Blog do Rene


 
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Manifesto contra o Trabalho (clique aqui para baixar texto)
Grupo Krisis
Tradução do alemão de José Paulo Vaz, revista por José M. Justo.

Tendo como principal expoente o sociólogo alemão Robert Kurz, o grupo Krisis é uma revista teórica que reúne contribuições para a crítica à sociedade da mercadoria. A Krisis existe desde 1986


Prefácio à edição portuguesa do Manifesto contra o Trabalho
Quando, em junho de 1999, foi publicado na Alemanha o Manifesto contra o Trabalho, a chamada “new economy” estava precisamente no auge da sua embriaguez, financiada pela bolsa. A colossal valorização das ações tinha obnubilado os cérebros e incentivado uma irrealista e histérica atmosfera de sucesso, fazendo crer que qualquer um podia ficar rico da noite para o dia, desde que se empenhasse nisso com suficiente esperteza. Os universitários encarregados de propagandear o mercado iam a ponto de pôr a correr o boato de que o capitalismo se tinha libertado das suas próprias leis e podia doravante funcionar sem crises.
Já nessa altura não era certamente preciso ter nenhum tipo de conhecimento especializado para reconhecer que estas ilusões assentavam num gigantesco efeito de recalcamento. Enquanto os convivas erguiam as suas taças de champanhe na festa em que se reuniam todos aqueles que continuavam a ser os ganhadores do mercado mundial, havia setores cada vez maiores da população mundial que se viam arrastados para a miséria absoluta, pelo simples fato de, enquanto força de trabalho, terem passado a ser desnecessários para a valorização do capital. A maior parte dos países do antigo “socialismo real” haviam sido quase completamente desindustrializados e devastados, após dez anos de suposta adaptação e de efetiva desregulamentação neoliberal. A fome e as guerras de bandos organizados assolavam grandes regiões do Leste, não diferentemente do que se passava no Sul globalizado. E até os “tigres” do Sudeste asiático tinham já dado um trambolhão do trono das ilusões do mercado mundial.
Mas também na União Européia, nos Estados Unidos e no Japão, há muito que se ia tornando visível o processo de crise generalizada da sociedade baseada no trabalho e na produção de mercadorias. Desde os anos oitenta que vinham aumentando consideravelmente os fenômenos de exclusão social, e o desemprego maciço só em aparência ia sendo contido à custa de “programas de ocupação”, financiados pelo crédito, de manipulações estatísticas em larga escala ou da imposição de salários de miséria e de transferências coercivas para o chamado “setor informal”. Paralelamente, no plano da consciência e da elaboração ideológica, ia-se instalando um fanatismo cada vez mais agressivo em torno da idéia de trabalho, que fazia dos desempregados e outros indivíduos socialmente excluídos os culpados pelo destino que lhes coubera.
Entretanto, a imagem fantasmática de um capitalismo livre de crises está hoje empiricamente desmentida, mesmo aos olhos dos grandes artífices do recalcamento. Bastou a implosão de uma parte relativamente pequena da bolha especulativa (o grande “crash” nas bolsas mundiais está próximo, mas ainda não ocorreu) para conduzir a economia mundial a uma recessão cujas conseqüências sociais são cada vez mais claramente sentidas, mesmo nos centros capitalistas. Ao mesmo tempo em que uma parte dos que se contavam entre os ganhadores da “new economy” deixou de dispor dos bons salários que recebia para se encontrar agora no desemprego, os sistemas de proteção social vão sendo progressivamente desmantelados e o mercado de trabalho é cada vez mais vigorosamente desregulamentado. Como é natural, os efeitos concretos variam de país para país, consoante a respectiva posição na hierarquia do mercado mundial, mas também de acordo com o percurso de cada um em termos de história das mentalidades. Assim, não haverá dúvida de que tanto a identificação escravagista com o trabalho como a agressão contra todos aqueles que não querem ou não podem trabalhar são fenômenos mais pronunciadamente presentes na Alemanha do que em países como Portugal, a Itália ou o Brasil. Mas, por outro lado, a reação à crise do trabalho é, nas suas linhas gerais, a mesma em todo o mundo. Com o colapso do trabalho entra também em colapso o fundamento da sociedade capitalista, dando origem a um fundamentalismo do trabalho, de cunho marcadamente religioso, que pretende salvar o que já não pode ser salvo, nem que seja pela força.
Contra toda esta situação não se constituiu ainda, até hoje, um protesto de massas eficaz. É verdade que com o movimento de crítica à globalização se articula, pela primeira vez desde há muito tempo, uma renovada resistência social que desperta algumas esperanças, sobretudo devido ao seu caráter transnacional. Mas de fato essa resistência continua no essencial prisioneira das categorias da sociedade do trabalho e da mercadoria, como provam algumas das suas reivindicações, por exemplo, o regresso à regulação estatal das relações de mercado ou o controle sobre os mercados financeiros. Estas reivindicações, e outras da mesma natureza, não só não produzem efeitos práticos, porque já não têm qualquer fundamento econômico, como sobretudo se revelam, nos seus princípios, ideologicamente compatíveis com uma administração autoritária da crise, eventualmente com recurso a medidas de trabalho forçado – mesmo que não seja essa a vontade da maior parte dos ativistas do movimento.
Não há maneira de contornar a questão: hoje, no momento em que o sistema assente na produção de mercadorias atinge o seu limite histórico e entra na fase de autodestruição, não pode haver emancipação social sem uma crítica radical do trabalho. Por isso mesmo, mais gratificante se torna o forte eco que este Manifesto tem encontrado nos últimos anos. Não apenas na Alemanha, mas também em outros países, tem sido ativamente discutido em círculos oposicionistas. Entretanto foi traduzido em sete línguas e foi publicado no Brasil, na França, na Espanha, na Itália e no México. Esperamos que também em Portugal ele possa contribuir para uma necessária renovação radical da crítica da sociedade.
Norbert Trenkle, janeiro de 2003.


I
A DITADURA DO TRABALHO MORTO
Cada um tem que poder viver do seu trabalho, reza o princípio em vigor. Poder viver é, portanto, algo que está condicionado pelo trabalho, e não há direito à vida onde esta condição não estiver preenchida. (Johann Gottlieb Fichte, Fundamentos do Direito Natural segundo os Princípios da Doutrina da Ciência, 1797.)
Um cadáver domina a sociedade - o cadáver do trabalho. Todas as potências do globo estão coligadas em defesa desta dominação: o Papa e o Banco Mundial, Tony Blair e Jörg Haider, sindicatos e empresários, ecologistas alemães e socialistas franceses. Todos eles só têm uma palavra na boca: trabalho, trabalho, trabalho.
Quem ainda não desaprendeu de pensar reconhece sem dificuldade a inconsistência desta posição. Porque a sociedade dominada pelo trabalho não vive uma crise transitória, antes está chegada ao seu limite último. Na seqüência da revolução microeletrônica, a produção de riqueza desligou-se cada vez mais da utilização da força de trabalho humano - numa escala até há poucas décadas apenas imaginável na ficção científica. Ninguém pode afirmar com seriedade que este processo voltará a parar, e muito menos que possa ser invertido. A venda dessa mercadoria que é a força de trabalho será no século XXI tão promissora como foi no século XX a venda de diligências. Porém, nesta sociedade, quem não consegue vender a sua força de trabalho torna-se "supérfluo" e é atirado para a lixeira social.
Quem não trabalha, não come! Este princípio cínico continua em vigor, hoje mais do que nunca, precisamente porque está a tornar-se irremediavelmente obsoleto. Trata-se de um absurdo: a sociedade, nunca como agora, que o trabalho se tornou supérfluo, se apresentou tanto como uma sociedade organizada em torno do trabalho. Precisamente no momento em que está a morrer, o trabalho revela-se uma potência totalitária que não tolera nenhum outro deus junto de si. Dentro da vida psíquica, dentro dos poros do dia-a-dia, o trabalho determina o pensamento e os comportamentos. E ninguém poupa despesas para prolongar artificialmente a vida desse ídolo, o trabalho. O grito paranóico dos que clamam por "emprego" justifica até que se aumente a destruição dos recursos naturais, com resultados há muito conhecidos. Os últimos obstáculos à total comercialização de todas as relações sociais podem ser postos de lado, sem qualquer crítica, na mira de meia dúzia de miseráveis "postos de trabalho". E a idéia de que é melhor ter um trabalho "qualquer" do que não ter nenhum trabalho tornou-se uma profissão de fé universalmente exigida.
Quanto mais se torna claro que a sociedade do trabalho chegou definitivamente ao fim, mais violentamente se recalca este fato na consciência pública. Por diferentes que possam ser, porventura, os métodos de tal recalcamento, têm um denominador comum: o fato, mundialmente constatável, de o trabalho se revelar irracional enquanto fim em si mesmo, de ser algo que se tornou a si próprio obsoleto, é transformado, com a obstinação típica de um sistema delirante, em fracasso pessoal ou coletivo dos indivíduos, das empresas ou de certas "localizações" geográficas. As limitações, que objetivamente são do próprio trabalho, devem passar por problema subjetivo dos excluídos.
Enquanto para uns o desemprego se deve a reivindicações exageradas, à falta de disponibilidade ou de flexibilidade, outros acusam os "seus" gestores e políticos de incompetência, de corrupção, de ganância ou de traição a determinadas regiões. Mas, ao fim e ao cabo, toda essa gente está de acordo com o ex-presidente da Alemanha, Roman Herzog: seria preciso um "abanão" em todo o país, exatamente como se o problema fosse idêntico à falta de motivação de uma equipe de futebol ou de uma seita política. Todos devem, "de uma forma ou de outra", agarrar-se ao remo com força, mesmo que o remo tenha desaparecido há muito, e todos devem, "de uma forma ou de outra", pôr mãos à obra, mesmo que já não haja nada para fazer (ou só coisas sem sentido). O subtexto desta mensagem triste é inequívoco: aquele que, apesar da sua aplicação, não obtiver as boas graças do ídolo trabalho é responsável por essa situação, e não tem que haver problemas de consciência em abatê-lo ao ativo ou pô-lo na rua.
E esta mesma lei, que dita o sacrifício do homem, vigora em escala mundial. Uns após outros, países inteiros vão sendo triturados pela engrenagem do totalitarismo econômico, comprovando sempre o mesmo: pecaram contra as chamadas leis do mercado. Quem não se "adaptar" incondicionalmente e sem reservas ao curso cego da concorrência total será punido pela lógica da rentabilidade. Os que hoje são promissores serão a sucata econômica de amanhã. Mas os psicóticos econômicos dominantes nem por isso se deixam abalar minimamente na sua bizarra explicação do mundo. Três quartos da população mundial foram já declarados, em maior ou menor medida, lixo social. As "localizações" privilegiadas desaparecem em catadupa. Depois do desastre dos "países em vias de desenvolvimento", do Sul, e depois dessa secção da sociedade mundial do trabalho que era o capitalismo de Estado, no Leste, são os alunos exemplares da economia de mercado do Sudeste asiático que desaparecem no inferno das falências. E também na Europa alastra há muito o pânico social. Mas, na política e na gestão, os respectivos cavaleiros-da-triste-figura limitam-se a prosseguir, cada vez com mais raiva, a sua cruzada em nome do ídolo trabalho.

