-se, principalmente,
do Evangelho. Eu queria saber como você, que empregou,
deu o melhor de si, para escrever cada um dos livros que
você escreveu, em qual você acha que acertou
mais a mão, que te satisfaz plenamente? E qual o outro
que, hoje, de alguma forma, não te satisfaz tanto?
Enfim, faça uma escolha.
José Saramago: Essa é terrível pergunta,
quer dizer, no fundo é uma pergunta equivalente a
alguém que tem quatro filhos, há um incêndio
em casa e dizem que só pode salvar um, e ele vai lá e
o que ele faz? Provavelmente, aquilo que ele seria obrigado
a fazer por quem lhe pôs diante desse dilema é morrer
com os quatro filhos. O melhor era isso. Mas, como não é esse
o caso, eu começo pelo livro que eu considero o menos
conseguido, para não chamar falhado, ou coisa assim. É,
evidentemente, Jangada de Pedra. Por uma razão muito
simples, óbvia: desde o primeiro momento, eu não
precisei chegar ao fim do Jangada de Pedra para saber que
aquele livro estava condenado a ser, irremediavelmente, falhado.
Ivan Ângelo: Você já tinha essa impressão
enquanto escrevia?
José Saramago: Sim, sim, eu sabia isso. E, por uma
razão claríssima: o clímax do livro,
quer dizer, o ponto forte do livro está no princípio.
O ponto forte da Jangada é a separação,
o corte da península, dos Pirineus. Tudo o quanto
vem depois, o autor tem que terminar de contar aquela história,
mas ele sabe, e eu sabia, que não encontraria nada
mais forte do que aquilo que já lá está.
Portanto, esse livro é, desse ponto de vista, falhado.
Não digo que seja na escrita, no concreto das situações,
mas é um livro que está posto ao contrário.
Se eu pudesse ter escrito o livro ao contrário, pondo
a fratura no fim, mas aí era outra história
que tinha que começar, pois se a fratura ponho no
fim, precisava continuar, para explicar o que acontecia depois.
Então, ali está. Esse livro é o tal.
Os outros, é muito difícil. Há várias
razões. Eu, às vezes, digo que eu ponho, talvez,
O Ano da Morte de Ricardo Reis acima dos outros. Mas, ao
mesmo tempo me pergunto por que eu iria colocar O Ano da
Morte de Ricardo Reis acima do Memorial do Convento? Ou da
História do Cerco de Lisboa? Ou do Evangelho? De modo
que, como no ciclismo quando eles chegam no Pontão,
quer dizer, aquilo que eu desejo é que meus livros
cheguem todos em Pontão e que sejam creditados ao
mesmo tempo. Eu admito que A Jangada de Pedra vem 2 minutos
atrasados, e é bem feito [risos].
Gilberto Mansur: O sucesso do Evangelho, que é o seu
livro que fez mais sucesso, que vende mais, balançou
alguma coisa? Você tem uma predileção
por ele com relação aos outros?
José Saramago: Não, não. O que eu considero é que
a “carreira” do Evangelho, para pormos a questão
assim, não vai poder ser julgada por questões
quantitativas. Razões de ordem exclusivamente quantitativas.
Não digo exclusivamente, mas, quantitativas. Quer
dizer, tem 140 mil exemplares publicados em Portugal, vendidos
em Portugal, vai vender com certeza mais, mas aquilo que
eu espero que aconteça é que o livro tenha,
produza e continue a produzir nos leitores, efeitos profundos.
E por aí é que eu penso o Evangelho. É possível
que o Evangelho seja, dos meus livros, aquele que vai ficar,
não por razões meramente, exclusivamente literárias,
mas porque, ao contrário dos outros livros, que também
levantam questões que não são de ordem
meramente literárias, este põe muito mais questões.
E essas questões, suponho eu, vão levar as
pessoas a ler o Evangelho, espero que dentro de 50 anos ainda
leiam. Daí pra diante, enfim...
Gilberto Mansur: E ele te deu mais trabalho? Tem algum livro
que te deu mais trabalho?
José Saramago: Não, não. O livro que
eu penso que me deu mais trabalho, mais esforço e
mais suor, foi A História do Cerco de Lisboa, por
causa dessa diferença de planos, século XII,
século XX, a articulação entre isso,
digamos...
Luiz Antônio Giron: Você acredita nessa, você falou
que Jangada de Pedra não funciona porque...
José Saramago: Não, ele funciona.
Luiz Antônio Giron: Funciona menos, porque no começo
tem um ponto culminante. Você acredita nessa linearidade
do romance, de narrativa que conduza a um ponto culminante,
nesse momento do romance contemporâneo?
José Saramago: Não, não, eu não
quero dizer que eu não sinta, que eu pense que o interesse
tenha que vir crescendo, até chegar ao fim onde seria
a apoteose. Agora, considero que é um livro desequilibrado
porque o ponto fortíssimo está à entrada
dele e faça o autor o que fizer, ao longo dele, já não
pode equilibrar. Se eu tivesse um ponto forte a princípio,
outro mais adiante, outro mais perto do final, o livro equilibrava-se.
Mas, o livro não pode equilibrar-se, porque o clímax é na
abertura do livro. A partir daí ele vai como pode.
Rodolfo Konder: Saramago, infelizmente o nosso tempo está chegando
ao fim. Então, em nome da TV Cultura eu queria agradecer
muito a sua presença aqui. A entrevista foi excelente,
muito interessante, tenho certeza que os telespectadores
também gostaram muito. Agradecer aos jornalistas e
aos escritores que nos ajudaram aqui a fazer a entrevista...
José Saramago: Eu posso também? Só por
um minuto? Agradecer o modo simpático como se comportaram
comigo. Podiam ter me esfacelado e não me esfacelaram
[risos]. A troca de idéias em que, de fato, resultou
esse encontro, a oportunidade de conhecer gente nova, de
rever amigos meus e, enfim, e se isso serviu para que os
meus leitores conhecessem um pouco melhor, eu fiquei conhecendo
um pouco melhor, através das vossas questões,
o interesse que os brasileiros tem por aquilo que eu faço.
Muito obrigado.
Rodolfo Konder: O Roda Viva volta na próxima semana,
na próxima segunda-feira, no horário de sempre.
Muito obrigado! Até lá!