Bertold
Brecht (clique
aqui para baixar texto)
As cinco dificuldades para
escrever a verdade
Dramaturgo e poeta alemão (1898-1956) que revolucionou
o teatro com peças que visavam estimular o senso crítico
e a consciência política do espectador. [Texto
de 1934, publicado na edição de 25 de abril de
1982 do Diário de Lisboa (com tradução
de Ernesto Sampaio)
Hoje, o escritor que deseje combater
a mentira e a ignorância
tem de lutar, pelo menos, contra cinco dificuldades. É-lhe
necessária a coragem de dizer a verdade, numa altura
em que por toda a parte se empenham em sufocá-la; a
inteligência de a reconhecer, quando por toda a parte
a ocultam; a arte de a tornar manejável como uma arma;
o discernimento suficiente para escolher aqueles em cujas mãos
ela se tornará eficaz; finalmente, precisa de ter habilidade
para difundir entre eles. Estas dificuldades são grandes
para os que escrevem sob o jugo do fascismo; aqueles que fugiram
ou foram expulsos também sentem o peso delas; e até os
que escrevem num regime de liberdades burguesas não
estão livres da sua ação.
1. Coragem de dizer a verdade
É
evidente que o escritor deve dizer a verdade, não a
calar nem a abafar, e nada escrever contra ela. É sua
obrigação evitar rebaixar-se diante dos poderosos,
não enganar os fracos, naturalmente, assim como resistir à tentação
do lucro que advém de enganar os fracos. Desagradar
aos que tudo possuem equivale a renunciar seja ao que for.
Renunciar ao salário do seu trabalho equivale por vezes
a não poder trabalhar, e recusar ser célebre
entre os poderosos é muitas vezes recusar qualquer espécie
de celebridade. Para isso precisa-se de coragem. As épocas
de extrema opressão costumam ser também aquelas
em que os grandes e nobres temas estão na ordem do dia.
Em tais épocas, quando o espírito de sacrifício é exaltado
ruidosamente, precisa o escritor de muita coragem para tratar
de temas tão mesquinhos e tão baixos como a alimentação
dos trabalhadores e o seu alojamento.
Quando os camponeses são cobertos de honrarias e apontados
como exemplo, é corajoso o escritor que fala da maquinaria
agrícola e dos pastos baratos que aliviariam o tão
exaltado trabalho dos campos. Quando todos os alto-falantes
espalham aos quatro ventos que o ignorante vale mais do que
o instruído, é preciso coragem para perguntar:
vale mais por quê? Quando se fala de raças nobres
e de raças inferiores, é corajoso o que pergunta
se a fome, a ignorância e a guerra não produzem
odiosas deformidades. É igualmente necessária
coragem para se dizer a verdade a nosso próprio respeito,
sobre os vencidos que somos. Muitos perseguidos perdem a faculdade
de reconhecer as suas culpas. A perseguição parece-lhes
uma monstruosa injustiça. Os perseguidores são
maus, dado que perseguem; e eles, os perseguidos, são
perseguidos por causa da sua virtude. Mas essa virtude foi
esmagada, vencida, reduzida à impotência. Bem
fraca virtude ela era! Má, inconsistente e pouco segura
virtude, pois não é admissível aceitar
a fraqueza da virtude como se aceita a umidade da chuva. É necessária
coragem para dizer que os bons não foram vencidos por
causa da sua virtude, mas antes por causa da sua fraqueza.
A verdade deve ser mostrada na sua luta com a mentira e nunca
apresentada como algo de sublime, de ambíguo e de geral;
este estilo de falar dela convém justamente à mentira.
Quando se afirma que alguém disse a verdade é porque
houve outros, vários, muitos ou um só, que disseram
outra coisa, mentiras ou generalidades; mas aquele disse a
verdade, falou em algo de prático, concreto, impossível
de negar, disse a única coisa que era preciso dizer.
Não se carece de muita coragem para deplorar em termos
gerais a corrupção do mundo e para falar num
tom ameaçador, nos lugares onde a coisa ainda é permitida,
da desforra do Espírito. Muitos simulam a bravura como
se os canhões estivessem apontados sobre eles; a verdade é que
apenas servem de mira a binóculos de teatro. Os seus
gritos atiram algumas vagas e generalizadas reivindicações, à face
dum mundo onde as pessoas inofensivas são estimadas.
Reclamam em termos gerais uma justiça para a qual nada
contribuem, apelam pela liberdade de receber a sua parte dum
espólio que sempre têm partilhado com eles. Para
esses, a verdade tem de soar bem. Se nela só há aridez,
números e fatos, se para a encontrar forem precisos
estudos e muito esforço, então essa verdade não é para
eles, não possui a seus olhos nada de exaltante. Da
verdade, só lhes interessa o comportamento exterior
que permite clamar por ela. A sua grande desgraça é não
possuírem a mínima noção dela.
2. Inteligência de reconhecer a verdade
Como é difícil dizer a verdade, já que
por toda a parte a sufocam, dizê-la ou não parece à maioria
uma simples questão de honestidade. Muitas pessoas pensam
que quem diz a verdade só precisa de coragem. Esquecem
a segunda dificuldade, a que consiste em descobri-la. Não
se pode dizer que seja fácil encontrar a verdade.
Em primeiro lugar, já não é fácil
descobrir qual verdade merece ser dita. Hoje, por exemplo,
as grandes nações civilizadas vão soçobrando
uma após outra na pior das barbáries diante dos
olhos pasmados do universo.
Acresce ainda o fato de todos sabermos que a guerra interna,
dispondo dos meios mais horríveis, pode transformar-se
dum momento para o outro numa guerra exterior que só deixará um
montão de escombros no sitio onde outrora havia o nosso
continente. Esta é uma verdade que não admite
dúvidas, mas é claro que existem outras verdades.
Por exemplo: não é falso que as cadeiras sirvam
para a gente se sentar e que a chuva caia de cima para baixo.
Muitos poetas escrevem verdades deste gênero. Assemelham-se
a pintores que esboçassem naturezas mortas a bordo dum
navio em risco de naufragar. A primeira dificuldade de que
falamos não existe para eles e, contudo, têm a
consciência tranqüila. “Esgalham” o
quadro num desprezo soberano pelos poderosos, mas também
sem se deixarem impressionar pelos gritos das vítimas.
O absurdo do seu comportamento engendra neles um “profundo” pessimismo
que se vende bem; os outros é que têm motivos
para se sentirem pessimistas ao verem o modo como esses mestres
se vendem. Já nem sequer é fácil reconhecer
que as suas verdades dizem respeito ao destino das cadeiras
e ao sentido da chuva: essas verdades soam normalmente de outra
maneira, como se estivessem relacionadas com coisas essenciais,
pois o trabalho do artista consiste justamente em dar um ar
de importância aos temas de que trata.
Só olhando os quadros de muito perto é que podemos
discernir a simplicidade do que dizem: “Uma cadeira é uma
cadeira” e “Ninguém pode impedir a chuva
de cair de cima para baixo”. As pessoas não encontram
ali a verdade que merece a pena ser dita.
Alguns se consagram verdadeiramente às tarefas mais
urgentes, sem medo aos poderosos ou à pobreza, e, no
entanto, não conseguem encontrar a verdade. Faltam-lhe
conhecimentos. As velhas superstições não
os largam, assim como os preconceitos ilustres que o passado
freqüentemente revestiu de uma forma bela. Acham o mundo
complicado em demasia, não conhecem os dados nem distinguem
as relações. A honestidade não basta;
são precisos conhecimentos que se podem adquirir e métodos
que se podem aprender. Todos os que escrevem sobre as complicações
desta época e sobre as transformações
que nela ocorrem necessitam de conhecer a dialética
materialista, a economia e a história. Estes conhecimentos
podem adquirir-se nos livros e através da aprendizagem
prática, por mínima que seja a vontade necessária.
Muitas verdades podem ser encontradas com a ajuda de meios
bastante mais simples, através de fragmentos de verdades
ou dos dados que conduzem à sua descoberta. Quando se
quer procurar, é conveniente ter-se um método,
mas também se pode encontrar sem método e até sem
procura. Contudo, através dos diversos modos como o
acaso se exprime, não se pode esperar a representação
da verdade que permite aos homens saber como devem agir. As
pessoas que só se empenham em anotar os fatos insignificantes
são incapazes de tornar manejáveis as coisas
deste mundo. O objetivo da verdade é uno e indivisível.
As pessoas que apenas são capazes de dizer generalidades
sobre a verdade não estão à altura dessa
obrigação.
Se alguém está pronto a dizer a verdade e é capaz
de a reconhecer, ainda tem de vencer três dificuldades.