II
A SOCIEDADE DA APARTHEID NEOLIBERAL
O impostor tinha destruído o trabalho, e ainda levara consigo o salário de um trabalhador; agora há de trabalhar sem salário, mas, mesmo na masmorra, há de pressentir a bênção do sucesso e do ganho […]. Pelo trabalho forçado, deverá ser educado para o trabalho moral, enquanto atividade pessoal e livre. (Wilhelm Heinrich Riehl, O Trabalho Alemão, 1861.)
Uma sociedade centrada na abstração irracional do trabalho desenvolve necessariamente a tendência para a apartheid social, se a venda eficaz dessa mercadoria que é a força de trabalho deixa de ser a regra para passar a ser a exceção. Há muito que esta lógica é secretamente aceita e até apoiada ativamente pela totalidade das facções integrantes do imenso campo do trabalho, que abrange todas as tendências políticas. Já não discutem a questão de saber se cada vez maiores camadas da população são empurradas para a marginalização e excluídas de qualquer participação social, mas apenas como impor esta seleção.
A facção neoliberal entrega o trabalho sujo, social-darwinista, à "mão invisível" do mercado. Neste sentido, as estruturas do Estado social são desmanteladas de modo a marginalizar o mais discretamente possível todos aqueles que já não conseguem participar na concorrência. Só é reconhecido como ser humano quem pertencer à confraria cínica dos vencedores da globalização. Todos os recursos do planeta são naturalmente usurpados pela máquina autotélica do capitalismo. Quando já não são aplicáveis de forma rentável para esse fim, são deixados de pousio, mesmo que ao lado populações inteiras morram de fome.
Para tratar do "lixo humano" indesejável há a polícia, as seitas religiosas redentoras, a Máfia e a sopa dos pobres. Nos Estados Unidos e na maior parte dos Estados do centro da Europa há mais gente na prisão do que em qualquer ditadura militar mediana. Na América Latina são diariamente assassinados pelos esquadrões da morte da economia de mercado mais meninos de rua e outros pobres do que oposicionistas nos tempos da mais negra repressão política. Aos excluídos já só resta uma função social: a de servirem de exemplo dissuasor. A sua desgraça deverá servir para espicaçar todos aqueles que ainda se encontram na corrida para a terra prometida da sociedade do trabalho a lutar por um lugar, ainda que entre os últimos, e para manter a própria multidão dos perdedores num movimento febril, de modo a que não lhes ocorra a idéia de se revoltarem contra as exigências desavergonhadas do sistema.
Mas, mesmo obrigando a maior parte dos indivíduos a pagar o preço da auto-renúncia, o admirável mundo novo da economia de mercado totalitária reserva-lhes um lugar de homens-sombra numa economia-sombra. Só lhes resta servir humildemente os mais bem pagos ganhadores da globalização, desempenhando o papel de mão-de-obra barata e de escravos democráticos da "sociedade de prestação de serviços". Os novos "trabalhadores pobres" estão autorizados a limpar os sapatos aos últimos homens de negócios da moribunda sociedade de trabalho, a vender-lhes hambúrgueres contaminados ou a vigiar os seus centros comerciais. Os que tiverem deixado o cérebro no vestiário podem ainda sonhar com a possibilidade de se tornarem milionários na prestação de serviços.
Este mundo de terror já é uma realidade para milhões de seres humanos nos países anglo-saxônicos, para já não falar no Terceiro Mundo e na Europa de Leste; quanto à Eurolândia, mostra-se decidida a recuperar rapidamente o tempo perdido. A imprensa econômica há muito que deixou de fazer segredo da perspectiva que idealiza para o futuro do trabalho: as crianças do terceiro mundo, que limpam os pára-brisas dos automóveis nos cruzamentos poluídos, são o luminoso exemplo de "iniciativa empresarial" que deve orientar, tão solicitamente quanto possível, os desempregados da nossa sociedade, supostamente "carecente de prestação de serviços". "O modelo do futuro é o indivíduo na qualidade de empresário da sua força de trabalho e da sua proteção social", escreve a "Comissão para as Questões do Futuro, dos Estados Livres da Baviera e da Saxônia". E prossegue: "A procura de serviços indiferenciados, diretamente prestados a um particular, é tanto maior quanto menos custarem os serviços, ou seja, quanto menos ganharem os prestadores de serviços." Num mundo em que as pessoas ainda tivessem respeito por si próprias, uma tal afirmação provocaria necessariamente uma onda de revolta social. Mas, num mundo de animais de trabalho domesticados, suscita apenas um inócuo encolher de ombros.

III
A NEOAPARTHEID DO ESTADO SOCIAL
Qualquer trabalho é melhor do que nenhum. (Bill Clinton, 1998.)
Nenhum trabalho é tão duro como não ter trabalho. (Tema de uma exposição de cartazes do Organismo Federal de Coordenação das Iniciativas dos Desempregados da Alemanha, 1998.)
O trabalho cívico deve ser recompensado, mas não simplesmente remunerado […]. Quem presta trabalho cívico liberta-se também do estigma do desemprego e da assistência social. (Ulrich Beck, A Alma da Democracia, 1997.)
As facções antineoliberais do campo de trabalho, que é a sociedade no seu conjunto, podem porventura não gostar muito desta perspectiva, mas são precisamente aquelas que mais fervorosamente defendem a idéia de que um homem sem trabalho não é um homem. Nostalgicamente agarradas à concepção fordista do pós-guerra, assente no trabalho de massas, pensam apenas em ressuscitar esses tempos idos da sociedade do trabalho. O Estado deveria voltar a encarregar-se daquilo que, em dado momento, o mercado não é capaz de fazer. A suposta normalidade da sociedade do trabalho deveria ser estimulada através de "programas de emprego", da obrigatoriedade de trabalho comunitário para os beneficiários do rendimento social, de subsídios à relocalização de empresas, de endividamento público e de outras medidas políticas. Esta estatização do trabalho, uma espécie de requentamento pouco convicto, não tem a mínima hipótese de êxito; no entanto continua a ser o ponto de referência ideológico para largas camadas da população ameaçadas pela derrocada social. E a prática política daí decorrente, precisamente na ausência de esperança que a caracteriza, mostra ser tudo menos emancipatória.
A transformação ideológica do "trabalho escasso" em primeiro direito do cidadão de um Estado leva conseqüentemente a excluir todos os que não sejam cidadãos desse Estado. A lógica de seleção social não é, pois, posta em causa, mas apenas definida de outra forma: a luta individual pela sobrevivência deve ser mitigada por critérios de natureza étnica e nacional. "A escravatura nacional para os nacionais", é o grito que sai da alma do povo que, no amor perverso pelo trabalho, se reencontra como comunidade nacional. O populismo de direita não faz segredo desta conclusão. A sua crítica à sociedade da concorrência apenas visa à limpeza étnica das zonas de retração da riqueza capitalista.
Pelo contrário, o nacionalismo mais moderado, de inspiração social-democrata ou verde, pretende equiparar os imigrantes mais antigos à população autóctone, e inclusivamente fazer deles cidadãos nacionais, mediante atestado de bom comportamento servil e de caráter garantidamente inofensivo. Porém, deste modo, a crescente exclusão dos refugiados do Leste e do Sul pode ser mais facilmente legitimada em termos populistas e posta em prática de maneira mais discreta - naturalmente sempre escudada numa torrente de palavras de humanidade e civilização. A caça ao homem movida aos "ilegais", acusados de pretenderem apoderar-se dos empregos nacionais, não deve deixar um rasto sujo de fogo e sangue em solo pátrio. Para o efeito existem o serviço de fronteiras, a polícia e os países-tampão do reino de Schengen, que tudo resolvem segundo a lei e o direito, de preferência longe das câmaras de televisão.
A simulação estatal do trabalho já é, em si, violenta e repressiva. Ela serve à vontade incondicional de prolongar por todos os meios disponíveis a dominação exercida pelo ídolo do trabalho, mesmo para além da sua morte. Este fanatismo burocrático do trabalho não permite que os excluídos, os sem emprego e sem oportunidades, ou aqueles que encontram boas razões para se recusarem a trabalhar, possam ficar em paz nos últimos nichos, já de si drasticamente reduzidos, do Estado social em desmantelamento. São arrastados por assistentes sociais e por funcionários dos serviços de emprego para a sala de interrogatórios do Estado e obrigados a ajoelhar-se publicamente diante do trono do cadáver dominante.
Se em tribunal vigora normalmente o princípio de que na dúvida a decisão deve favorecer o réu, aqui se inverte o ônus da prova. Os excluídos, se no futuro não quiserem viver do ar ou da caridade cristã, devem aceitar qualquer trabalho, por mais sujo ou escravizante, ou um qualquer "programa de ocupação", por mais absurdo, demonstrando assim a sua disponibilidade incondicional para o trabalho. Se aquilo que lhes cabe fazer não tem senão um longínquo sentido, ou releva do mais puro absurdo, é perfeitamente indiferente. Só é preciso que continuem em movimento perpétuo, para que nunca esqueçam a lei a que a sua existência tem de obedecer.
Noutro tempo, trabalhava-se para ganhar dinheiro. Hoje, o Estado não poupa despesas para que centenas de milhares de pessoas simulem um trabalho inexistente em estranhos atelieres de formação ou em "empresas ocupacionais", preparando-se para um "posto de trabalho" regular que nunca conseguirão. Inventam-se constantemente novas medidas, cada vez mais estúpidas, apenas para garantir a aparência de que a vazia rotina social pode permanecer em movimento até à eternidade. Quanto mais destituída de sentido é a obrigatoriedade do trabalho, mais brutalmente haverá que martelar no cérebro das pessoas o princípio de que não pode ganhar-se o pão de outra maneira.
Nesta perspectiva, o "New Labour" e os seus imitadores em todo o mundo mostram-se perfeitamente compatíveis com o modelo neoliberal da seleção social. Com a simulação de "emprego" e com a ficção enganosa de um futuro positivo para a sociedade de trabalho, cria-se a legitimidade moral para tratar de forma ainda mais dura os desempregados e os que se recusam a trabalhar. Ao mesmo tempo, o trabalho obrigatório imposto pelo Estado, os subsídios ao salário e o chamado "trabalho cívico" reduzem cada vez mais os custos com a mão-de-obra. Fomenta-se assim em grande escala todo o próspero setor que vive dos baixos salários e do trabalho de miséria.
A chamada política ativa de trabalho, segundo o modelo do "New Labour", não poupa sequer os doentes crônicos ou as mães solteiras com filhos pequenos. Quem recebe apoio estatal só consegue libertar-se do estrangulamento da burocracia quando o seu nome estiver no jardim das tabuletas. O único sentido de toda esta impertinência consiste em levar o maior número possível de pessoas a não apresentar qualquer pretensão ao Estado e em exibir perante os excluídos instrumentos de tortura suficientemente monstruosos para que qualquer trabalho de miséria lhes pareça comparativamente mais aceitável.
Oficialmente, o Estado paternalista apenas brande o chicote por amor e com a intenção de educar severamente aqueles seus filhos que são considerados "preguiçosos", para que tenham um futuro melhor. Mas, na realidade, estas medidas "pedagógicas" têm como único e exclusivo fim afastar os clientes da porta a pontapé. Que outro sentido poderia ter uma medida como a de mandar desempregados para a colheita dos espargos? Nos campos, esses desempregados servem para afastar os trabalhadores sazonais polacos, que aliás aceitam salários de miséria apenas porque, de regresso ao seu país, o câmbio faz com que tais salários se transformem numa quantia aceitável. Mas a medida posta em prática não ajuda os trabalhadores forçados, nem lhes abre qualquer "perspectiva profissional". E, para os produtores de espargos, os licenciados e operários especializados, contrafeitos, que lhes cabem em sorte também não são mais do que um estorvo. Contudo, no momento em que, à noite, após doze horas de costas curvadas sobre o solo pátrio, o desespero fizer com que a disparatada idéia de abrir uma venda ambulante de cachorros pareça mais agradável, então o "auxílio à flexibilização" terá produzido o seu desejado efeito neobritânico.

