Blog do Rene


 
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Audição Mínima
Série : Audição Mínima, por Thiago Esperandio
Clube da Esquina


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Grandes Planetas em órbita do Astro-Rei (Sol negro)Milton Nascimento.

Em torno de Milton Nascimento, estavam letristas como Márcio Borges e Fernando Brant, instrumentistas da maior grandeza como Wagner Tiso e Toninho Horta, “intérpretes-instrumentistas-compositores” como Beto Guedes e Lô Borges entre outros astros como Alaíde Costa e muitos mais.

O resultado ainda assim é surpreendente, pois o Clube da Esquina é indescritível. A influência de Beatles e bandas de Rock Progressivo que na década de 1970 era o que de mais eclético e sofisticado o pop-rock fornecia é latente no disco. Os arranjos de Wagner Tiso dão o toque erudito, a guitarra de Toninho Horta o jazzístico. Tudo isso para servir de adorno para a música de Milton Nascimento que em si já tinha tudo isso, mais a interioridade de Minas Gerais, com sua herança barroca.



Como diz Tolstói: “se queres ser universal, canta tua aldeia”e foi isso o que os membros desse clube fizeram. Falando da aldeia deles, falaram do Mundo todo, no melhor estilo do também mineiro Guimarães Rosa. O clube da Esquina atualmente é encontrado em promoções de grandes lojas por preços honestos (às vezes em torno de R$ 10,00), mas com certeza pode ser baixado da internet também.

Zé Ramalho

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“Eu prefiro um galope soberano, à loucura do Mundo me entregar”

Esta frase de Zé Ramalho é só uma das pérolas do seu repertório. Os 5 primeiros discos desse fã de Bob Dylan e Luiz Gonzaga são geniais: Zé Ramalho, A peleja do diabo com o dono do céu, A terceira lâmina, Força Verde e Orquídea negra.

Já no primeiro, disco clássicos como Avohai, Vila do Sossego, Chão de Giz, A Dança das Borboletas (esta ganhou uma versão da banda Sepultura que participou da trilha sonora do filme “Lisbela e o Prisioneiro”e na versão original do disco de Zé Ramalho tem solos de guitarra de Sergio Dias dos Mutantes) e Bicho de 7 Cabeças (esta foi trilha sonora do filme de mesmo nome e no disco de Zé Ramalho aparece em versão instrumental) aparecem com arranjos onde o Nordeste e a música pop do Mundo todo se fundem como se não houvesse distância geográfica e muito menos cultural entre eles.

No se disco Força Verde, todas as músicas têm citações de Mitologia Grega sem perder sua característica de música Nordestina. Em uma brincadeira nada desrespeitosa poderíamos chamar este disco de um forró-mitológico.

Elomar
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O Guimarães Rosa da música brasileira?

Já em seu primeiro disco, ainda na década de 70, Elomar ganhou um texto de Vinícius de Moraes na contracapa. Elomar é um tovador medieval que retrata os temas dos retirantes e toda a lírica e religiosidade nordestina em suas canções. Faz isso sem abandonar a linguagem dos moradores do semi-árido com suas peculiaridades todas. É o extremo da erudição tanto musicalmente quanto literariamente. Neologismos e reproduções do léxico sertanejo merecem discos cujas últimas edições vêm acompanhadas de um glossário para possibilitar a compreensão das canções e para nos enriquecer com essa sabedoria “regada”por muitas estiagens. Elomar reproduz em algumas canções, duelos entre repentistas que pelejam nos versos tal qual as personagens da Ilíada o fazem com as armas.

Destaque para os discos Cantoria, onde também participam o intérprete Xangai, os compositores e intérpretes Vital Farias e Geraldo Azevedo; Nas Quadradas das Águas Perdidas e Das Barrancas do Rio Gavião.


A Alucinação de Belchior

Este baiano da geração pós-tropicalha funde o Black Bird dos Beatles com o Assum Preto de Luiz Gonzaga e o corvo do poeta Edgar Alan Poe em um disco que contém músicas que ficaram clássicas na voz de Elis Regina: Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida.

Algumas menções a Caetano Veloso são feitas nesse disco: “um antigo compositor baiano me dizia: tudo é divino, tudo é maravilhoso”. A canção Apenas Rapaz Latino Americano foi citada na letra de Rap dos Racionais MC`s (Racionais capítulo 4, versículo 3).

Sua voz rasgada e nasalada é por si só uma ruptura com a estética da canção brasileira feita pela geração anterior a Belchior. Diante de tanta exposição das mazelas sociais e existências feita no disco, uma bela voz seria um alento que este artista não aceita dar aos seus ouvintes “eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém”.

Destaco aqui o disco Alucinação que deve fazer parte de qualquer Cdteca de quem aprecia a literariedade da MPB. A visão de Belchior é oposta a qualquer alienação entorpecente: “Minha alucinação é suportar o dia-a-dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”... a dura realidade só vai ser mudada se encarada com sobriedade.


Chico Buarque

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Tarefa ingrata falar de um disco do Chico Buarque. Toda sua obra merece ser comentada sob vários aspectos: O cronista das distorções sociais do Brasil que se coloca no eu-lírico dos sem-voz (embora não sejam mudos) para mostrar o outro lado dos “fatos”. Chico tem canções com o eu-lírico feminino como Mulheres de Atenas, Olhos nos Olhos, Com açúcar com afeto, Sem açúcar e outras várias; em outras músicas nos mostra a leitura de mundo dos Mambembes, dos apaixonados, dos injustiçados, entre outras personagens do nosso Brasil.

Vale a pena ficar atento nos livros de roteiros culturais para as montagens dos musicais escritos por Chico Buarque: Gota d’água, A ópera do Malandro, Calabar, O grande Circo Místico, os Saltimbancos (este é infantil, mas não só para crianças) e Cambaio.


Tom Zé.

“Eu tô te explicando pra te confundir, eu tô te confundindo pra te esclarecer”

Talvez o único dos tropicalistas que nunca deixou de ser tropicalista, Tom Zé é completo. Tem erudição musical capaz de colocar um coral de música erudita no meio de um sambinha, traduz a cidade de São Paulo sonoramente fundindo partículas musicais que aparentemente seriam ab(surda)mente impossíveis de se fundirem, mas que em sua música são “forçadas”a conviverem tal qual acontece com pessoas e sons tão diferentes que convivem na “paulicéia desvairada”. Na música de Tom Zé, instrumentos de harmonia como o contra-baixo são usados como instrumentos de percussão e qualquer ruído pode ser incorporado ä sonoplastia das canções.

Além de tudo, Tom Zé é grande letrista. Com ironia e literariedade entre outras características, trata verborragicamente de temas que vão da “ditadura da felicidade”ou seja, da “obrigação” que os meios de comunicação impõem a todos de serem felizes, da política nacional, das ideologias, do amor, etc...

Com forte influência da poesia concreta, nada escapa de sua mira. Destaque para os discos “Estudando o Samba” cujo próprio nome já diz que este estilo musical vai passar pelo laboratório de Tom Zé e o disco “Todos os Olhos” cuja capa é um dos maiores dribles na censura da ditadura militar: Por idéia do poeta Décio Pignatari um ânus foi fotografado com uma bola de Gude de uma distância tão próxima que acabou não sendo percebido como tal. Em plena ditadura militar moralista as lojas de disco (na época a capa do vinil era bem grande) exibiam uma parte da anatomia humana de que pouco se falava em público naqueles tempos...

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