3. A arte de tornar a verdade manejável como uma arma
O que torna imperiosa a necessidade de dizer a verdade são
as conseqüências que isso implica no que diz respeito à conduta
prática. Como exemplo de verdade inconseqüente
ou de que se poderão tirar conseqüências
falsas, tomemos o conceito, largamente difundido, segundo o
qual em certos países reina um estado de coisas nefasto,
resultante da barbárie. Para esta concepção,
o fascismo é uma vaga de barbárie que alagou
certos países com a violência de um fenômeno
natural.
Os que assim pensam, entendem o fascismo como um novo movimento,
uma terceira força justaposta ao capitalismo e ao socialismo
(e que os domina). Para quem partilha esta opinião,
não só o movimento socialista, mas também
o capitalismo, teriam podido, se não fosse o fascismo,
continuar a existir, etc. Naturalmente que se trata de uma
afirmação fascista, de uma capitulação
perante o fascismo. O fascismo é uma fase histórica
na qual o capitalismo entrou; por conseqüência,
algo de novo e ao mesmo tempo de velho. Nos países fascistas,
a existência do capitalismo assume a forma do fascismo,
e não é possível combater o fascismo senão
enquanto capitalismo, senão enquanto forma mais nua,
mais cínica, mais opressora e mais mentirosa do capitalismo.
Como se poderá dizer a verdade sobre o fascismo que
se recusa, se quem diz essa verdade se abstém de falar
contra o capitalismo que engendra o fascismo? Qual será o
alcance prático dessa verdade?
Aqueles que estão contra o fascismo sem estar contra
o capitalismo, que choramingam sobre a barbárie causada
pela barbárie, assemelham-se a pessoas que querem receber
a sua fatia de assado de vitela, mas não querem que
se mate a vitela. Querem comer vitela, mas não querem
ver sangue. Para ficarem contentes, basta que o magarefe lave
as mãos antes de servir a carne. Não são
contra as relações de propriedade que produzem
a barbárie, mas são contra a barbárie.
As recriminações contra as medidas bárbaras
podem ter uma eficácia episódica, enquanto os
auditores acreditarem que semelhantes medidas não são
possíveis na sociedade onde vivem. Certos países
gozam do raro privilégio de manter relações
de propriedade capitalistas por processos aparentemente menos
violentos. A democracia ainda lhes presta os serviços
que noutras partes do mundo só podem ser prestados mediante
o recurso à violência, quer dizer, aí a
democracia chega para garantir a propriedade privada dos meios
de produção. O monopólio das fábricas,
das minas, dos latifúndios gera em toda a parte condições
bárbaras; digamos que em alguns lugares a democracia
torna essas condições menos visíveis.
A barbárie torna-se visível logo que o monopólio
já só pode encontrar proteção na
violência nua.
Certas nações que conseguem preservar os monopólios
bárbaros sem renunciar às garantias formais do
direito, nem a comodidades como a arte, a filosofia, a literatura,
acolhem carinhosamente os hóspedes cujos discursos procuram
desculpar o seu país natal de ter renunciado a semelhantes
confortos: tudo isso lhes será útil nas guerras
vindouras. É licito dizer-se que reconheceram a verdade,
aqueles que reclamam a torto e a direito uma luta sem quartel
contra a Alemanha, apresentada como verdadeira pátria
do mal da nossa época, sucursal do inferno, caverna
do Anticristo? Desses, não será exagerado pensar
que não passam de impotentes e nefastos imbecis, já que
a conclusão do seu blablablá aponta para a destruição
desse país inteiro e de todos os seus habitantes (o
gás asfixiante, quando mata, não escolhe os culpados).
O homem frívolo, que não conhece a verdade, exprime-se
através de generalidades, em termos nobres e imprecisos.
Encanta-o perorar sobre “os” alemães ou
lançar-se em grandes tiradas sobre “o” Mal,
mas a verdade é que nós, aqueles a quem o homem
frívolo fala, ficamos embaraçados, sem saber
que fazer de semelhantes ditames. Afinal de contas, o nosso
homem decidiu deixar de ser alemão? E lá por
ele ser bom, o inferno vai desaparecer? São desta espécie
as grandes frases sobre a barbárie. Para os seus autores,
a barbárie vem da barbárie e desaparece graças à educação
moral que vem da educação. Que miséria
a destas generalidades, que não visam qualquer aplicação
prática e, no fundo, não se dirigem a ninguém.
Não nos admiremos que se digam de esquerda, “mas” democratas,
os que só conseguem elevar-se a tão fracas e
improfícuas verdades. A “esquerda democrática” é outra
destas generalidades-álibis onde correm a acoitarem-se
as pessoas inconseqüentes, isto é, os incapazes
de viver até as últimas conseqüências
as verdades que quer a esquerda, quer a democracia contêm.
Reclamar-se alguém da “esquerda democrática” significa,
em termos práticos, que pertence ao grupo dos ineptos
para revolucionar ou conservar as coisas, ao clã dos
generalistas da verdade.
Não é a mim, fugido da Alemanha com a roupa que
tinha no corpo, que me vão apresentar o fascismo como
uma espécie de força motriz natural impossível
de dominar. A obscuridade dessas descrições esconde
as verdadeiras forças que produzem as catástrofes.
Um pouco de luz, e logo se vê que são homens a
causa das catástrofes. Pois é, amigos: vivemos
num tempo em que o homem é o destino do homem.
O fascismo não é uma calamidade natural, que
se possa compreender a partir da “natureza” humana.
Mas mesmo confrontados com catástrofes naturais, há um
modo de descrevê-las digno do homem, um modo que apela
para as suas qualidades combativas.
O cronista de grandes catástrofes como o fascismo e
a guerra (que não são catástrofes naturais)
deve elaborar uma verdade praticável, mostrar as calamidades
que os que possuem os meios de produção infligem às
massas imensas dos que trabalham e não os possuem.
Se se pretende dizer eficazmente a verdade sobre um mau estado
de coisas, é preciso dizê-la de maneira que permita
reconhecer as suas causas evitáveis. Uma vez reconhecidas
as causas evitáveis, o mau estado de coisas pode ser
combatido.
4. Discernimento suficiente para escolher os que tornarão
a verdade eficaz
Tirando ao escritor a preocupação pelo destino
dos seus textos, as tradições seculares do comércio
da coisa escrita no mercado das opiniões deram-lhe a
impressão de que a sua missão terminava logo
que o intermediário, cliente ou editor, se encarregava
de transmitir aos outros a obra acabada. O escritor pensava:
falo e ouve-me quem me quiser ouvir. Na verdade, ele falava
e quem podia pagar ouvia-o. Nem todos ouviam as suas palavras,
e os que as ouviam não estavam dispostos a ouvir tudo
o que se lhes dizia. Tem-se falado muito desta questão,
mas mesmo assim ainda não chega o que se tem dito: limitar-me-ei
aqui a acentuar que “escrever a alguém” tornou-se
pura e simplesmente “escrever”. Ora não
se pode escrever a verdade e basta: é absolutamente
necessário escrevê-la a “alguém” que
possa tirar partido dela. O conhecimento da verdade é um
processo comum aos que lêem e aos que escrevem. Para
dizer boas coisas, é preciso ouvir bem e ouvir boas
coisas. A verdade deve ser pesada por quem a diz e por quem
a ouve. E para nós que escrevemos, é essencial
saber a quem a dizemos e quem no-la diz.
Devemos dizer a verdade sobre um mau estado de coisas àqueles
que o consideram o pior estado de coisas, e é desses
que devemos aprender a verdade. Devemos não só dirigir-nos às
pessoas que têm uma certa opinião, mas também
aos que ainda a não têm e deviam tê-la,
ditada pela sua própria situação. Os nossos
auditores transformam-se continuamente! Até se pode
falar com os próprios carrascos quando o prêmio
dos enforcamentos deixa de ser pago pontualmente ou o perigo
de estar com os assassinos se torna muito grande. Os camponeses
da Baviera não costumam querer nada com revoluções,
mas quando as guerras duram demais e os seus filhos, no regresso,
não arranjam trabalho nas quintas, tem sido possível
ganhá-los para a revolução.
Para quem escreve, é importante saber encontrar o tom
da verdade. Um acento suave, lamentoso, de quem é incapaz
de fazer mal a uma mosca, não serve. Quem, estando na
miséria, ouve tais lamúrias, sente-se ainda mais
miserável. Em nada o anima a cantilena dos que, não
sendo seus inimigos, não são certamente seus
companheiros de luta. A verdade é guerreira, não
combate só a mentira, mas certos homens bem determinados
que a propagam.