IV
O EXACERBAMENTO DA RELIGIÃO DO TRABALHO E O DESMENTIDO DO RESPECTIVO DOGMA
O trabalho, por mais baixo que seja, por mais que tenha em vista apenas o dinheiro, está sempre em relação com a natureza. O simples desejo de executar um trabalho conduz sempre mais e mais à verdade, às leis e preceitos da natureza, que são a verdade. (Thomas Carlyle, Trabalhar e não Desesperar, 1843.)
O novo fanatismo do trabalho, com o qual esta sociedade reage à morte do seu ídolo, é a conseqüência lógica e o estádio final de uma longa história. Desde a época da Reforma, todas as forças dirigentes da modernização ocidental pregaram a santidade do trabalho. Sobretudo nos últimos cento e cinqüenta anos, todas as teorias sociais e correntes políticas foram dominadas pela idéia do trabalho. Socialistas e conservadores, democratas e fascistas, combateram entre si de toda a maneira e feitio, mas apesar do ódio mortal que votaram uns aos outros, sempre sacrificaram em comum ao ídolo do trabalho. "L'Oisif ira loger ailleurs" ("O ocioso irá viver para outro lado"), dizia o texto do hino da Internacional dos trabalhadores - o eco macabro dessas palavras foi a divisa "Arbeit macht frei" ("O trabalho liberta"), exibida por cima do portão de Auschwitz. As democracias pluralistas do pós-guerra fizeram todas as suas juras em nome da ditadura perpétua do trabalho. E até a Constituição da muito católica Baviera aconselha os seus cidadãos na mais pura tradição luterana: "O trabalho é a fonte do bem-estar do Povo e goza de especial proteção por parte do Estado." No final do século XX todas as contradições ideológicas se esbateram. Apenas ficou o dogma comum e impiedoso segundo o qual o trabalho é o destino natural do Homem.
Hoje, é a própria realidade da sociedade do trabalho que desmente este dogma. Os sacerdotes da religião do trabalho sempre pregaram que o homem, segundo a sua suposta natureza, seria um "animal laborans". Só se tornaria ser humano na medida em que, como fez Prometeu, submetesse a matéria natural à sua vontade, realizando-se a si mesmo nos seus produtos. Este mito do conquistador do mundo, do demiurgo que escuta uma vocação, sempre foi, aliás, um autêntico escárnio em relação ao caráter do processo moderno de trabalho, embora pudesse ter ainda algum substrato real na época dos capitalistas-inventores, do tipo Siemens ou Edison, e dos operários qualificados que havia entre o seu pessoal. Hoje, essa pose tornou-se completamente absurda.
Quem hoje em dia perguntar a si próprio qual o conteúdo, o sentido que continuar a funcionar a qualquer preço, e ponto final. Quanto à descoberta do sentido, para isso existem os departamentos de publicidade, exércitos inteiros de animadores e de psicólogas de empresa, os consultores de imagem e as "dealers" da droga. Quando se papagueia interminavelmente o lema da motivação e da criatividade, é certo e sabido que de uma e da outra já nada sobra, a não ser enquanto auto-engano. É por isso que hoje as capacidades de auto-sugestão, de autopromoção e de simulação de competências se contam entre as virtudes mais importantes dos gestores e das trabalhadoras especializadas, das estrelas da mídia e dos contabilistas, das professoras e dos arrumadores de automóveis.
Também a afirmação de que o trabalho seria uma necessidade eterna, imposta ao homem pela natureza, foi completamente posta a ridículo pela crise da sociedade do trabalho. Há séculos que vem sendo pregado o princípio da inevitável adoração do ídolo trabalho, quanto mais não fosse porque as necessidades não poderiam ser satisfeitas por si mesmas, sem o suor do labor humano. E a finalidade de toda a organização do trabalho seria, obviamente, a satisfação dessas necessidades. Se isto fosse verdade, a crítica do trabalho seria tão pertinente como a crítica da força da gravidade. Mas, nesse caso, como poderia uma "lei natural", que o fosse realmente, entrar em crise ou inclusivamente desaparecer? Os porta-vozes do campo de trabalho social, desde a senhora neoliberal que come caviar e é maníaca pela eficiência, até ao sindicalista tipo barriga-de-cerveja, quando invocam o caráter pseudo natural do trabalho, entram em crise de carência argumentativa. Ou, como quererão eles explicar-nos que hoje em dia três quartos da humanidade se estejam a afundar na necessidade e na miséria, só porque o sistema da sociedade do trabalho já não pode utilizar os seus préstimos?
Já não é a maldição do Antigo Testamento - "comerás o teu pão com o suor do teu rosto" - que pesa sobre os excluídos, mas uma nova e implacável condenação: "tu não comerás, porque o teu suor é supérfluo e invendável". E será isto uma lei natural? Não é senão um princípio social irracional, que surge como coerção natural apenas porque, ao longo dos séculos, destruiu ou submeteu a si todas as outras formas de relação social, impondo-se de modo absoluto. É a "lei natural" de uma sociedade que se considera profundamente "racional", mas que, na verdade, apenas segue a racionalidade finalista do seu ídolo, o trabalho, dispondo-se mesmo a sacrificar-lhe, a ele e à respectiva "objetividade coerciva", os últimos resquícios da sua humanidade.

V
O TRABALHO É UM PRINCÍPIO DE COERÇÃO SOCIAL
O trabalhador, portanto, só se sente em si fora do trabalho; no trabalho sente-se fora de si. Só está à sua vontade quando não trabalha, quando trabalha não está no seu domínio. Assim, o seu trabalho não é voluntário, mas imposto; é trabalho forçado. Não constitui a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer outras necessidades. A estranheza do trabalho ressalta claramente do fato de se fugir dele como da peste, logo que não exista nenhuma coerção material ou de outro tipo. (Karl Marx, Manuscritos Econômico-Filosóficos, 1844.)
Não há, em rigor, qualquer identidade entre o trabalho e o fato de os homens transformarem a natureza e se relacionarem uns com os outros em determinadas atividades. Enquanto existirem seres humanos, eles hão de construir casas, fabricar roupas, produzir alimentos e muitas outras coisas, hão de educar os filhos, escrever livros, discutir assuntos, construir jardins, compor música e tanto mais. Esta é uma verdade banal e evidente. O que não é evidente é que a atividade humana em si, o puro "dispêndio de força de trabalho", sem que se leve em consideração o respectivo conteúdo e independentemente das necessidades e da vontade dos envolvidos, se torne num princípio abstrato que domina as relações sociais.
Nas antigas sociedades agrárias havia todas as formas possíveis de dominação e de dependência pessoal, mas não existia uma ditadura do trabalho, enquanto abstração. É certo que as atividades levadas a cabo na transformação da natureza e nas relações sociais não eram de modo algum autodeterminadas, mas tampouco estavam na dependência de uma idéia abstrata de "dispêndio de força de trabalho"; pelo contrário, tais atividades encontravam-se enquadradas em complexos dispositivos de normas, configuradas por preceitos religiosos, tradições sociais e culturais, e estabelecendo obrigações recíprocas. Cada atividade tinha o seu tempo e o seu lugar próprios; não existia uma forma geral e abstrata de atividade.
Só o moderno sistema de produção de mercadorias, com a sua finalidade autotélica de transformação permanente de energia humana em dinheiro, veio criar esse domínio particular, "apartado" de todas as outras relações sociais e abstraído de qualquer conteúdo, que leva o nome de esfera do trabalho - a esfera da atividade não autônoma, incondicional, não relacional, robotizante, separada do restante contexto social e obedecendo a uma abstrata racionalidade finalista de "economia empresarial", independente das necessidades. Nesta esfera, separada da vida, o tempo deixa de ser tempo vivido e vivenciado, torna-se simples matéria-prima que tem de ser otimizada: "tempo é dinheiro". Cada segundo é contabilizado, cada ida ao banheiro é um escândalo, cada conversa é um crime contra a finalidade autonomizada da produção. No local de trabalho, apenas pode ser gasta energia abstrata. A vida fica lá fora - ou porventura em parte nenhuma, porque a cadência do trabalho rege interiormente todas as coisas. Até as crianças são domesticadas pelo relógio, para que um dia possam ser "eficientes". As férias só servem para a recuperação da "força de trabalho". E mesmo às refeições, nas festas e no amor, o ponteiro dos segundos faz tique-taque na nossa cabeça.
Na esfera do trabalho não conta aquilo que se faz, mas sim que o fazer, enquanto tal, seja feito, pois o trabalho é um fim em si mesmo justamente na medida em que traz consigo a valorização do capital-dinheiro - a infinita multiplicação do dinheiro por intermédio do dinheiro. O trabalho é a forma de atividade própria desta absurda finalidade autotélica. É por isso, e não por quaisquer razões objetivas, que os produtos são todos eles produzidos como mercadorias. Só sob a forma de mercadoria representam a abstração dinheiro, cujo conteúdo é a abstração trabalho. Nisto consiste o mecanismo da engrenagem social autonomizada em que se mantém aprisionada a humanidade moderna.
E é precisamente por isso também que o conteúdo da produção é indiferente, como é indiferente a utilização dada às coisas produzidas e as conseqüências sociais e naturais da produção. Saber se se constroem casas ou se se produz armamento, se se imprimem livros ou se se cultiva tomate transgênico, se em conseqüência as pessoas adoecem, se a atmosfera é poluída ou se "apenas" é espezinhado o bom gosto - nada disto interessa, desde que, de um modo ou de outro, a mercadoria possa ser transformada em dinheiro e o dinheiro, de novo em trabalho. Que a mercadoria exija um uso concreto, e que este eventualmente seja destrutivo, é coisa que não tem o mínimo interesse para a racionalidade da economia empresarial, pois para esta o produto não é mais do que o portador de um trabalho pretérito, de "trabalho morto".
A acumulação de "trabalho morto" enquanto capital, representada sob a forma de dinheiro, é o único "sentido" que o sistema de produção de mercadorias conhece. "Trabalho morto"? Uma loucura metafísica! Sim, mas uma metafísica que se tornou realidade palpável, uma loucura "objetivada" que domina esta sociedade com mão de ferro. No eterno comprar e vender, os homens não se relacionam como seres sociais conscientes, limitam-se a executar como autômatos sociais a finalidade autotélica que lhes é prescrita.

