C-------------------------------CURRÍCULO
Erida F. A. Silva
Mestrado em Química na UFSCar - UFSCAR
Doutrorado em Ciências Ambientais - USP
Entre
dois mundos
Biografia literária
de Erida F. A. Silva
(se é que isso existe e se é que fui capaz de fazê-lo)
24 de abril de 2008
Era uma vez uma garotinha muito curiosa
e serelepe que brincava de dessecar insetos e misturar produtos
de limpeza até ganhar
de sua mãe, professora do ensino fundamental, um kit de
química com o qual soluções incolores quando
misturadas ficavam milagrosamente coloridas, o que ela iria identificar
futuramente como reações químicas.
Essa garotinha cresceu e virou uma garota, e como a maioria das
de sua idade passou a freqüentar a EEPG Prof. Alice Chuery,
foi lá que ela começou a descobrir que as coisas
não eram simplesmente as coisas, mas sim coisas formadas
por outras pequenas coisas que ao se unir resultavam em diferentes
grandes coisas e estudar essas pequenas coisas, essenciais, tão
pequenas mas que fazem tanta diferença, era estudar química.
Essa garota de nome estranho gostava de história, geografia,
literatura, português assim como a maioria, o que não
era estranho, pois estas disciplinas estudavam grandes coisas,
feitas por grandes pessoas. Mas ela via no mundo das pequenas
coisas um encantamento que não via no mundo das grandes
coisas. No mundo das pequenas coisas havia uma igualdade, o coletivo é que
gerava as grandes coisas lá quem mandava era a lei da
natureza, onde todos têm seu papel e relevância no
coletivo.
Pensando nisto esta garota, optou por prestar vestibular para
química. Prestar vestibular significava passar em uma
seleção imposta devido, basicamente, a diferença
que acontece no mundo das grandes coisas. Para cumprir esta árdua
tarefa a garota do EEPG Prof. Alice Chuery se tornou a garota
do Sintaxe. Durante este difícil
e instigante período de estudo firmou o seu interesse
em se adentrar no mundo das pequenas coisas, sem esquecer que
ela vivia mesmo era no mundo das grandes coisas e, portanto,
estava submetida às leis dos homens e não da natureza,
a garota do Sintaxe tinha que trabalhar.
Com apoio, esforço e sorte ela passou na dura e desigual
seleção imposta pelo mundo das grandes coisas,
e neste momento ela deixava de ser a garota do Sintaxe para se
tornar a moça da Ufscar, estudante do mundo das
pequenas coisas, mas sem nunca esquecer que ela vivia mesmo era
no mundo das grandes coisas.
A partir de então sua sina foi colaborar com o que ela
havia aprendido sobre e com o mundo das pequenas coisas para
melhorar um pouco o mundo das grandes coisas. Um marco deste
utópico ideal foi o mestrado realizado pela moça
agora formada em química. No seu mestrado ela estudou
qual era o impacto causado pela contaminação por
metais (que fazem parte do mundo das pequenas coisas) quando
mal manipulados pelo homem (que faz parte do mundo das grandes
coisas). Neste caso o homem do qual estamos falando é Antonio
Ermírio de Moraes, um ícone do mundo das grandes
coisas, o chefe do grupo Votorantim que possui uma indústria
de beneficiamento de zinco localizada na beira do Rio São
Francisco, com a qual ele ganha milhões por ano e ao mesmo
tempo dificulta e quase inviabiliza a mera sobrevivência
dos que tem na pesca a base do seu modo de vida e sustento...
esses são os feitos do mundo das grandes coisas.
Por conhecer o mundo das pequenas coisas a moça da Ufscar
constatou a contaminação e estudou os seus impactos
nos peixes através de estudos realizados por ela no Canadá e
foi discutir estes resultados com os maiores interessados: a
comunidade de pescadores, dando força as exigências
de melhorias ambientais que estes faziam para a indústria.
Mas o mundo das grandes coisas é mesmo muito estranho,
imagine que o mesmo governo que financiou os estudos da moça
da Ufscar foi incapaz, até o momento, de condenar o grande
homem e a sua grande empresa Votorantim Metais pela sua responsabilidade
na dificuldade de manutenção do modo de vida dos
pescadores artesanais do Rio São Francisco, na região
de Três Marias MG... coisas do mundo das grandes
coisas.
Percebendo esta dificuldade em tomar uma medida para solucionar
o problema é que a moça da Ufscar teve confirmada
a sua inicial intuição: apesar da beleza do mundo
das pequenas coisas, ele nunca vai deixar de fazer parte do mundo
das grandes coisas, e assim, uma decisão foi tomada, esta
moça vai caminhar para se tornar uma mulher que trabalhe
e colabore para uma profícua relação entre
os dois mundos... caminhando sempre por esta interface sem esquecer
da inter-relação e dependência destes mundos.
Atualmente ela leciona naquele mesmo Sintaxe
tentando fazer por mais alguém o que fizeram por ela,
plantar uma semente de esperança no cruel mundo das grandes
coisas. E também estuda
a ciência ambiental e as políticas públicas para ver se
melhora o diálogo entre esses mundos que são tão dependentes
e tão divergentes.