5. Habilidade para difundir a verdade
Muitos, orgulhosos de ter a coragem de dizer a verdade, contentes
por a terem encontrado, porventura fatigados com o esforço
necessário para lhe dar uma forma manejável,
aguardam impacientemente que aqueles cujos interesses defendem
a tomem em suas mãos e consideram desnecessário
o uso de manhas e estratagemas para a difundir. Freqüentemente, é assim
que perdem todo o fruto do seu trabalho. Em todos os tempos,
foi necessário recorrer a “truques” para
espalhar a verdade, quando os poderosos se empenhavam em abafá-la
e ocultá-la. Confúcio falsificou um velho calendário
histórico nacional, apenas lhe alterando algumas palavras.
Quando o texto dizia: “o senhor de Kun condenou à morte
o filósofo Wan por ter dito frito e cozido”, Confúcio
substituía “condenou à morte” por “assassinou”.
Quando o texto dizia que o Imperador Fulano tinha sucumbido
a um atentado, escrevia “foi executado”. Com este
processo, Confúcio abriu caminho a uma nova concepção
da história.
Na nossa época, aquele que em vez de “povo”,
diz “população”, e em lugar de “terra”,
fala de “latifúndio”, evita já muitas
mentiras, limpando as palavras da sua magia de pacotilha. A
palavra “povo” exprime uma certa unidade e sugere
interesses comuns; a “população” de
um território tem interesses diferentes e opostos. Da
mesma forma, aquele que fala em “terra” e evoca
a visão pastoral e o perfume dos campos favorece as
mentiras dos poderosos, porque não fala do preço
do trabalho e das sementes, nem no lucro que vai parar aos
bolsos dos ricaços das cidades e não aos dos
camponeses que se matam a tornar fértil o “paraíso”. “Latifúndio” é a
expressão justa: torna a aldravice menos fácil.
Nos lugares onde reina a opressão, deve-se escolher,
em vez de “disciplina”, a palavra “obediência”,
já que mesmo sem amos e chefes a disciplina é possível,
e caracteriza-se portanto por algo de mais nobre que a obediência.
Do mesmo modo, “dignidade humana” vale mais do
que “honra”: com a primeira expressão o
indivíduo não desaparece tão facilmente
do campo visual; por outro lado, conhece-se de ginjeira o gênero
de canalha que costuma apresentar-se para defender a honra
de um povo, e com que prodigalidade os gordos desonrados distribuem “honrarias” pelos
famélicos que os engordam.
Ao substituir avaliações inexatas de acontecimentos
nacionais por notações exatas, o método
de Confúcio ainda hoje é aplicável. Lenin,
por exemplo, ameaçado pela polícia do czar, quis
descrever a exploração e a opressão da
ilha Sakalina pela burguesia russa. Substituiu “Rússia” por “Japão” e “Sakalina” por “Coréia”.
Os métodos da burguesia japonesa faziam lembrar a todos
os leitores os métodos da burguesia russa em Sakalina,
mas a brochura não foi proibida, porque o Japão
era inimigo da Rússia. Muitas coisas que não
podem ser ditas na Alemanha a propósito da Alemanha,
podem sê-lo a propósito da Áustria. Há muitas
maneiras de enganar um Estado vigilante.
Voltaire combateu a fé da Igreja nos milagres, escrevendo
um poema libertino sobre a Donzela de Orleans, no qual são
descritos os milagres que sem dúvida foram necessários
para Joana d’Arc permanecer virgem no exército,
na Corte e no meio dos frades.
Pela elegância do seu estilo e a descrição
de aventuras galantes inspiradas na vida relaxada das classes
dirigentes, levou estas a sacrificar uma religião que
lhes fornecia os meios de levar essa vida dissoluta. Mais e
melhor deu assim às suas obras a possibilidade de atingir
por vias ilegais aqueles a quem eram destinadas. Os poderosos
que Voltaire contava entre os seus leitores favoreciam ou toleravam
a difusão dos livros proibidos, e desse modo sacrificavam
a polícia que protegia os seus prazeres. E o grande
Lucrécio sublinha expressamente que, para propagar o
ateísmo epicurista confiava muito na beleza dos seus
versos.
Não há dúvida de que um alto nível
literário pode servir de salvo-conduto à expressão
de uma idéia. Contudo, muitas vezes desperta suspeitas.
Então, pode ser indicado baixá-lo intencionalmente. É o
que acontece, por exemplo, quando sob a forma desprezada do
romance policial, se introduz à socapa, em lugares discretos,
a descrição dos males da sociedade. O grande
Shakespeare baixou o seu nível por considerações
bem mais fracas, quando tratou com uma voluntária ausência
de vigor o discurso com que a mãe de Coriolano tentou
travar o filho, que marchava sobre Roma: Shakespeare pretendia
que Coriolano desistisse do seu projeto, não por causa
de razões sólidas ou de uma emoção
profunda, mas por uma certa fraqueza de caráter que
o entregava aos seus velhos hábitos. Encontramos igualmente
em Shakespeare um modelo de manhas na difusão da verdade:
o discurso de Marco Antônio perante o corpo de César,
quando repete com insistência que Brutus, assassino de
César, é um homem honrado, descrevendo ao mesmo
tempo o seu ato, e a descrição do ato provoca
mais impressão que a do autor.
Jonathan Swift propôs numa das suas obras o seguinte
meio de garantir o bem-estar da Irlanda: meter em salmoura
os filhos dos pobres e vendê-los como carniça
no talho. Através de minuciosos cálculos, provava
que se podem fazer grandes economias quando não se recua
diante de nada. Swift armava voluntariamente em imbecil, defendendo
uma maneira de pensar abominável e cuja ignomínia
saltava aos olhos de todos. O leitor podia-se mostrar mais
inteligente, ou pelo menos mais humano que Swift, sobretudo
aquele que ainda não tinha pensado nas conseqüências
decorrentes de certas concepções.
São consideradas baixas as atividades úteis aos
que são mantidos no fundo da escala: a preocupação
constante pela satisfação de necessidades; o
desdém pelas honrarias com que procuram engodar os que
defendem o país onde morrem de fome; a falta de confiança
no chefe quando o chefe nos leva a todos à catástrofe;
a falta de gosto pelo trabalho quando ele não alimenta
o trabalhador; o protesto contra a obrigação
de ter um comportamento de idiotas; a indiferença para
com a família, quando de nada serve a gente interessar-se
por ela. Os esfomeados são acusados de gulodice; os
que não têm nada a defender, de covardia; os que
duvidam dos seus opressores, de duvidar da sua própria
força; os que querem receber a justa paga pelo seu trabalho,
de preguiça, etc.
Numa época como a nossa, os governos que conduzem as
massas humanas à miséria, têm de evitar
que nessa miséria se pense no governo, e por isso estão
sempre a falar em fatalidade. Quem procura as causas do mal,
vai parar à prisão antes que a sua busca atinja
o governo. Mas é sempre possível opormo-nos à conversa
fiada sobre a fatalidade: pode-se mostrar, em todas as circunstâncias,
que a fatalidade do homem é obra de outros homens. Até na
descrição de uma paisagem se pode chegar a um
resultado conforme à verdade, quando se incorporam à natureza
as coisas criadas pelo homem.
Recapitulação
A grande verdade da nossa época (só seu conhecimento
em nada nos faz avançar, mas sem ela não se pode
alcançar nenhuma outra verdade importante) é que
o nosso continente se afunda na barbárie porque nele
se mantêm pela violência determinadas relações
de propriedade dos meios de produção. De que
serve escrever frases corajosas mostrando que é bárbaro
o estado de coisas em que nos afundamos (o que é verdade),
se a razão de termos caído nesse estado não
se descortina com clareza? É nossa obrigação
dizer que, se se tortura, é para manter as relações
de propriedade. Claro que ao dizermos isso perdemos muitos
amigos; aqueles que são contra a tortura porque julgam
ser possível manter sem ela as relações
de propriedade (o que é falso).
Devemos dizer a verdade sobre as condições bárbaras
que reinam no nosso país a fim de tornar possível
a ação que as fará desaparecer, isto é,
que transformará as relações de propriedade.
Devemos dizê-la aos que mais sofrem com as relações
de propriedade e estão mais interessados na sua transformação,
ou seja: aos operários e aos que podemos levar a aliarem-se
com eles, por não serem proprietários dos meios
de produção, embora associados aos lucros e benefícios
da exploração de quem produz. E, é claro,
devemos proceder com astúcia.
Devemos resolver em conjunto, e ao mesmo tempo, estas cinco
dificuldades, já que não podemos procurar a verdade
sobre condições bárbaras sem pensar nos
que sofrem essas condições e estão dispostos
a utilizar esse conhecimento. Além disso, temos de pensar
em apresentar-lhes a verdade sob uma forma susceptível
de se transformar numa arma nas suas mãos, e simultaneamente
com a astúcia suficiente para que a operação
não seja descoberta e impedida pelo inimigo.