VI
TRABALHO E CAPITAL SÃO AS DUAS FACES DA MESMA MOEDA
O trabalho tem cada vez mais a boa consciência do seu lado: o gosto pela alegria chama-se já ‘necessidade de descanso’, e começa a corar de vergonha de si próprio. ‘Temos de fazer isto por causa da saúde’, dizemos às pessoas que nos surpreendem num passeio pelo campo. Por este caminho, poderá chegar-se rapidamente ao ponto de não mais se ceder ao gosto pela vida contemplativa (ou seja, ao gosto de passear em companhia de pensamentos ou de amigos) sem desprezo por si próprio e sem má consciência. (Friedrich Nietzsche, "Ócio e ociosidade", A Gaia Ciência, 1882.)
A esquerda política sempre adorou o trabalho com particular fervor. Não só elevou o trabalho ao estatuto de essência do Homem, como produziu a mistificação de transformá-lo num princípio pretensamente oposto ao capital. Na sua perspectiva, o escândalo não é o trabalho, mas sim a exploração do trabalho pelo capital. Por isso, o programa de todos os "partidos dos trabalhadores" sempre foi somente "libertar o trabalho", mas não libertar do trabalho. Ora, o antagonismo social entre capital e trabalho é uma mera contradição de interesses distintos no interior da finalidade autotélica do capitalismo (embora o poder de cada uma das partes seja muito diferente). A luta de classes era a forma de expressão desses interesses antagônicos no terreno social comum do sistema de produção de mercadorias. Fazia parte da dinâmica interna da valorização do capital. Quer a luta fosse por salários, por direitos, por condições de trabalho, ou por postos de trabalho, o seu pressuposto cego continuava sempre a ser a engrenagem dominante com os seus princípios irracionais.
O conteúdo qualitativo da produção conta tão pouco do ponto de vista do trabalho como do ponto de vista do capital. Apenas interessa a possibilidade de vender de forma otimizada a força de trabalho. Não se trata de determinar coletivamente o sentido e a finalidade da atividade própria. Se algum dia existiu a esperança de poder realizar-se uma tal autodeterminação do processo produtivo dentro das formas do sistema de produção de mercadorias, a verdade é que as "forças do trabalho" há muito puseram de lado essa ilusão. Hoje interessa apenas o "posto de trabalho", o "emprego" - e a própria literalidade destes conceitos demonstra o caráter autotélico de todo o empreendimento e a privação de responsabilidade que caracteriza os envolvidos.
Em última análise, o que se produz, para que fins e com que conseqüências, é assunto absolutamente indiferente tanto para o vendedor da mercadoria, que é a força de trabalho, como para o respectivo comprador. Os trabalhadores das centrais nucleares e das fábricas de produtos químicos protestam veementemente quando se pretende desativar as suas bombas-relógio. E os "empregados" da Volkswagen, da Ford ou da Toyota, são os mais fanáticos defensores do programa suicida da indústria automobilística. Não apenas porque têm obrigatoriamente de se vender para "poderem" viver, mas porque na realidade se identificam com esta existência tacanha. Para os sociólogos, os sindicalistas, os padres e outros teólogos profissionais da "questão social", esta é a prova do valor ético-moral do trabalho. O trabalho forma a personalidade, dizem eles. Com razão. Forma de fato a personalidade dos zumbis da produção de mercadorias, que já não conseguem conceber uma vida fora da sua amada engrenagem, à qual se vão ajustando dia após dia.
Porém, da mesma forma que a classe operária - enquanto classe trabalhadora - nunca foi um antagonista em contradição com o capital e nunca foi o agente do processo de emancipação do homem, também os capitalistas e gestores não governam a sociedade em obediência a uma maldade decorrente da vontade subjetiva de exploração. Em toda a história, nunca houve uma casta dominante que levasse uma vida tão pouco livre, tão deplorável, como os acossados executivos da Microsoft, da Daimler-Chrysler ou da Sony. Qualquer senhor feudal sentiria o mais profundo desprezo por tal gente. Porque, podendo ele entregar-se ao ócio e dilapidar a sua riqueza em quantas orgias lhe apetecesse, as elites da sociedade do trabalho não têm o direito de desfrutar de nenhuma pausa. Mesmo quando estão fora da engrenagem, não sabem fazer outra coisa que não seja infantilizarem-se. O ócio, os prazeres do conhecimento ou dos sentidos, são-lhes tão estranhos como ao material humano de que são feitos. São eles próprios meros servos do ídolo trabalho, simples elites funcionais da finalidade autotélica irracional da sociedade.
O ídolo dominante sabe impor a sua vontade sem sujeito pela "coerção tácita" da concorrência, à qual também os poderosos têm de curvar-se, exatamente quando gerem centenas de fábricas e transferem milhões, de lugar em lugar, à volta do globo. Se assim não fizerem, serão postos de lado com a mesma frieza com que o é a "força de trabalho" supérflua. Ora, é precisamente esta sua inimputabilidade que torna os funcionários do capital tão desmesuradamente perigosos, e não a sua vontade subjetiva de exploração. Não estão autorizados - menos ainda do que a qualquer outro indivíduo - a interrogarem-se sobre o sentido e sobre as conseqüências da sua infatigável atividade, e não podem dar-se ao luxo de ter sentimentos ou atenções. É por isso que se consideram realistas quando devastam o mundo, desfiguram as cidades e levam as populações à miséria no meio da maior riqueza.

VII
O TRABALHO É DOMINAÇÃO PATRIARCAL
A humanidade teve de se submeter a provações terríveis até que surgisse o eu, o caráter idêntico, orientado para fins e masculino, do ser humano; e é ainda alguma coisa desse processo que se repete na infância de cada um. (Max Horkheimer e Theodor W. Adorno, Dialética do Esclarecimento, 1944.)
Mesmo que a lógica do trabalho e da sua metamorfose em matéria-dinheiro pressione nesse sentido, nem todos os domínios da sociedade, nem todas as atividades efetivamente necessárias se deixam comprimir nesta esfera do tempo abstrato. Por isso, em conjunto com a esfera "separada" do trabalho, e até certo ponto como seu reverso, surgiu também a esfera do lar, da família e da intimidade.
Nesse domínio, definido como "feminino", cabem as muitas e repetitivas atividades da vida do dia-a-dia, que quando muito só excepcionalmente podem ser transformadas em dinheiro: desde limpar a casa até cozinhar, passando pela educação dos filhos e pelo cuidado dos idosos, até ao "trabalho do amor" da típica dona de casa ideal, que retempera o seu marido trabalhador, quando chega esgotado a casa, e lhe "recarrega as energias" afetivas. A esfera da intimidade, enquanto reverso do trabalho, é portanto declarada pela ideologia burguesa da família como esfera da "vida própria" - embora, na realidade, seja a maior parte das vezes apenas um inferno na intimidade. De fato, não se trata da esfera de uma vida melhor e verdadeira, mas de uma forma igualmente limitada e reduzida da existência, que simplesmente se apresenta afetada pelo sinal contrário. Esta esfera é ela própria um produto do trabalho, dele separada, é certo, mas na realidade só existente na relação com ele. A sociedade do trabalho nunca teria podido funcionar sem esse espaço social segregado, que é o das formas de atividade "femininas". Ele é o pressuposto tácito de uma tal sociedade e, simultaneamente, o seu resultado específico.
O mesmo é válido também para os estereótipos sexuais, que foram sendo generalizados no decurso do desenvolvimento do sistema de produção de mercadorias. Não é um simples acaso o fato de a imagem da mulher como um ser submetido aos impulsos da natureza, à irracionalidade e às emoções, se ter tornado um preconceito generalizado precisamente em conjunto com a imagem do homem de trabalho, criador de cultura, racional e com domínio sobre si. E também não é um acaso que a autodomesticação do homem branco para as exigências do trabalho e da respectiva administração estatal dos indivíduos tenha coincidido com séculos de feroz "caça às bruxas". E também a apropriação do mundo pelas ciências naturais, cujo início ocorre em simultâneo com esses fatos, foi, na sua raiz, contaminada pela finalidade autotélica da sociedade do trabalho e pela sua atribuição de papéis sociais em função do sexo. Assim, o homem branco, para poder funcionar sem atritos, expulsou de si todos os sentimentos e necessidades emocionais, que, no reino do trabalho, só representam fatores de perturbação.
No século XX, e em especial nas democracias fordistas do pós-guerra, as mulheres foram sendo introduzidas de forma crescente no mundo do trabalho. Mas o resultado foi apenas o surgimento de uma consciência feminina esquizóide. Pois, por um lado, a introdução das mulheres na esfera do trabalho não podia trazer uma libertação, mas apenas a mesma submissão ao ídolo trabalho, idêntica à dos homens. E, por outro lado, mantendo-se intocada a estrutura da "dissociação", também a esfera das atividades definidas como "femininas" permaneceu fora do âmbito oficial do trabalho. As mulheres foram assim submetidas a uma dupla carga e expostas a imperativos sociais totalmente contraditórios. No domínio do trabalho ficaram até hoje esmagadoramente relegadas para posições mal pagas e subalternas.
E não serão decerto as reivindicações conformes ao sistema, a luta por quotas destinadas às mulheres ou por igualdade de oportunidades, a mudarem seja o que for. A deplorável visão burguesa de uma "conciliação do trabalho com a família" deixa intocada a separação das esferas do sistema de produção de mercadorias e, com ela, a estrutura de "dissociação" sexual. Para a maioria das mulheres, tal perspectiva é simplesmente invivível e, para uma minoria de mulheres "mais bem pagas", transforma-se num posicionamento pérfido, fazendo delas vencedoras no âmbito da apartheid social, exatamente na medida em que podem delegar a casa e o cuidado dos filhos em empregadas mal pagas (e "naturalmente" do sexo feminino).
Na sociedade global, a sacralizada esfera burguesa da chamada vida privada e da família é, na verdade, cada vez mais esvaziada e degradada, porque a usurpação por parte da sociedade do trabalho exige a pessoa toda, total sacrifício, total mobilidade e completa disponibilidade de tempo. O patriarcado não é abolido; apenas se torna mais selvagem na crise inconfessada da sociedade do trabalho. Na mesma medida em que o sistema de produção de mercadorias entra em colapso, as mulheres vão-se tornando responsáveis pela sobrevivência, em todos os planos, enquanto o mundo "masculino" prolonga, em simulação, as categorias da sociedade do trabalho.

VIII
O TRABALHO É A ATIVIDADE DE HOMENS PRIVADOS DE AUTODETERMINAÇÃO
A identidade entre trabalho e ausência de autodeterminação demonstra-se, não apenas factual, mas também conceitualmente. Não há muitos séculos, a conexão entre o trabalho e a coerção social estava inteiramente presente na consciência das pessoas. Na maior parte das línguas européias, o conceito "trabalho" refere-se originariamente apenas à atividade do homem sem autodeterminação, do indivíduo dependente, do servo ou escravo. No espaço lingüístico alemão, "Arbeit" significava o trabalho servil de uma criança órfã ou abandonada, e por isso caída na servidão. No latim, "laborare" significava algo como "cambalear sob uma carga pesada", e em sentido geral designava o sofrimento e o vexame do escravo. As palavras românicas "trabalho", "travail", "trabajo", etc., derivam do latim "tripalium", uma espécie de jugo utilizado para torturar e castigar escravos e outros indivíduos destituídos de liberdade. Na expressão idiomática alemã "Joch der Arbeit" ("jugo do trabalho") ecoa ainda esse sentido.
Ou seja, também na sua origem etimológica "trabalho" não é sinônimo de uma atividade humana autodeterminada, antes designa um destino social infeliz. É a atividade daqueles que perderam a liberdade. Assim, a extensão do trabalho a todos os membros da sociedade não é mais do que a generalização da dependência servil, e a moderna adoração do trabalho é a mera exaltação para-religiosa deste estado.
Esta relação só pôde ser recalcada com êxito e a respectiva exigência social interiorizada, porque a generalização do trabalho foi acompanhada pela "objetivação" do moderno sistema de produção de mercadorias: a maior parte dos indivíduos não está debaixo do chicote de um senhor, individualizado como pessoa. A dependência social tornou-se uma conexão abstrata interna do sistema - e por isso mesmo tornou-se total. Ela pode ser detectada em toda a parte, mas por isso mesmo é praticamente inapreensível. Quando todos se tornam escravos, todos se tornam simultaneamente senhores - traficantes de escravos e fiscais, mas traficando-se a si próprios e fiscalizando-se a si mesmos. Todos obedecem ao ídolo invisível do sistema, o "Grande Irmão" da valorização do capital, que os mandou para o "tripalium".

IX
A HISTÓRIA SANGRENTA DA VITÓRIA DO TRABALHO
O bárbaro é preguiçoso e diferencia-se do homem cultivado na medida em que se compraz no seu embrutecimento, pois a formação prática consiste justamente no hábito e necessidade da ocupação. (Georg W. F. Hegel, Princípios da Filosofia do Direito, 1821.)
No fundo, sente-se agora […] que um tal trabalho é a melhor polícia, que retém cada indivíduo pelo freio e que sabe impedir com firmeza o desenvolvimento da razão, do desejo e do prazer da independência. Pois faz despender enorme quantidade de energia nervosa, e subtrai essa energia à reflexão, à meditação, ao sonho, à inquietação, ao amor e ao ódio. (Friedrich Nietzsche, "Os Apologistas do Trabalho", Aurora, 1881.)
A história da modernidade é a história do processo de instauração do trabalho, que deixou em todo o planeta um amplo rasto de devastação e horror. Pois nem sempre esteve tão interiorizada como hoje a exigência de despender grande parte da energia vital em benefício de uma finalidade autotélica externamente definida. Foram necessários vários séculos de violência aberta e em grande escala para literalmente submeter os homens à tortura do serviço incondicional do ídolo trabalho.
A princípio, não era a ampliação das relações de mercado supostamente favorecedoras do "crescimento do bem-estar", mas sim a fome insaciável de dinheiro dos aparelhos estatais absolutistas que obrigava ao financiamento da máquina militar dos primórdios da modernidade. Só o interesse desses aparelhos estatais, que pela primeira vez na história submetiam a totalidade da sociedade ao estrangulamento burocrático, veio acelerar o desenvolvimento do capital mercantil e financeiro das cidades, muito para além das relações comerciais tradicionais. Só assim o dinheiro se converteu em motivação central da sociedade, e a abstração do trabalho em exigência social central, sem consideração das necessidades.
Não foi por vontade própria que a maioria dos homens passou a produzir para mercados anônimos e portanto para uma economia monetária generalizada, mas sim porque, com o absolutismo, a fome de dinheiro monetarizou os impostos e aumentou-os de maneira exorbitante. Os indivíduos tinham que "ganhar dinheiro", não para si, mas para o Estado militarizado do início da modernidade: para as novas armas de fogo, para a logística e a burocracia estatais. Foi assim, e não de outra forma, que veio ao mundo a absurda finalidade autotélica da valorização do capital, e, com ela, a do trabalho.
Em breve, os impostos e taxas deixaram de ser suficientes. Os burocratas absolutistas e os administradores do capital financeiro puseram-se a organizar de forma coerciva os indivíduos como material direto de uma máquina social de transformação de trabalho em dinheiro. O modo tradicional de vida e de existência da população foi destruído; não porque esta população se tivesse "desenvolvido" de forma livre e autodeterminada, mas porque tinha de ser utilizada como material humano numa máquina de valorização que estava posta em andamento. Os indivíduos foram expulsos das suas terras pela força das armas, para darem lugar à criação de ovelhas necessárias às manufaturas de lã. Os direitos tradicionais, como a liberdade de caça, pesca e recolha de lenha nas matas, foram extintos. E quando as massas pauperizadas deambulavam pelos campos, mendigando e roubando, lançaram-nas em casas de trabalho e nas manufaturas, para serem seviciadas com os instrumentos laborais de tortura e para lhes inculcar, à pancada, uma consciência de escravos, a fim de se tornarem dóceis animais de trabalho.
Mas esta transformação gradual dos seus súditos em material do ídolo fazedor de dinheiro também não podia só por si satisfazer durante muito tempo os monstruosos Estados absolutistas. Estenderam, pois, as suas pretensões a outros continentes. A colonização interna da Europa efetuou-se a par da colonização externa, primeiro nas Américas e em algumas regiões de África. Aí, os feitores do trabalho perderam definitivamente os escrúpulos. Em campanhas militares de roubo, destruição e extermínio sem precedentes atiraram-se aos mundos recentemente "descobertos" - onde as vítimas nem sequer eram consideradas seres humanos. O canibalismo das potências européias da sociedade de trabalho nascente definia as culturas estrangeiras subjugadas como "selvagens" e… canibais.
E estava assim legitimada a eliminação ou escravização de milhões de homens. A escravatura pura e simples em que se baseava a economia das grandes plantações e da extração de matérias-primas - que conseguiu ultrapassar as dimensões da escravatura antiga - conta-se entre os crimes fundadores do sistema de produção de mercadorias. Utilizou-se aí pela primeira vez, em grande escala, a "eliminação pelo trabalho". Foi a segunda fundação da sociedade do trabalho. O homem branco, marcado pelo ferrete da autodisciplina, podia agora descarregar sobre os "selvagens" o seu complexo de inferioridade e o desprezo reprimido que tinha por si próprio. Tal como "as mulheres", os "selvagens" eram para ele seres próximos da natureza e primitivos, um misto entre o animal e o homem. Immanuel Kant supunha, com precisão lógica, que o babuíno saberia falar se quisesse; só não falava porque temia ser recrutado para o trabalho.
Esta elucubração grotesca lança uma luz reveladora sobre o Iluminismo. O ethos repressivo do trabalho da modernidade, que, na sua versão protestante original, se baseava na misericórdia divina e, a partir do Iluminismo, na lei natural, adotou a máscara de "missão civilizadora". Cultura, neste sentido, é submissão voluntária ao trabalho; e trabalho é masculino, branco e "ocidental". O contrário, o não-humano, a natureza disforme e sem cultura, é feminino, de cor e "exótico", ou seja, tem que ser submetido à coerção. Numa palavra, o "universalismo" da sociedade do trabalho é inteiramente racista, logo desde as suas raízes. A abstração universal do trabalho só pode autodefinir-se pela delimitação em face de tudo aquilo que nele não se integra.
Em última análise, o herdeiro do absolutismo não foi a burguesia moderna, oriunda dos pacíficos negociantes das antigas rotas comerciais. Foram antes os condottieri dos bandos de mercenários da modernidade nascente, os diretores das casas de trabalho e das casas de correção, os arrendatários da coleta fiscal, os feitores de escravos, os agiotas e outros carrascos similares que formaram o solo social materno do "mundo empresarial" moderno. As revoluções burguesas dos séculos XVIII e XIX nada tinham a ver com a emancipação social. Limitaram-se a reorganizar as relações de poder no interior do sistema de coerção existente, libertando as instituições da sociedade de trabalho dos interesses dinásticos obsoletos e impulsionando a respectiva coisificação e despessoalização. Foi a gloriosa Revolução Francesa que, com um pathos muito especial, proclamou o dever do trabalho, e que, numa "lei para a abolição da mendicidade", introduziu novas casas de trabalho.
Ora, isto era exatamente o contrário do que pretendiam os movimentos sociais rebeldes que eclodiram à margem das revoluções burguesas, sem nelas se dissolverem. Já muito antes tinha havido formas completamente autônomas de resistência ou de objeção, que costumam deixar a historiografia oficial da sociedade do trabalho e da modernização sem saber o que fazer delas. Os produtores das antigas sociedades agrárias, que nunca se resignaram a aceitar inteiramente as relações de dominação feudal, estavam ainda menos dispostos a aceitar serem convertidos em "classe trabalhadora" de um sistema que lhes era exterior. Desde as guerras dos camponeses, nos séculos XV e XVI, até aos levantamentos britânicos, denunciados como sendo movimentos de "destruidores de máquinas", e à revolta dos tecelões na Silésia, em 1844, estende-se toda uma cadeia ininterrupta de lutas encarniçadas de resistência contra o trabalho. A implantação da sociedade do trabalho significou, ao longo de vários séculos, a guerra civil, umas vezes mais aberta, outras vezes latente.
As antigas sociedades agrárias eram tudo menos paradisíacas. Mas, ainda assim, para a maioria, a coerção monstruosa da emergente sociedade do trabalho representou exclusivamente um agravamento da sua situação, um "tempo do desespero". Na realidade, apesar de todas as restrições, os indivíduos tinham ainda algo a perder. Aquilo que na falsa consciência do mundo moderno surge como as trevas e os flagelos de uma Idade Média ficcionada foi, na verdade, o horror da história desse mesmo mundo moderno. Nas culturas pré-capitalistas e não-capitalistas, dentro e fora da Europa, o tempo dedicado diária e anualmente à atividade de produção era muito mais reduzido do que ainda hoje é para o moderno "empregado" de uma fábrica ou de um escritório. E a produção dessas sociedades estava longe de ser tão intensificada como na sociedade do trabalho, uma vez que toda a atividade era atravessada por uma cultura de ócio e de relativa "lentidão". Com exceção das catástrofes naturais, as necessidades básicas materiais estavam muito mais amplamente asseguradas para a maioria da população do que em longos períodos da história da modernização - e melhor também do que no horror dos bairros de lata gerados nos nossos dias pelo mundo da crise. Para além do mais, nessas sociedades o poder não se entranhava até aos poros como na sociedade do trabalho totalmente burocratizada.
Daí que a resistência contra o trabalho só militarmente pudesse ser quebrada. Ainda hoje os ideólogos da sociedade do trabalho continuam a fugir hipocritamente deste fato: a cultura dos produtores pré-modernos não se "desenvolveu" para outras formas; ela foi simplesmente afogada no seu próprio sangue. Nos nossos dias, os esclarecidos democratas da sociedade do trabalho preferem responsabilizar por todas essas monstruosidades as "circunstâncias pré-democráticas" de um passado com o qual eles já nada teriam a ver. Não querem admitir que a história terrorista do início da modernidade revela também, involuntariamente, a essência da atual sociedade do trabalho. A administração burocrática do trabalho e a integração estatal dos seres humanos nas democracias industriais nunca puderam negar as suas origens absolutistas e coloniais. Aliás, sob a forma da coisificação orientada para a coesão do sistema despessoalizado, a administração repressiva dos seres humanos em nome do ídolo trabalho continuou sempre a crescer e invadiu todos os domínios da vida.
Precisamente hoje, na agonia do trabalho, volta a sentir-se novamente a mão de ferro da burocracia, como nos primórdios da sociedade do trabalho. Ao organizar a apartheid social e ao procurar, supostamente, debelar a crise através da escravatura estatal democrática, a administração do trabalho revela-se como o sistema de coerção que sempre foi. Do mesmo modo, a brutalidade colonial regressa novamente sob a forma da administração econômica coerciva do Fundo Monetário Internacional nos países da periferia, que vão sendo arruinados uns atrás dos outros. Depois da morte do seu ídolo, a sociedade do trabalho volta a recorrer, em todos os sentidos, aos métodos dos seus crimes fundadores, que contudo não a poderão salvar.