São estas as virtudes exigidas ao escritor empenhado
em dizer a verdade.
O sermão da sexagésima (1655)
Padre Antônio Vieira
Semen est verbum Dei.
S. Lucas, VIII, 11.
I
E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão
numeroso auditório saísse hoje tão desenganado
da pregação, como vem enganado com o pregador!
Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do
caso que me levou e trouxe de tão longe. Ecce exiit
qui seminat, seminare. Diz Cristo que saiu o pregador evangélico
a semear a palavra divina. Bem parece este texto dos livros
de Deus. Não só faz menção do semear,
mas também faz caso do sair: Exiit, porque no dia da
messe hão-nos de medir a semeadura e hão-nos
de contar os passos. O Mundo, aos que lavrais com ele, nem
vos satisfaz o que dispendeis, nem vos paga o que andais. Deus
não é assim. Para quem lavra com Deus até o
sair é semear, porque também das passadas colhe
fruto. Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem
a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem
a semear são os que vão pregar à Índia, à China,
ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que
se contentam com pregar na Pátria. Todos terão
sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm
a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que
vão buscar a seara tão longe, hão-lhes
de medir a semeadura e hão-lhes de contar os passos.
Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis
com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit
seminare.
Mas daqui mesmo vejo que notais (e me notais) que diz Cristo
que o semeador do Evangelho saiu, porém não diz
que tornou porque os pregadores evangélicos, os homens
que professam pregar e propagar a Fé, é bem que
saiam, mas não é bem que tornem. Aqueles animais
de Ezequiel que tiravam pelo carro triunfal da glória
de Deus e significavam os pregadores do Evangelho que propriedades
tinham? Nec revertebantur, cum ambularent: Uma vez que iam,
não tornavam. As rédeas por que se governavam
era o ímpeto do espírito, como diz o mesmo texto:
mas esse espírito tinha impulsos para os levar, não
tinha regresso para os trazer; porque sair para tornar melhor é não
sair. Assim argüis com muita razão, e eu também
assim o digo. Mas pergunto: E se esse semeador evangélico,
quando saiu, achasse o campo tomado; se se armassem contra
ele os espinhos; se se levantassem contra ele as pedras, e
se lhe fechassem os caminhos, que havia de fazer? Todos estes
contrários que digo e todas estas contradições
experimentou o semeador do nosso Evangelho. Começou
ele a semear (diz Cristo), mas com pouca ventura. Uma parte
do trigo caiu entre espinhos, e afogaram- no os espinhos: Aliud
cecidit inter spinas et simul exortae spinae suffocaverunt
illud. Outra parte caiu sobre pedras, e secou-se nas pedras
por falta de humidade: Aliud cecidit super petram, et natum
aruit, quia non habebat humorem. Outra parte caiu no caminho,
e pisaram-no os homens e comeram-no as aves: Aliud cecidit
secus viam, et conculcatum est, et volucres coeli comederunt
illud. Ora vede como todas as criaturas do Mundo se armaram
contra esta sementeira. Todas as criaturas quantas há no
Mundo se reduzem a quatro gêneros: criaturas racionais,
como os homens; criaturas sensitivas, como os animais; criaturas
vegetativas, como as plantas; criaturas insensíveis,
como as pedras; e não há mais. Faltou alguma
destas que se não armasse contra o semeador? Nenhuma.
A natureza insensível o perseguiu nas pedras, a vegetativa
nos espinhos, a sensitiva nas aves, a racional nos homens.
E notai a desgraça do trigo, que onde só podia
esperar razão, ali achou maior agravo. As pedras secaram-no,
os espinhos afogaram-no, as aves comeram-no; e os homens? Pisaram-no:
Conculcatum est. Ab hominibus (diz a Glossa). Quando Cristo
mandou pregar os Apóstolos pelo Mundo, disse-lhes desta
maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae:
Ide, e pregai a toda a criatura. Como assim, Senhor?! Os animais
não são criaturas?! As árvores não
são criaturas?! As pedras não são criaturas?!
Pois hão os Apóstolos de pregar às pedras?!
Hão-de pregar aos troncos?! Hão-de pregar aos
animais?! Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho.
Porque como os Apóstolos iam pregar a todas as nações
do Mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de
achar os homens degenerados em todas as espécies de
criaturas: haviam de achar homens homens, haviam de achar homens
brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens
pedras. E quando os pregadores evangélicos vão
pregar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as
criaturas?! Grande desgraça! Mas ainda a do semeador
do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a
que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde
venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os
semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo
afogado, trigo comido e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum
aruit, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae
suffocaverunt illud; trigo comido: Volucres caeli comederunt
illud; trigo pisado: Conculcutum est. Tudo isto padeceram os
semeadores evangélicos da missão do Maranhão
de doze anos a esta parte. Houve missionários afogados,
porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas;
houve missionários comidos, porque a outros comeram
os bárbaros na ilha dos Aroãs; houve missionários
mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocatins,
mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando
vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede
com o orvalho que lambia das folhas. Vede se lhe quadra bem
o Notum aruit, quia non habebant humorem! E que sobre mirrados,
sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos
dos homens: Conculcatum est! Não me queixo nem o digo,
Senhor, pelos semeadores; só pela seara o digo, só pela
seara o sinto. Para os semeadores, isto são glórias:
mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados
sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas
por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim,
mas por amor de vós perseguidos e pisados. Agora torna
a minha pergunta: E que faria neste caso, ou que devia fazer
o semeador evangélico, vendo tão mal logrados
seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da
sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha
lá ido? Parece que não. Mas se tornasse muito
depressa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra
das pedras e dos espinhos, seria isto desistir? Seria isto
tornar atrás? -- Não por certo. No mesmo texto
de Ezequiel com que arguistes, temos a prova. Já vimos
como dizia o texto, que aqueles animais da carroça de
Deus, quando iam não tornavam: Nec revertebantur, cum
ambularent. Lede agora dois versos mais abaixo, e vereis que
diz o mesmo texto que aqueles animais tornavam, e semelhança
de um raio ou corisco: Ibant et revertebantur in similitudinem
fulgoris coruscantis. Pois se os animais iam e tornavam à semelhança
de um raio, como diz o texto que quando iam não tornavam?
Porque quem vai e volta como um raio, não torna. Ir
e voltar como raio, não é tornar, é ir
por diante. Assim o fez o semeador do nosso Evangelho. Não
o desanimou nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda;
continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade,
que nesta quarta e última parte do trigo se restauraram
com vantagem as perdas do demais: nasceu, cresceu, espigou,
amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão
multiplicara cento: Et fecit fructum centuplum. Oh que grandes
esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande
exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças
a sementeira porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos,
lograr-se-ão os últimos. Dá-me grande
exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a
segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última,
e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três
partes da vida, já que uma parte da idade a levaram
os espinhos, já que outra parte a levaram es pedras,
já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos,
esta quarta e última parte, este último quartel
da vida, porque se perderá também? Porque não
dará fruto? Porque não terão também
os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo
para os frutos. Porque não terá também
o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras
murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao
tronco e se convertem em fruto, só essas são
as venturosas, só essas são as que aproveitam,
só essas são as que sustentam o Mundo. Será bem
que o Mundo morra à fome? Será bem que os últimos
dias se passem em flores? -- Não será bem, nem
Deus quer que seja, nem há-de ser. Eis aqui porque eu
dizia ao princípio, que vindes enganados com o pregador.
Mas para que possais ir desenganados com o sermão, tratarei
nele uma matéria de grande peso e importância.
Servirá como de prólogo aos sermões que
vos hei-de pregar, e aos mais que ouvirdes esta Quaresma.
II
Semen est verbum Dei.
O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo
que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho
e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações
dos homens. Os espinhos são os corações
embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias;
e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os
corações duros e obstinados; e nestes seca-se
a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes.
Os caminhos são os corações inquietos
e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo,
umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam,
e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus,
porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa
são os corações bons ou os homens de bom
coração; e nestes prende e frutifica a palavra
divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe
cento por um: Et fructum fecit centuplum. Este grande frutificar
da palavra de Deus é o em que reparo hoje; e é uma
dúvida ou admiração que me traz suspenso
e confuso, depois que subo ao púlpito. Se a palavra
de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como
vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo
que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu
me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada
cem sermões se convertera e emendara um homem, já o
Mundo fora santo. Este argumento de fé, fundado na autoridade
de Cristo, se aperta ainda mais na experiência, comparando
os tempos passados com os presentes. Lede as histórias
eclesiásticas, e achá-las-eis todas cheias de
admiráveis efeitos da pregação da palavra
de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudança
de vida, tanta reformação de costumes; os grandes
desprezando as riquezas e vaidades do Mundo; os reis renunciando
os cetros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se
pelos desertos e pelas covas; e hoje? -- Nada disto. Nunca
na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem
tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra
de Deus, como é tão pouco o fruto? Não
há um homem que em um sermão entre em si e se
resolva, não há um moço que se arrependa,
não há um velho que se desengane. Que é isto?
Assim como Deus não é hoje menos onipotente,
assim a sua palavra não é hoje menos poderosa
do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão
poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores,
porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus?
Esta, tão grande e tão importante dúvida,
será a matéria do sermão. Quero começar
pregando-me a mim. A mim será, e também a vós;
a mim, para aprender a pregar; a vós, que aprendais
a ouvir.
III
Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder
de um de três princípios: ou da parte do pregador,
ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma
se converter por meio de um sermão, há-de haver
três concursos: há-de concorrer o pregador com
a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com
o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com
a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo,
são necessárias três coisas: olhos, espelho
e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver
por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite,
não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister
luz, há mister espelho e há mister olhos. Que
coisa é a conversão de uma alma, senão
entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta
vista são necessários olhos, é necessária
luz e é necessário espelho. O pregador concorre
com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a
luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos,
que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão
das almas por meio da pregação depende destes
três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por
qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte,
ou por parte do pregador, ou por parte de Deus? Primeiramente,
por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de
fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso
Evangelho a temos. Do trigo que deitou à terra o semeador,
uma parte se logrou e três se perderam. E porque se perderam
estas três? A primeira perdeu-se, porque a afogaram os
espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira,
porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto é o
que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não
diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do
sol ou da chuva. A causa por que ordinariamente se perdem as
sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança
dos tempos, ou porque falta ou sobeja a chuva, ou porque falta
ou sobeja o sol. Pois porque não introduz Cristo na
parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por
causa do sol ou da chuva? -- Porque o sol e a chuva são
as afluências da parte do Céu, e deixar de frutificar
a semente da palavra de Deus, nunca é por falta: do
Céu, sempre é por culpa nossa. Deixará de
frutificar a sementeira, ou pelo embaraço dos espinhos,
ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos;
mas por falta das influências do Céu, isso nunca é nem
pode ser. Sempre Deus está pronto da sua parte, com
o sol para aquentar e com a chuva para regar; com o sol para
alumiar e com a chuva para amolecer, se os nossos corações
quiserem: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos,
et pluit super justos et injustos. Se Deus dá o seu
sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem
fazer bons, como a negará? Este ponto é tão
claro que não há para que nos determos em mais
prova. Quid debui facere vineae meae, et non feci? - disse
o mesmo Deus por Isaías. Sendo, pois, certo que a palavra
divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se
que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes.
Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes,
mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes,
não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas
não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por
parte dos ouvintes. Provo. Os ouvintes ou são maus ou
são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra
de Deus; se são maus, ainda que não faça
neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que
caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae
suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também,
mas secou-se: Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa,
nasceu e frutificou com grande multiplicação:
Et natum fecit fructum centuplum. De maneira que o trigo que
caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na
má terra, não frutificou, mas nasceu; porque
a palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz
muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda
que não faça fruto, faz efeito; lançada
nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos
espinhos; lançada nas pedras, não frutificou,
mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na
Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos. E porquê?
- Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de
entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são
os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos
são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir
sutilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às
vezes também a picar a quem os não pica. Aliud
cecidit inter spinas: O trigo não picou os espinhos,
antes os espinhos o picaram a ele; e o mesmo sucede cá.
Cuidais que o sermão vos picou e vós, e não é assim;
vós sois os que picais o sermão. Por isto são
maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os de vontades
endurecidas ainda são piores, porque um entendimento
agudo pode ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza
com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa
aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas
são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam
na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda
são piores que as pedras! A vara de Moisés abrandou
as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida:
Percutiens virga bis silicem, et egressae sunt aquae largissimae.
Induratum est cor Pharaonis. E com os ouvintes de entendimentos
agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais
rebeldes, é tanta a força da divina palavra,
que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza
nasce nas pedras. Pudéramos arguir ao lavrador do Evangelho
de não cortar os espinhos e de não arrancar as
pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo
as pedras e os espinhos, para que se visse a força do
que semeava. E tanta a força da divina palavra, que,
sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. É tanta
a força da divina palavra, que, sem arrancar nem abrandar
pedras, nasce nas pedras. Corações embaraçados
como espinhos corações secos e duros como pedras,
ouvi a palavra de Deus e tende confiança! Tomai exemplo
nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas
pedras agora resistem ao semeador do Céu; mas virá tempo
em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos
o coroem. Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo
deste Mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações,
e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra
de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa; se a
palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos
nasce; não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de
Deus, nem nascer nos corações, não é por
culpa, nem por indisposição dos ouvintes. Supostas
estas duas demonstrações; suposto que o fruto
e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte
de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por conseqüência
clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis,
cristãos, por que não faz fruto a palavra de
Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, por que
não faz fruto a palavra de Deus? - Por culpa nossa.
IV
Mas como em um pregador há tantas qualidades, e em uma
pregação tantas leis, e os pregadores podem ser
culpados em todas, em qual consistirá esta culpa? -
No pregador podem-se considerar cinco circunstâncias:
a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz.
A pessoa que é, e ciência que tem, a matéria
que trata, o estilo que segue, a voz com que fala. Todas estas
circunstâncias temos no Evangelho. Vamo-las examinando
uma por uma e buscando esta causa. Será porventura o
não fazer fruto hoje a palavra de Deus, pela circunstância
da pessoa? Será porque antigamente os pregadores eram
santos, eram varões apostólicos e exemplares,
e hoje os pregadores são eu e outros como eu? - Boa
razão é esta. A definição do pregador é a
vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o
comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai.
Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão,
saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare.
Entre o semeador e o que semeia há muita diferença.
Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma
coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma
maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia;
uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador
e o pregador é nome; o que saneia e o que prega é ação;
e as ações são as que dão o ser
ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome,
não importa nada; as ações, a vida, o
exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo. O melhor
conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais
que é? - o conceito que de sua vida têm os ouvintes.
Antigamente convertia-se o Mundo, hoje por que se não
converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos,
antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra
são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. A
funda de Davi derrubou o gigante, mas não o derrubou
com o estalo, senão com a pedra: Infixus est lapis in
fronte ejus. As vozes da harpa de Davi lançavam fora
os demônios do corpo de Saul, mas não eram vozes
pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão:
David tollebat citharam, et percutiebat manu sua. Por isso
Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar que é falar
faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com
a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar
ao coração, são necessárias obras.
Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por
um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram
em palavras? -- Não. Quer dizer que de poucas palavras
nasceram muitas obras. Pois palavras que frutificam obras,
vede se podem ser só palavras! Quis Deus converter o
Mundo, e que fez? -- Mandou ao Mundo seu Filho feito homem.
Notai. O Filho de Deus, enquanto Deus, é palavra de
Deus, não é obra de Deus: Genitum non factum.
O Filho de Deus, enquanto Deus e Homem, é palavra de
Deus e obra de Deus juntamente: Verbum caro factum est. De
maneira que até de sua palavra desacompanhada de obras
não fiou Deus a conversão dos homens. Na união
da palavra de Deus com a maior obra de Deus consistiu a eficácia
da salvação do Mundo. Verbo Divino é palavra
divina; mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas,
se forem desacompanhadas de obras. A razão disto é porque
as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram
pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma
rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos. No Céu
ninguém há que não ame a Deus, nem possa
deixar de o amar. Na terra há tão poucos que
o amem, todos o ofendem. Deus não é o mesmo,
e tão digno de ser amado no Céu e na Terra? Pois
como no Céu obriga e necessita a todos a o amarem, e
na terra não? A razão é porque Deus no
Céu é Deus visto; Deus na terra é Deus
ouvido. No Céu entra o conhecimento de Deus à alma
pelos olhos: Videbimus eum sicut est; na terra entra-lhe o
conhecimento de Deus pelos ouvidos: Fides ex auditu; e o que
entra pelos ouvidos crê-se, o que entra pelos olhos necessita.
Viram os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós,
e o abalo e os efeitos do sermão seriam muito outros.
Vai um pregador pregando a Paixão, chega ao pretório
de Pilatos, conta como a Cristo o fizeram rei de zombaria,
diz que tomaram uma púrpura e lha puseram aos ombros;
ouve aquilo o auditório muito atento. Diz que teceram
uma coroa de pinhos e que lha pregaram na cabeça; ouvem
todos com a mesma atenção. Diz mais que lhe ataram
as mãos e lhe meteram nelas uma cana por ceptro; continua
o mesmo silêncio e a mesma suspensão nos ouvintes.