X
O MOVIMENTO OPERÁRIO: UM MOVIMENTO EM PROL DO TRABALHO
O trabalho deve empunhar o cetro,
Só deve ser servo quem no ócio insistir;
O trabalho deve governar o mundo,
Pois só por ele o mundo pode existir.
(Friedrich Stampfer, Honra ao Trabalho, 1903.)
O movimento operário clássico, que só entrou em ascensão muito depois do declínio das antigas revoltas sociais, já não lutava contra as exigências do trabalho; pelo contrário, desenvolveu precisamente uma hiper-identificação com aquilo que lhe parecia ser inevitável. Interessava-se apenas por "direitos" e correções no seio da própria sociedade do trabalho, cujas coerções já tinha amplamente interiorizado. Em vez de criticar radicalmente a transformação da energia humana em dinheiro enquanto finalidade autotélica irracional, assumiu ele mesmo "o ponto de vista do trabalho" e interpretou a valorização do capital como um fato positivo em si mesmo e, portanto, neutro.
Assim, o movimento operário assumiu, à sua maneira, a herança do absolutismo, do protestantismo e do Iluminismo burguês. A infelicidade do trabalho foi convertida numa falsificação: o orgulho do trabalhador, que vinha redefinir em termos de "direito do homem" a autodomesticação do indivíduo como material humano do ídolo moderno. Os domesticados hilotas do trabalho trataram de, até certo ponto, dar a volta à questão no plano ideológico, desenvolvendo um autêntico zelo missionário dirigido em dois sentidos: por um lado, a reivindicação do "direito ao trabalho", por outro, a exigência de "obrigação de trabalho para todos". A burguesia não era combatida enquanto suporte funcional da sociedade do trabalho, mas, pelo contrário, censurada como parasita, em nome do trabalho. Todos os membros da sociedade, sem exceção, deviam ser compulsivamente recrutados para os "exércitos do trabalho".
O movimento operário passou assim, ele próprio, a ser um pace-maker da sociedade capitalista do trabalho. Foi ele que impôs, contra a tacanhez dos funcionários burgueses do século XIX e dos inícios do século XX, as últimas etapas da coisificação dentro do processo de desenvolvimento do trabalho, aliás em analogia com aquilo que a burguesia fizera um século antes, ao assumir a herança do absolutismo. Tal só foi possível porque os partidos operários e os sindicatos, como conseqüência da sua divinização do trabalho, desenvolveram uma atitude positiva face ao aparelho de Estado e às instituições da administração repressiva do trabalho, que de fato não pretendiam eliminar; pretendiam sim ocupar esses postos numa espécie de "marcha através das instituições". Assumiram, portanto, como anteriormente acontecera com a burguesia, a tradição burocrática da administração dos indivíduos na sociedade do trabalho, que vinha do absolutismo.
A ideologia da universalização social do trabalho exigia também um novo quadro de relações políticas. Em lugar da velha articulação entre os diferentes "estados" da sociedade, cada um com "direitos políticos" distintos (por exemplo, o direito de voto em função do nível de imposto pago), na sociedade do trabalho, que ainda só parcialmente estava instituída, tinha de ser introduzida a igualdade universal, democrática, típica do "Estado do trabalho" na sua máxima perfeição. As desigualdades decorrentes do funcionamento da máquina da valorização do capital, logo que esta passou a determinar toda a vida social, tinham que ser reequilibradas pelo Estado social. O movimento operário encarregou-se também de fornecer o paradigma para este efeito. Sob o nome de "social-democracia", tornar-se-ia o maior "movimento civil" da história, que, no entanto, só podia ser a sua própria armadilha. Porque na democracia tudo é negociável, menos o caráter coercivo da sociedade do trabalho, que é um pressuposto axiomático. O que pode ser debatido são apenas as modalidades e as formas da coerção. Há sempre a escolha entre o Omo e o Persil, entre a peste e a cólera, entre o descaramento e a estupidez, entre Kohl e Schröder.
A democracia da sociedade do trabalho é o sistema de dominação mais pérfido da história - é um sistema de auto-repressão. Por isso, esta democracia nunca organiza a livre decisão dos membros da sociedade sobre os recursos comuns, mas apenas a forma jurídica das mônadas de trabalho, socialmente separadas entre si, que têm de vender concorrencialmente a sua pele nos mercados de trabalho. A democracia é o contrário da liberdade. E assim, os democráticos homens do trabalho dividem-se necessariamente em administradores e administrados, em empreendedores e empreendidos, em elites funcionais e material humano. Os partidos políticos, e especialmente os partidos dos trabalhadores, espelham fielmente esta relação na sua própria estrutura. A divisão entre dirigentes e dirigidos, barões e arraia-miúda, militantes e simpatizantes, torna evidente que o quadro de relações nada tem que ver com um debate franco e com uma tomada de decisões aberta. Faz parte integrante da lógica deste sistema que as próprias elites apenas possam ser funcionários não autônomos do ídolo trabalho e das suas decisões cegas.
Pelo menos desde o Nazismo, todos os partidos são simultaneamente partidos dos trabalhadores e partidos do capital. Nas sociedades "em vias de desenvolvimento", do Leste e do Sul, o movimento operário transformou-se em partido do terrorismo de Estado ao serviço da recuperação do atraso na modernização; no Ocidente, transformou-se num conjunto de diferentes "partidos populares", com programas e figuras de representação mediática intermutáveis. A luta de classes está no fim, porque a sociedade do trabalho está no fim. As classes sociais revelam-se categorias sociais funcionais do sistema fetichista coletivo; agonizam à medida que tal sistema vai agonizando. Se os Social-Democratas, os Verdes e os ex-Comunistas se destacam na administração da crise, desenvolvendo programas de repressão particularmente abjetos, com isso apenas revelam que são os legítimos herdeiros de um movimento operário que nunca teve outro objetivo senão o trabalho a qualquer preço.