Corre-se neste espaço uma cortina aparece a imagem do
Ecce Homo; eis todos prostrados por terra, eis todos a bater
no peito eis as lágrimas, eis os gritos, eis os alaridos,
eis as bofetadas. Que é isto? Que apareceu de novo nesta
igreja? Tudo o que descobriu aquela cortina, tinha já dito
o pregador. Já tinha dito daquela púrpura, já tinha
dito daquela coma e daqueles espinhos, já tinha dito
daquele cetro e daquela cana. Pois se isto então não
fez abalo nenhum, como faz agora tanto? -- Porque então
era Ecce Homo ouvido, e agora é Ecce Homo visto; a relação
do pregador entrava pelos ouvidos a representação
daquela figura entra pelos olhos. Sabem, Padres pregadores,
porque fazem pouco abalo os nossos sermões? -- Porque
não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos.
Porque convertia o Baptista tantos pecadores? -- Porque assim
como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava
aos olhos. As palavras do Baptista pregavam penitência:
Agite poenitentiam. Homens, fazei penitência -- e o exemplo
clamava: Ecce Homo;eis aqui está o homem que é o
retrato da penitência e da aspereza. As palavras do Baptista
pregavam jejum e repreendiam os regalos e demasias da gula;
e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem
que se sustenta de gafanhotos e mel silvestre. As palavras
do Baptista pregavam composição e modéstia,
e condenavam a soberba e a vaidade das galas; e o exemplo clamava:
Ecce Homo: eis aqui está o homem vestido de peles de
camelo, com as cordas e cilício à raiz da carne.
As palavras do Baptista pregavam despegos e retiros do Mundo,
e fugir das ocasiões e dos homens; e o exemplo clamava:
Ecce Homo: eis aqui o homem que deixou as cortes e as sociedades,
e vive num deserto e numa cova. Se os ouvintes ouvem uma coisa
e vêem outra, como se hão-de converter? Jacob
punha as varas manchadas diante das ovelhas quando concebiam,
e daqui procedia que os cordeiros nasciam malhados. Se quando
os ouvintes percebem os nossos conceitos, têm diante
dos olhos as nossas manchas, como hão-de conceber virtudes?
Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina,
se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas
obras, se uma cousa é o semeador e outra o que semeia,
como se há-de fazer fruto? Muito boa e muito forte razão
era esta de não fazer fruto a palavra de Deus; mas tem
contra si o exemplo e experiência de Jonas. Jonas fugitivo
de Deus, desobediente, contumaz, e, ainda depois de engolido
e vomitado iracundo, impaciente, pouco caritativo, pouco misericordioso,
e mais zeloso e amigo da própria estimação
que da honra de Deus e salvação das almas, desejoso
de ver subvertida a Nínive e de a ver subverter com
seus olhos, havendo nela tantos mil inocentes; contudo este
mesmo homem com um sermão converteu o maior rei, a maior
corte e o maior reinado do Mundo, e não de homens fiéis
senão de gentios idólatras. Outra é logo
a causa que buscamos. Qual será?
V
Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos?
Um estilo tão empeçado, um estilo tão
dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão
encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também
esta. O estilo há-de ser muito fácil e muito
natural. Por isso Cristo comparou o pregar ao semear: Exiit,
qui seminat, seminare. Compara Cristo o pregar ao semear, porque
o semear é uma arte que tem mais de natureza que de
arte. Nas outras artes tudo é arte: na música
tudo se faz por compasso, na arquitetura tudo se faz por regra,
na aritmética tudo se faz por conta, na geometria tudo
se faz por medida. O semear não é assim. É uma
arte sem arte caia onde cair. Vede como semeava o nosso lavrador
do Evangelho. Caía o trigo nos espinhos e nascia; Aliud
cecidit inter spinas, et simul exortae spinae ;caía
o trigo nas pedras e nascia: Aliud cecidit super petram, et
ortum ;caía o trigo na terra boa e nascia: Aliud cecidit
in terram bonam, et natum. Ia o trigo caindo e ia nascendo.
Assim há-de ser o pregar. Hão-de cair as coisas
hão-de nascer; tão naturais que vão caindo,
tão próprias que venham nascendo. Que diferente é o
estilo violento e tirânico que hoje se usa! Ver vir os
tristes passos da Escritura, como quem vem ao martírio;
uns vêm acarretados, outros vêm arrastados, outros
vêm estirados, outros vêm torcidos, outros vêm
despedaçados; só atados não vêm!
Há tal tirania? Então no meio disto, que bem
levantado está aquilo! Não está a coisa
no levantar, está no cair: Cecidit. Notai uma alegoria
própria da nossa língua. O trigo do semeador,
ainda que caiu quatro vezes, só de três nasceu;
para o sermão vir nascendo, há-de ter três
modos de cair: há-de cair com queda, há-de cair
com cadência há-de cair com caso. A queda é para
as coisas, a cadência para as palavras, o caso para a
disposição. A queda é para as coisas porque
hão-de vir bem trazidas e em seu lugar; hão-de
ter queda. A cadência é para as palavras, porque
não hão-de ser escabrosas nem dissonantes; hão-de
ter cadência. O caso é para a disposição,
porque há-de ser tão natural e tão desafectada
que pareça caso e não estudo: Cecidit, cecidit,
cecidit. Já que falo contra os estilos modernos, quero
alegar por mim o estilo do mais antigo pregador que houve no
Mundo. E qual foi ele? - O mais antigo pregador que houve no
Mundo foi o céu. Coeli enarrant gloriam Dei et opera
manuum ejus annuntiat Firmamentum - diz David. Suposto que
o céu é pregador, deve de ter sermões
e deve de ter: palavras. Sim, tem, diz o mesmo David; tem palavras
e tem sermões; e mais, muito bem ouvidos. Non sunt loquellae,
nec sermones, quorum non audiantur voces eorum. E quais são
estes sermões e estas palavras do céu? -- As
palavras são as estrelas, os sermões são
a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas.
Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo
que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a
terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O
pregar há-de ser como quem semeia, e não como
quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas: Stellae
manentes in ordine suo. Todas as estrelas estão por
sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem
que faça lavor. Não fez Deus o céu em
xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão
em xadrez de palavras. Se de uma parte há-de estar branco,
da outra há-de estar negro; se de uma parte dizem luz,
da outra hão-de dizer sombra; se de uma parte dizem
desceu, da outra hão-de dizer subiu. Basta que não
havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas
hão-de estar sempre em fronteira com o seu contrário?
Aprendamos do céu o estilo da disposição,
e também o das palavras. As estrelas são muito
distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da
pregação; muito distinto e muito claro. E nem
por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas
são muito distintas e muito claras, e altíssimas.
O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro
que o entendam os que não sabem e tão alto que
tenham muito que entender os que sabem. O rústico acha
documentos nas estrelas para sua lavoura e o mareante para
sua navegação e o matemático para as suas
observações e para os seus juízos. De
maneira que o rústico e o mareante, que não sabem
ler nem escrever entendem as estrelas; e o matemático,
que tem lido quantos escreveram, não alcança
a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão:
-- estrelas que todos vêem, e muito poucos as medem.
Sim, Padre; porém esse estilo de pregar não é pregar
culto. Mas fosse! Este desventurado estilo que hoje se usa,
os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam
chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo
culto não é escuro, é negro, e negro boçal
e muito cerrado. E possível que somos portugueses e
havemos de ouvir um pregador em português e não
havemos de entender o que diz?! Assim como há Lexicon
para o grego e Calepino para o latim, assim é necessário
haver um vocabulário do púlpito. Eu ao menos
o tomara para os nomes próprios, porque os cultos têm
desbatizados os santos, e cada autor que alegam é um
enigma. Assim o disse o Ceptro Penitente, assim o disse o Evangelista
Apeles, assim o disse a Águia de África, o Favo
de Claraval, a Púrpura de Belém, a Boca de Ouro.
Há tal modo de alegar! O Cetro Penitente dizem que é David,
como se todos os ceptros não foram penitência;
o Evangelista Apeles, que é S. Lucas; o Favo de Claraval,
S. Bernardo; a Águia de África, Santo Agostinho;
a Púrpura de Belém, S. Jerônimo; a Boca
de Ouro, S. Crisóstomo. E quem quitaria ao outro cuidar
que a Púrpura de Belém é Herodes que a Águia
de África é Cipião, e que a Boca de Ouro é Midas?
Se houvesse um advogado que alegasse assim a Bártolo
e Baldo, havíeis de fiar dele o vosso pleito? Se houvesse
um homem que assim falasse na conversação, não
o havíeis de ter por néscio? Pois o que na conversação
seria necessidade, como há-de ser discrição
no púlpito? Boa me parecia também esta razão;
mas como os cultos pelo pulido e estudado se defendem com o
grande Nazianzeno, com Ambrósio, com Crisólogo,
com Leão, e pelo escuro e duro com Clemente Alexandrino,
com Tertuliano, com Basílio de Selêucia, com Zeno
Veronense e outros, não podemos negar a reverência
a tamanhos autores posto que desejáramos nos que se
prezam de beber destes rios, a sua profundidade. Qual será logo
a causa de nossa queixa?
VI
Será pela matéria ou matérias que tomam
os pregadores? Usa-se hoje o modo que chamam de apostilar o
Evangelho, em que tomam muitas matérias, levantam muitos
assuntos e quem levanta muita caça e não segue
nenhuma não é muito que se recolha com as mãos
vazias. Boa razão é também esta. O sermão
há-de ter um só assunto e uma só matéria.
Por isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não
semeara muitos gêneros de sementes, senão uma
só: Exiit, qui seminat, seminare semen. Semeou uma semente
só, e não muitas, porque o sermão há-de
ter uma só matéria, e não muitas matérias.
Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara
centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo,
e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata
brava, uma confusão verde. Eis aqui o que acontece aos
sermões deste gênero. Como semeiam tanta variedade,
não podem colher coisa certa. Quem semeia misturas,
mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte,
outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como
poderia fazer viagem? Por isso nos púlpitos se trabalha
tanto e se navega tão pouco. Um assunto vai para um
vento, outro assunto vai para outro vento; que se há-de
colher senão vento? O Batista convertia muitos em Judéia;
mas quantas matérias tomava? Uma só matéria:
Parate viam Domini: a preparação para o Reino
de Cristo. Jonas converteu os Ninivitas; mas quantos assuntos
tomou? Um só assunto: Adhuc quadraginta dies, et Ninive
subvertetur: a subversão da cidade. De maneira que Jonas
em quarenta dias pregou um só assunto; e nós
queremos pregar quarenta assuntos em uma hora? Por isso não
pregamos nenhum. O sermão há-de ser de uma só cor,
há-de ter um só objecto, um só assunto,
uma só matéria. Há-de tomar o pregador
uma só matéria; há-de defini-la, para
que se conheça; há-de dividi-la, para que se
distinga; há-de prová-la com a Escritura; há-de
declará-la com a razão; há-de confirmá-la
com o exemplo; há-de amplificá-la com as causas,
com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências
que se hão-de seguir, com os inconvenientes que se devem
evitar; há-de responder às dúvidas, há-de
satisfazer às dificuldades; há-de impugnar e
refutar com toda a força da eloquência os argumentos
contrários; e depois disto há-de colher, há-de
apertar, há-de concluir, há-de persuadir, há-de
acabar. Isto é sermão, isto é pregar;
e o que não é isto, é falar de mais alto.
Não nego nem quero dizer que o sermão não
haja de ter variedade de discursos, mas esses hão-de
nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela.
Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede. Uma árvore
tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas,
tem flores, tem frutos. Assim há-de ser o sermão:
há-de ter raízes fortes e sólidas, porque
há-de ser fundado no Evangelho; há- de ter um
tronco, porque há-de ter um só assunto e tratar
uma só matéria; deste tronco hão-de nascer
diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos
da mesma matéria e continuados nela; estes ramos hão-de
ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos
hão-de ser vestidos e ornados de palavras. Há-
de ter esta árvore varas, que são a repreensão
dos vícios; há-de ter flores, que são
as sentenças; e por remate de tudo, há-de ter
frutos, que é o fruto e o fim a que se há-de
ordenar o sermão. De maneira que há-de haver
frutos, há-de haver flores, há-de haver varas,
há-de haver folhas, há-de haver ramos; mas tudo
nascido e fundado em um só tronco, que é uma
só matéria. Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira.
Se tudo são ramos, não é sermão,
são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão,
são versas. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe.
Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete.
Serem tudo frutos, não pode ser; porque não há frutos
sem árvore. Assim que nesta árvore, à que
podemos chamar árvore da vida; há- de haver o
proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas,
o vestido das folhas, o estendido dos ramos; mas tudo isto
nascido e formado de um só tronco e esse não
levantado no ar, senão fundado nas raízes do
Evangelho: Seminare semen. Eis aqui como hão-de ser
os sermões, eis aqui como não são. E assim
não é muito que se não faça fruto
com eles. Tudo o que tenho dito pudera demonstrar largamente,
não só com os preceitos dos Aristóteles,
dos Túlios, dos Quintilianos, mas com a prática
observada do príncipe dos oradores evangélicos,
S. João Crisóstomo, de S. Basílio Magno,
S. Bernardo. S. Cipriano, e com as famosíssimas orações
de S. Gregório Nazianzeno, mestre de ambas as Igrejas.
E posto que nestes mesmos Padres, como em Santo Agostinho,
S. Gregório e muitos outros, se acham os Evangelhos
apostilados com nomes de sermão e homilias, uma coisa é expor,
e outra pregar; uma ensinar e outra persuadir, desta última é que
eu falo, com a qual tanto fruto fizeram no mundo Santo Antônio
de Pádua e S. Vicente Ferrer. Mas nem por isso entendo
que seja ainda esta a verdadeira causa que busco.
VII
Será porventura a falta de ciência que há em
muitos pregadores? Muitos pregadores há que vivem do
que não colheram e semeiam o que não trabalharam.
Depois da sentença de Adão, a terra não
costuma dar fruto, senão a quem come o seu pão
com o suor do seu rosto. Boa razão parece também
esta. O pregador há-de pregar o seu, e não o
alheio. Por isso diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho
o trigo seu: Semen suum. Semeou o seu, e não o alheio,
porque o alheio e, o furtado não é bom para semear,
ainda que o furto seja de ciência. Comeu Eva o pomo da
ciência, e queixava-me eu antigamente desta nossa mãe;
já que comeu o pomo, por que lhe não guardou
as pevides? Não seria bem que chegasse a nós
a árvore, já que nos chegaram os encargos dela?
Pois por que não o fez assim Eva? Porque o pomo era
furtado, e o alheio é bom para comer, mas não é bom
para semear: é bom para comer, porque dizem que é saboroso;
não é bom para semear, porque não nasce.
Alguém terá experimentado que o alheio lhe nasce
em casa, mas esteja certo, que se nasce, não há-de
deitar raízes, e o que não tem raízes
não pode dar fruto. Eis aqui por que muitos pregadores
não fazem fruto; porque pregam o alheio, e não
o seu: Semen suum. O pregar é entrar em batalha com
os vícios; e armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles,
a ninguém deram vitória. Quando Davi saiu a campo
com o gigante, ofereceu-lhe Saul as suas armas, mas ele não
as quis aceitar. Com armas alheias ninguém pode vencer,
ainda que seja Davi. As armas de Saul só servem a Saul,
e as de Davi a Davi; e mais aproveita um cajado e uma funda
própria, que a espada e a lança alheia. Pregador
que peleja com as armas alheias, não hajais medo que
derrube gigante. Fez Cristo aos Apóstolos pescadores
de homens, que foi ordená-los de pregadores; e que faziam
os Apóstolos? Diz o texto que estavam: Reficientes retia
sua: Refazendo as redes suas; eram as redes dos Apóstolos,
e não eram alheias. Notai: Retia sua: Não diz
que eram suas porque as compraram, senão que eram suas
porque as faziam; não eram suas porque lhes custaram
o seu dinheiro, senão porque lhes custavam o seu trabalho.
Desta maneira eram as redes suas; e porque desta maneira eram
suas, por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar
homens. Com redes alheias, ou feitas por mão alheia,
podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar.
A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos
só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço.
Como se faz uma rede? Do fio e do nó se compõe
a malha; quem não enfia nem ata, como há-de fazer
rede? E quem não sabe enfiar nem sabe atar, como há-de
pescar homens? A rede tem chumbada que vai ao fundo, e tem
cortiça que nada em cima da água. A pregação
tem umas coisas de mais peso e de mais fundo, e tem outras
mais superficiais e mais leves; e governar o leve e o pesado,
só o sabe fazer quem faz a rede. Na boca de quem não
faz a pregação, até o chumbo é cortiça.
As razões não hão-de ser enxertadas, hão-de
ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões
próprias nascem do entendimento, as alheias vão
pegadas à memória, e os homens não se
convencem pela memória, senão pelo entendimento.
Veio o Espírito Santo sobre os Apóstolos, e quando
as línguas desciam do Céu, cuidava eu que se
lhes haviam de pôr na boca; mas elas foram-se pôr
na cabeça. Pois por que na cabeça e não
na boca, que é o lugar da língua? Porque o que
há-de dizer o pregador, não lhe há-de
sair só da boca; há-lhe de sair pela boca, mas
da cabeça. O que sai só da boca pára nos
ouvidos; o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento.