XI
A CRISE DO TRABALHO
O primeiro princípio moral é o direito do homem ao seu trabalho. […] A meu ver não há nada mais detestável do que uma vida ociosa. Nenhum de nós tem esse direito. A civilização não tem lugar para os ociosos. (Henry Ford)
O próprio capital é a contradição em processo, […] pois esforça-se por reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, enquanto, por outro lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza. [...] Assim, por um lado, chama a terreiro todos os poderes da ciência e da natureza, bem como os da combinação e do intercâmbio sociais, para fazer com que a criação de riqueza seja (relativamente) independente do tempo de trabalho nela aplicado. Por outro lado, pretende medir pelo tempo de trabalho estas gigantescas forças sociais assim criadas, e contê-las dentro dos limites requeridos para que o valor criado se mantenha como valor. (Karl Marx, Esboço da Crítica da Economia Política, 1857/1858.)
Após a Segunda Guerra Mundial, durante um brevíssimo período histórico, poderia parecer que, com a indústria fordista, a sociedade do trabalho se havia consolidado num sistema de "perpétua prosperidade", no qual, à custa do Estado social e do consumo generalizado, pudesse apaziguar-se duradouramente a insuportabilidade da coerção própria da finalidade autotélica. Independentemente de esta imagem ser uma fantasia típica dos hilotas da periferia democrática, reportando-se apenas a uma pequena minoria da população mundial, tal idéia não podia deixar de revelar também a sua inconsistência nos países desenvolvidos. Com a terceira revolução industrial, a da microeletrônica, a sociedade do trabalho atingiu o seu limite histórico absoluto.
Era logicamente previsível que este limite tinha de ser atingido mais cedo ou mais tarde, já que o sistema centrado na produção de mercadorias padece desde a sua origem de uma insanável contradição interna. Por um lado, ele vive de sugar energia humana em grandes quantidades, através do dispêndio de força de trabalho inerente ao seu mecanismo… Quanto mais energia, melhor. Por outro lado, contudo, a lei da concorrência da economia empresarial obriga a um permanente aumento da produtividade, num processo em que a força de trabalho humana vai sendo substituída por capital fixo cientificizado.
Esta contradição interna tinha sido já a causa mais profunda de todas as crises anteriores, nomeadamente da devastadora crise econômica mundial de 1929-33. Porém, essas crises puderam sempre ser ultrapassadas através de um mecanismo de compensação: em cada novo patamar de produtividade, após um determinado período de incubação, por intermédio da extensão do mercado a novas camadas de consumidores, o sistema acabava por absorver mais trabalho do que aquele que havia sido eliminado pelo processo de racionalização. Diminuía o dispêndio de força de trabalho por produto, mas em termos absolutos eram produzidos mais produtos, de tal forma que a diminuição acabava por ser compensada, inclusivamente com ganho. Enquanto a inovação ao nível dos produtos superou a inovação ao nível dos processos, a contradição interna do sistema pôde traduzir-se num movimento de expansão.
O exemplo histórico mais impressionante é o automóvel: com a linha de montagem e outras técnicas da "racionalização científica do trabalho" (usadas pela primeira vez na fábrica de automóveis de Henry Ford, em Detroit), o tempo de trabalho por automóvel ficou reduzido a uma pequena fração do tempo anteriormente gasto. Simultaneamente, o trabalho intensificou-se gigantescamente, ou seja, multiplicou-se exponencialmente a absorção de material humano em igual período de tempo. Sobretudo aconteceu que o automóvel, até então um produto de luxo acessível apenas às camadas mais altas da sociedade, foi introduzido no consumo de massas devido ao barateamento resultante do processo.
Desta forma, apesar da racionalização introduzida pela produção em cadeia com a segunda revolução industrial, a do "fordismo", foi possível continuar a satisfazer a um nível bastante elevado o apetite insaciável que o ídolo trabalho tem de energia humana. Ao mesmo tempo, o automóvel é um exemplo central do caráter destrutivo do modo de produção e de consumo da sociedade de trabalho altamente desenvolvida. No interesse da produção em massa de automóveis e da generalizada circulação individual, a paisagem é asfaltada e destruída, o ambiente é envenenado, e se aceita resignadamente que nas estradas de todo o mundo, ano após ano, decorra uma terceira guerra mundial não declarada, com milhões de mortos e estropiados.
Ora, sucede que, na terceira revolução industrial - a da microeletrônica -, este mecanismo de compensação por expansão soçobra. É verdade que com a microeletrônica também são barateados muitos produtos e criados outros novos (sobretudo no campo da mídia). Mas, pela primeira vez, a inovação nos processos ultrapassa a inovação nos produtos. Pela primeira vez, há mais trabalho eliminado pela racionalização do que aquele que pode ser reabsorvido pela expansão dos mercados. No desenvolvimento lógico da racionalização, a robótica eletrônica substitui a energia humana e as novas tecnologias das comunicações tornam o trabalho humano supérfluo. Desaparecem por inteiro setores ou níveis anteriormente existentes na construção, na produção, no marketing, no armazenamento, na venda e mesmo na gestão. Pela primeira vez, o ídolo trabalho submete-se involuntariamente a um regime de racionamento duradouro. E com isso cava a sua própria sepultura.
Como a sociedade democrática do trabalho constitui um sistema autotélico amadurecido, fechado sobre si mesmo, orientado para o consumo de força de trabalho, a sua estrutura não aceita a simples passagem para uma redução generalizada do tempo de trabalho. Por um lado, a racionalidade econômica empresarial exige que quantidades cada vez maiores de indivíduos permaneçam duradouramente "desempregados", e portanto postos à margem da possibilidade de reprodução da vida que é imanente ao sistema, mas por outro lado, o número sempre mais reduzido dos "empregados" é submetido a uma exigência de trabalho e de eficiência cada vez maior. No meio da riqueza, mesmo nos centros do capitalismo, regressam a pobreza e a fome. Há meios de produção que ficam parados, terrenos de cultivo que ficam de pousio em larga escala, como em larga escala ficam vazias as habitações ou edifícios públicos, enquanto o número dos sem-teto cresce sem parar.
O capitalismo torna-se uma instituição de minorias à escala global. No seu desespero, o ídolo trabalho, agonizante, torna-se o canibal de si próprio. Em busca de sobras de trabalho para se alimentar, o capital faz estourar as fronteiras da economia nacional e globaliza-se numa concorrência nômade, em que cada grupo procura desalojar o outro. Regiões inteiras do mundo são privadas dos fluxos globais de capital e de mercadorias. Com uma onda de fusões e de "aquisições hostis" sem precedentes históricos, os cartéis armam-se para a última batalha da economia empresarial. Os Estados e nações desorganizados implodem, e as populações, empurradas para a loucura pela luta concorrencial de sobrevivência, digladiam-se na guerra étnica dos bandos.

XII
O FIM DA POLÍTICA
A crise do trabalho arrasta consigo necessariamente a crise do Estado e, portanto, da política. Basicamente, o Estado moderno deve a sua carreira ao fato de o sistema produtor de mercadorias precisar de uma instância superior que garanta, no quadro da concorrência, os fundamentos jurídicos e os pressupostos da valorização do capital - incluindo um aparelho repressivo para o caso de o material humano se insubordinar contra o sistema. Na sua forma amadurecida de democracia de massas, no século XX, o Estado teve de assumir, de forma crescente, encargos de natureza socioeconômica: não apenas o sistema de segurança social, mas também a saúde e a educação, a rede de transportes e de comunicações, infra-estruturas de todo o tipo que se tornaram indispensáveis para o funcionamento da sociedade do trabalho, enquanto sociedade industrial desenvolvida, mas que não podem ser organizadas de acordo com o processo de capitalização da economia empresarial. E isto porque as infra-estruturas têm de estar permanentemente disponíveis para o conjunto da sociedade e têm de cobrir todo o território, não podendo portanto ser obrigadas a adaptar-se às conjunturas da oferta e da procura no mercado.
Mas como o Estado não é uma unidade autônoma de valorização do capital, e portanto não pode transformar trabalho em dinheiro, tem de ir buscar dinheiro ao processo de capitalização realmente existente para financiar as suas tarefas. Esgotado o processo de ampliação do capital, esgotam-se também as finanças do Estado. Aquele que parecia ser o soberano da sociedade revela-se afinal totalmente dependente da cega e fetichizada economia da sociedade do trabalho. Pode legislar como bem entender, mas, quando as forças produtivas crescem para além do sistema de trabalho, o direito estatal positivo fica no vazio, uma vez que só pode referir-se a sujeitos do trabalho.
Com o desemprego de massas, sempre crescente, secam as receitas estatais provenientes dos impostos sobre os rendimentos do trabalho. As redes sociais rompem-se assim que se atinge uma massa crítica de "supérfluos" que, em termos capitalistas, só podem ser alimentados através da redistribuição de outros rendimentos financeiros. Na situação de crise, com o acelerado processo de concentração do capital, que ultrapassa as fronteiras das economias nacionais, desaparecem também as receitas fiscais resultantes da tributação dos lucros das empresas. Os trusts transnacionais obrigam os Estados em competição pelos investimentos à prática do dumping fiscal, social e ecológico.
É precisamente este processo que leva o Estado democrático a transformar-se em mero administrador da crise. Quanto mais se aproxima do estado de emergência financeira, mais se reduz ao seu núcleo repressivo. As infra-estruturas são orientadas segundo as necessidades do capital transnacional. Como outrora nos territórios coloniais, a logística social restringe-se cada vez mais a um número restrito de centros econômicos, enquanto o resto fica abandonado. Privatiza-se o que pode ser privatizado, mesmo que com isso cada vez mais pessoas fiquem excluídas das mais elementares formas de abastecimento. Quando a valorização do capital se concentra num número cada vez menor de ilhas do mercado mundial, deixa de ser possível dar cobertura ao abastecimento das populações em todo o território.
Na medida em que tal não diga diretamente respeito aos setores relevantes para a economia, já não interessa saber se os comboios andam ou se as cartas chegam ao destino. A educação passa a ser um privilégio dos vencedores da globalização. A cultura intelectual, artística e teórica é entregue ao critério do mercado e agoniza. O sistema de saúde deixa de ser financiável e degenera num sistema de classes. Primeiro lenta e disfarçadamente, depois de modo aberto, passa a valer a lei da eutanásia social: quem é pobre e "supérfluo" deve morrer mais cedo.
Apesar de toda a abundância de conhecimentos, capacidades e meios da medicina, da educação, da cultura, da infra-estrutura geral, a lei irracional da sociedade do trabalho, objetivada em termos de "restrição ao financiamento", fecha-os a sete chaves, desmantela-os e atira-os para a sucata - exatamente como acontece com os meios de produção agrários e industriais que deixaram de ser "rentáveis". O Estado democrático, transformado num sistema de apartheid, nada mais tem para oferecer àqueles que até agora eram os cidadãos do trabalho do que a simulação repressiva da ocupação em formas de trabalho barato e coercivo, e o desmantelamento de todas as prestações sociais. Num estádio mais avançado, é a própria administração estatal que pura e simplesmente se desmorona. Os aparelhos de Estado tornam-se mais selvagens, transformando-se numa cleptocracia corrupta, os militares transformam-se em bandos armados mafiosos e a polícia em assaltantes de estrada.
Não há política no mundo que possa parar este desenvolvimento e, muito menos, invertê-lo. Pois a política é, por essência, uma ação em referência ao Estado; conseqüentemente, com a desestatização, ela fica sem objeto. A fórmula democrática de esquerda, que fala da "progressiva configuração política" das relações sociais, torna-se cada dia mais ridícula. Para além de uma repressão sem fim, do desmantelamento da civilização e do apoio ao "terror econômico", já não há nada para "configurar". Uma vez que a finalidade autotélica da sociedade do trabalho é o pressuposto axiomático da democracia política, não pode haver nenhuma regulação político-democrática para a crise do trabalho. O fim do trabalho é o fim da política.