Ainda tem mais mistério estas línguas do Espírito
Santo. Diz o texto que não se puseram todas as línguas
sobre todos os Apóstolos, senão cada uma sobre
cada um: Apparuerunt dispertitae linguae tanquam ignis, seditque
supra singulos eorum. E por que cada uma sobre cada um, e não
todas sobre todos? Porque não servem todas as línguas
a todos, senão a cada um a sua. Uma língua só sobre
Pedro, porque a língua de Pedro não serve a André;
outra língua só sobre André, porque a
língua de André não serve a Filipe; outra
língua só sobre Filipe, porque a língua
de Filipe não serve a Bartolomeu, e assim dos mais.
E senão vede-o no estilo de cada um dos Apóstolos,
sobre que desceu o Espírito Santo. Só de cinco
temos escrituras; mas a diferença com que escreveram,
como sabem os doutos, é admirável. As penas todas
eram tiradas das asas daquela pomba divina; mas o estilo tão
diverso, tão particular e tão próprio
de cada um, que bem mostra que era seu. Mateus fácil,
João misterioso, Pedro grave, Jacob forte, Tadeu sublime,
e todos com tal valentia no dizer, que cada palavra era um
trovão, cada cláusula um raio e cada razão
um triunfo. Ajuntai a estes cinco S. Lucas e S. Marcos, que
também ali estavam, e achareis o número daqueles
sete trovões que ouviu S. João no Apocalipse.
Loquuti sunt septem tonitrua voces suas. Eram trovões
que falavam e desarticulavam as vozes, mas essas vozes eram
suas: Voces suas; suas, e não alheias, como notou Ansberto:
Non alienas, sed suas. Enfim, pregar o alheio é pregar
o alheio, e com o alheio nunca se fez coisa boa. Contudo eu
não me firmo de todo nesta razão, porque do grande
Batista sabemos que pregou o que tinha pregado Isaías,
como notou S. Lucas, e não com outro nome, senão
de sermões: Praedicans baptismum poenitentiae in remissionem
peccatorum, sicut scriptum est in libro sermonun Isaiae prophetae.
Deixo o que tomou Santo Ambrósio de S. Basílio;
S. Próspero e Beda de Santo Agostinho; Teofilato e Eutímio
de S. João Crisóstomo.
VIII
Será finalmente a causa, que tanto há buscamos,
a voz com que hoje falam os pregadores? Antigamente pregavam
bradando, hoje pregam conversando. Antigamente a primeira parte
do pregador era boa voz e bom peito. E verdadeiramente, como
o mundo se governa tanto pelos sentidos, podem às vezes
mais os brados que a razão. Boa era também esta,
mas não a podemos provar com o semeador, porque já dissemos
que não era ofício de boca. Porém o que
nos negou o Evangelho no semeador metafórico, nos deu
no semeador verdadeiro, que é Cristo. Tanto que Cristo
acabou a parábola, diz o Evangelho que começou
o Senhor a bradar: Haec dicens clamabat. Bradou o Senhor, e
não arrazoou sobre a parábola, porque era tal
o auditório, que fiou mais dos brados que da razão.
Perguntaram ao Batista quem era? Respondeu ele: Ego vox clamantis
in deserto: Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto.
Desta maneira se definiu o Batista. A definição
do pregador, cuidava eu que era: voz que arrazoa e não
voz que brada. Pois por que se definiu o Batista pelo bradar
e não pelo arrazoar; não pela razão, senão
pelos brados? Porque há muita gente neste mundo com
quem podem mais os brados que a razão, e tais eram aqueles
a quem o Batista pregava. Vede-o claramente em Cristo. Depois
que Pilatos examinou as acusações que contra
ele se davam, lavou as mãos e disse: Ego nullam causam
invenio in homine isto: Eu nenhuma causa acho neste homem.
Neste tempo todo o povo e os escribas bradavam de fora, que
fosse crucificado: At illi magis clamabant, crucifigatur. De
maneira que Cristo tinha por si a razão e tinha contra
si os brados. E qual pôde mais? Puderam mais os brados
que a razão. A razão não valeu para o
livrar, os brados bastaram para o pôr na Cruz. E como
os brados no Mundo podem tanto, bem é que bradem alguma
vez os pregadores, bem é que gritem. Por isso Isaías
chamou aos pregadores nuvens: Qui sunt isti, qui ut nubes volant?
A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio:
relâmpago para os olhos, trovão para os ouvidos,
raio para o coração; com o relâmpago alumia,
com o trovão assombra, com o raio mata. Mas o raio fere
a um, o relâmpago a muitos, o trovão a todos.
Assim há-de ser a voz do pregador, um trovão
do Céu, que assombre e faça tremer o Mundo. Mas
que diremos à oração de Moisés?
Concrescat ut pluvia doctrina mea: fluat ut ros eloquim meum:
Desça minha doutrina como chuva do céu, e a minha
voz e as minhas palavras como orvalho que se destila brandamente
e sem ruído. Que diremos ao exemplo ordinário
de Cristo, tão celebrado por Isaías: Non clamabit
neque audietur vox ejus foris? Não clamará, não
bradará, mas falará com uma voz tão moderada
que se não possa ouvir fora. E não há dúvida
que o praticar familiarmente, e o falar mais ao ouvido que
aos ouvidos, não só concilia maior atenção,
mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra
e se mete na alma. Em conclusão que a causa de não
fazerem hoje fruto os pregadores com a palavra de Deus, nem é a
circunstância da pessoa: Qui seminat: nem a do estilo:
Seminare; nem a da matéria: Semen; nem a da ciência:
Suum; nem a da voz: Clamabat. Moisés tinha fraca voz;
Amós tinha grosseiro estilo; Salamão multiplicava
e variava os assuntos; Balaão não tinha exemplo
de vida; o seu animal não tinha ciência; e contudo
todos estes, falando, persuadiam e convenciam. Pois se nenhuma
destas razões que discorremos, nem todas elas juntas
são a causa principal nem bastante do pouco fruto que
hoje faz a palavra de Deus, qual diremos finalmente que é a
verdadeira causa?
IX
As palavras que tomei por tema o dizem. Semen est verbum Dei.
Sabeis, Cristãos, a causa por que se faz hoje tão
pouco fruto com tantas pregações? É porque
as palavras dos pregadores são palavras, mas não
são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se
ouve. A palavra de Deus (como diria) é tão poderosa
e tão eficaz, que não só na boa terra
faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce.
Mas se as palavras dos pregadores não são palavras
de Deus, que muito que não tenham a eficácia
e os efeitos da palavra de Deus? Ventum seminabunt, et turbinem
colligent, diz o Espírito Santo: Quem semeia ventos,
colhe tempestades. Se os pregadores semeiam vento, se o que
se prega é vaidade, se não se prega a palavra
de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr
tormenta, em vez de colher fruto? Mas dir-me-eis: Padre, os
pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não
pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam
a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de
Deus, mas não pregam a palavra de Deus: Qui habet sermonem
meum, loquatur sermonem meum vere, disse Deus por Jeremias.
As palavras de Deus, pregadas no sentido em que Deus as disse,
são palavras de Deus; mas pregadas no sentido que nós
queremos, não são palavras de Deus, antes podem
ser palavras do Demônio. Tentou o Demônio a Cristo
a que fizesse das pedras pão. Respondeu-lhe o Senhor:
Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo, quod procedit
de ore dei. Esta sentença era tirada do capítulo
VIII do Deuteronômio. Vendo o Demônio que o Senhor
se defendia da tentação com a Escritura, leva-o
ao Templo, e alegando o lugar do salmo 90, diz-lhe desta maneira:
Mille te deorsum; scriptum est enim, quia Angelis suis Deus
mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: Deita-te
daí abaixo, porque prometido está nas Sagradas
Escrituras que os anjos te tomarão nos braços,
para que te não faças mal. De sorte que Cristo
defendeu-se do Diabo com a Escritura, e o Diabo tentou a Cristo
com a Escritura. Todas as Escrituras são palavra de
Deus: pois se Cristo toma a Escritura para se defender do Diabo,
como toma o Diabo a Escritura para tentar a Cristo? A razão é porque
Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido,
e o Diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio
e torcido; e as mesmas palavras, que tomadas em verdadeiro
sentido são palavras de Deus, tomadas em sentido alheio,
são armas do Diabo. As mesmas palavras que, tomadas
no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas
no sentido em que Deus as não disse, são tentação.
Eis aqui a tentação com que então quis
o Diabo derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra
do pináculo do templo. O pináculo do templo é o