XIII
O CAPITALISMO DE CASSINO E O SEU JOGO DE SIMULAÇÃO NA SOCIEDADE DO TRABALHO
Logo que o trabalho, na sua forma imediata, deixa de ser a grande fonte de riqueza, o tempo de trabalho deixa necessariamente de ser a respectiva medida, e portanto deixa de ser o valor de troca [a medida] do valor de uso. [...] Em conseqüência, a produção fundada no valor de troca desmorona-se e o próprio processo imediato de produção material despoja-se da sua forma mesquinha e contraditória. (Karl Marx, Esboço da Crítica da Economia Política, 1857/58.)
A consciência social dominante engana-se sistematicamente a si mesma sobre a verdadeira situação da sociedade do trabalho. As regiões em colapso são ideologicamente excomungadas, as estatísticas relativas ao mercado de trabalho são descaradamente falsificadas, as formas de pauperização são dissimuladas pela mídia. A simulação é o traço característico mais central do capitalismo em crise. Isto vale também para a própria economia. Se, pelo menos nos países ocidentais que constituem o núcleo do sistema, subsistiu até agora a aparência de que o capital podia acumular-se mesmo sem trabalho e que a forma pura do dinheiro sem substância podia garantir o contínuo crescimento do valor, tal aparência ficava a dever-se a um processo de simulação nos mercados financeiros. À imagem e semelhança da simulação do trabalho através das medidas coercivas da administração democrática do trabalho, formou-se uma simulação da valorização do capital através da desarticulação especulativa entre o sistema de crédito e os mercados bolsistas da economia real.
O consumo de trabalho presente é substituído pelo recurso ao consumo de trabalho futuro, que nunca chegará a realizar-se. Trata-se, de certo modo, de uma acumulação de capital num fictício "futuro do subjuntivo". O capital-dinheiro, que já não pode ser reinvestido de forma rentável na economia real, e que por isso não pode absorver mais trabalho, tem de se deslocar em força para os mercados financeiros.
Já o impulso fordista da valorização do capital, nos tempos do "milagre econômico", após a Segunda Guerra Mundial, estava longe de ser totalmente auto-sustentável. O Estado contraiu créditos em quantidades até então desconhecidas, muito para além das suas receitas fiscais, porque as condições estruturais da sociedade do trabalho já não podiam ser financiadas de outra maneira. O Estado empenhou assim todas as suas efetivas receitas futuras. Desta maneira surgiu, por um lado, uma possibilidade de investimento financeiro para o capital-dinheiro "excedente" - emprestava-se ao Estado em troca de juros. O Estado pagava os juros à custa de novos empréstimos, reinjetando novamente o dinheiro emprestado no circuito econômico. Por outro lado, o Estado financiava as despesas sociais e os investimentos infra-estruturais, criando assim uma procura que, em termos capitalistas, era necessariamente artificial, uma vez que não tinha a cobertura de qualquer dispêndio de trabalho produtivo. O boom fordista foi assim ampliado para além daquele que seria o seu verdadeiro alcance, por via de um processo em que a sociedade do trabalho procedia à sangria do seu próprio futuro.
Este elemento simulativo do processo - só aparentemente ainda intacto - de valorização do capital chegou ao seu limite último juntamente com o endividamento estatal. As "crises de dívida" dos orçamentos estatais, não só no Terceiro Mundo, mas também nos países desenvolvidos, deixaram de permitir que a expansão continuasse a realizar-se por este processo. Foi esse o fundamento objetivo da campanha vitoriosa da desregulamentação neoliberal, que, segundo a respectiva ideologia, deveria ir de par com uma redução drástica da quota do Estado no produto social. Na realidade, a desregulamentação e o desmantelamento das responsabilidades do Estado foram anulados pelos custos da crise, ainda que sob a forma de custos da repressão e da simulação estatais. Deste modo, são muitos os Estados em que a quota do Estado no produto efetivamente aumentou.
Mas a acumulação do capital já não pode continuar a ser simulada através do endividamento do Estado. E é por isso que, desde os anos oitenta, a criação complementar de capital fictício se transfere para os mercados bolsistas. Neles, há muito que não se trata de obter dividendos, ou seja, a distribuição de lucros da produção real, mas apenas de obter ganhos de cotação pelo aumento especulativo do valor dos títulos de propriedade até números de grandeza astronômica. A relação entre a economia real e o movimento especulativo dos mercados financeiros foi virada de pernas para o ar. Já não é o aumento especulativo das cotações a antecipar a expansão da economia real, mas pelo contrário é a criação fictícia de valor, sempre em alta, que simula uma acumulação real que simplesmente deixou de existir.
O ídolo do trabalho está clinicamente morto, mas recebe respiração artificial através da expansão aparentemente autonomizada dos mercados financeiros. As empresas industriais obtêm ganhos que já não resultam da produção e da venda de bens reais, que há muito se tornaram empreendimentos votados ao insucesso, mas sim da especulação em ações e divisas levada a cabo pelos seus "habilidosos" departamentos financeiros. Os orçamentos públicos apresentam receitas que não resultam de impostos ou de empréstimos, mas da participação zelosa da administração financeira no jogo de azar dos mercados. E os orçamentos privados, que viram as receitas reais provenientes dos salários e honorários reduzirem-se drasticamente, só conseguem manter um nível elevado de consumo à custa de ganhos na bolsa. Surge assim uma nova forma de procura artificial que, por sua vez, arrasta consigo uma produção real e receitas fiscais reais "sem chão debaixo dos pés".
Desta maneira, a crise econômica mundial vai sendo adiada pelo processo especulativo; mas, como o aumento fictício do valor dos títulos de propriedade só pode ser a antecipação da futura utilização real de trabalho (numa escala astronômica) - que nunca virá a acontecer -, então o embuste objetivado terá forçosamente de se desmascarar após um certo tempo de incubação. O colapso dos "emerging markets" na Ásia, na América Latina e no Leste da Europa foi só um aperitivo. Será apenas uma questão de tempo, e entrarão igualmente em colapso os mercados financeiros dos centros capitalistas nos Estados Unidos, na União Européia e no Japão.
Este contexto é percebido de uma forma totalmente distorcida pela consciência fetichizada da sociedade do trabalho e em particular pelos tradicionais "críticos do capitalismo", à esquerda e à direita. Fixados no fantasma do trabalho, nobilitado enquanto condição supra-histórica e positiva da existência social, confundem sistematicamente causa e efeito. O adiamento temporário da crise através da expansão especulativa dos mercados financeiros aparece, assim, de forma invertida, como suposta causa da crise. A "maldade dos especuladores" - na expressão vulgarmente usada, mais ou menos mesclada de pânico - leva-los-ia a arruinar completamente a bela sociedade do trabalho, gastando de forma extravagante o "bom dinheiro", que existe "de sobra", em vez de o investirem de forma respeitável e sólida em maravilhosos "postos de trabalho" para que uma humanidade de hilotas imbecilizados pelo ídolo pudesse continuar a ter o seu "pleno emprego".
Não entra nestas cabeças este fato simples: não foi de forma nenhuma a especulação que fez parar os investimentos reais, porque estes já tinham deixado de ser rentáveis em conseqüência da terceira revolução industrial. O disparo especulativo só pode ser um sintoma disso mesmo. O próprio dinheiro, que aparentemente circula em quantidades infinitas, já não é "bom", mesmo em sentido capitalista, mas apenas simples "ar quente" com que foi sendo empolada a bolha especulativa. Qualquer tentativa de drenar um pouco esta bolha, recorrendo a projetos tributários mais ou menos imaginativos ("Taxa Tobin", etc.) para reconduzir novamente o capital-dinheiro às rodas alegadamente "corretas" e reais da engrenagem da sociedade do trabalho, só pode acabar por levar ao seu mais rápido rebentamento.
Em vez de se compreender que todos nos tornaremos inexoravelmente não rentáveis e que, por isso, é o próprio critério da rentabilidade que é preciso atacar, como princípio obsoleto que é, e, juntamente com ele, o respectivo fundamento na sociedade do trabalho, em vez disso, demonizam-se os "especuladores". Esta imagem barata do inimigo é cultivada em uníssono por radicais de direita e independentes de esquerda, por honestos funcionários sindicais e keynesianos nostálgicos, por teólogos sociais e apresentadores de "talk shows", ou seja, por todos os apóstolos do "trabalho honrado". Poucos estão conscientes de que daí até à reativação da loucura anti-semita vai apenas um pequeno passo. O apelo ao capital "criativo" e de sangue nacional contra o capital-dinheiro, "judeu", internacional e "usurário", arrisca-se a ser a última palavra da "esquerda dos postos de trabalho" intelectualmente desorientada. Que era a &uacu